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Profissional de saúde prepara dose da vacina Oxford/AstraZeneca contra a Covid-19 em centro de vacinação em Brighton, Inglaterra, 26 de janeiro
Profissional de saúde prepara dose da vacina Oxford/AstraZeneca contra a Covid-19.| Foto: Ben Stansall/AFP

Foi recentemente que dei mais atenção ao bizarríssimo caso Pizzagate, durante as eleições norte-americanas de 2016. O caso, um “ancestral” dos QAnons atuais, resultou de uma teoria conspiratória segundo a qual um círculo secreto de pedófilos e satanistas, envolvendo membros do Partido Democrata, teria seu quartel-general num restaurante em Washington. Denúncias anônimas contra o restaurante levaram a uma onda de ameaças e ataques on-line, até que finalmente um homem decidiu “estourar” a quadrilha pessoalmente, invadindo o restaurante com um fuzil AR-15.

Edgar Maddison Welch, um sujeito fervorosamente religioso, obcecado com a internet, um pouco perdido profissionalmente, mas amado pelos filhos, mulher e família, chegou a atirar, mas não houve vítimas; e não encontrou nada no lugar – nenhuma das pobres crianças escravizadas. Depois de preso, admitiu ter exagerado um pouco, mas não abandonou as suspeitas sobre o círculo secreto.

O Pizzagate tornou-se um exemplo emblemático de como teorias conspiratórias podem ser a gota d’água num processo de alienação social, em que um sujeito perfeitamente comum se torna, de repente, um perigo social e uma marionete de construtores de narrativas. Esses três elementos combinados – um sentimento de exclusão e alienação social, fervor religioso e a internet – parecem realmente estar associados a uma nova forma de patologia social.

Será que os evangélicos têm mesmo um problema com a realidade? Sofremos de alguma susceptibilidade a alienação cognitiva?

O efeito combinado disso, no caso de Welch, foi um tipo de descolamento da realidade, e um movimento agressivo contra ela. É um fenômeno preocupante; a invasão da Casa Branca por trumpistas e QAnons, e o amplo suporte da direita cristã às alegações nunca demonstradas por Trump de uma enorme fraude eleitoral mostram com clareza que, além de desestabilizar indivíduos, o fenômeno pode desestabilizar a sociedade.

Ocorre que para mim, um ministro religioso, a coisa toda é duplamente preocupante. Dois fatos acendem a luz vermelha no meu painel: em primeiro lugar, muitos evangélicos deram suporte a fake news e teorias conspiratórias nos EUA, e o mesmo vem ocorrendo no Brasil. Em segundo lugar, há indícios de associação entre religião e fake news, sob certas condições. Um grupo de pesquisadores mostrou uma correlação preocupante entre conservadorismo religioso e vulnerabilidade a fake news num artigo científico de março de 2019.

Será que os evangélicos têm mesmo um problema com a realidade? Sofremos de alguma susceptibilidade a alienação cognitiva?

Evangélicos e fake news: credulidade e ceticismo

Cresci em ambiente evangélico, e os crentes honestos vão confirmar que é um ambiente no qual teorias conspiratórias fantasiosas envolvendo ciência, governos e demônios são extremamente comuns. Há quase 40 anos eu ouvi, no culto de uma igreja batista com esses ouvidos que a terra há de comer e que Jesus há de reclamar, uma irmã contar sobre sua abdução para a nave-mãe da frota estelar de Jesus, estacionada próximo da Terra! Segundo a missionária, os anjos ocupavam seus postos na sala de controle e a frota era visível da janela da espaçonave.

Lembro-me de que, ao ouvir entre glórias e aleluias essa grande revelação, digna de um episódio de Alienígenas do Passado do History Channel, puxei gentilmente a minha então namorada e saímos imediatamente do lugar pelo corredor central. Nunca mais voltei ali – muito embora jamais tenha deixado a Igreja cristã. Não nos esqueçamos de que Jesus tinha um discípulo traidor e outro bastante tresloucado que cortava as orelhas dos outros!

Evangélicos ou ex-evangélicos mais antigos lembram-se ainda de especulações detalhadíssimas, no campo da “escatologia” (a doutrina sobre o futuro, as últimas coisas e o fim dos tempos), a respeito de como governos mundiais estavam preparando uma grande conflagração, que aconteceria em poucos anos (daí já se vão quase 40), sendo que a União Soviética (que nem existe mais) teria um papel central. Na porta de uma igreja que frequentei vendiam-se cassetes e discos de vinil de um “profeta” que anunciava: no futuro todos os alimentos seriam feitos de petróleo. Mais recentemente, houve a revelação dos complôs demoníacos da Disney para levar crianças para o satanismo, muito popularizados no Brasil, e a tese de que Michel Temer seria um satanista envolvido com uma rede de bruxaria. E quem não se lembra do boneco Fofão ou da história das mensagens demoníacas em discos da Xuxa quando tocados ao contrário?

Não tenho nenhum prazer em desenterrar esses presuntos, mas o fato é que há, no ambiente evangélico, uma notória vulnerabilidade a histórias misteriosas, informações falsas, golpes e narrativas conspiratórias. Christopher Douglas publicou, em janeiro de 2018, um relatório sobre a relação entre religião e fake news, encomendado pelo Cambridge Institute on Religion & International Studies (Ciris), que tem sido amplamente citado. O estudo detectou três “assimetrias”: as fake news circulam mais entre americanos do que entre europeus, mais entre conservadores do que entre progressistas, e frequentemente apresentam temas religiosos.

Segundo Douglas, “a origem dos ecossistemas de fake news de informação-entretenimento se encontra principalmente no cultivo, pelo cristianismo fundamentalista, de contraexpertise”. Contraexpertise é a construção de corpos institucionais para validar narrativas alternativas, contrárias à ciência das elites. Aí, segundo Douglas, estariam, por exemplo, o criacionismo científico e a erudição bíblica conservadora, que rejeita a crítica histórica da Bíblia.

O problema é que a criação sistemática dessas narrativas “alternativas” criou uma situação em que os cristãos se tornam excessivamente desconfiados de tudo o que vem “de fora”, e excessivamente crédulos em tudo o que vem “de dentro”. O que eu mesmo descrevi, em outro contexto, como uma combinação paradoxal de credulidade e ceticismo.

Mas, antes de concordar, vamos discordar um pouco: o conjunto e exemplos de Douglas me parecem bastante problemáticos, por três razões principais.

Em primeiro lugar, embora em alguns campos do conhecimento exista algo como o que Thomas Kuhn chamava de “ciência normal”, em outros, como Relações Internacionais, Psicologia, ou Ciências Sociais, isso simplesmente não existe. O que temos são grandes tradições interpretativas – pensemos, por exemplo, na tradição hermenêutica, ou no funcionalismo ou no realismo crítico em Sociologia, por exemplo. Nesse sentido, é natural e inevitável que, por exemplo, dentro da Teologia, se formem corpos institucionais ao redor de programas de pesquisa e de práticas religiosas.

O fato é que há, no ambiente evangélico, uma notória vulnerabilidade a histórias misteriosas, informações falsas, golpes e narrativas conspiratórias

Em segundo lugar, a esse limite natural contra hegemonias discursivas em alguns campos eu adicionaria o fato de que a política e a democracia pressupõem a inevitabilidade de grandes áreas de dissenso e a permissão de uma pluralidade de narrativas e visões de mundo, as quais contarão, necessariamente, com instituições de suporte narrativo, como a imprensa de opinião, por exemplo. É assim que temos, por um lado, o Intercept Brasil e a Gazeta do Povo, ambos empreendimentos intelectualmente legítimos, ainda que vulneráveis, cada um a seu modo.

Finalmente, em terceiro lugar, nem sempre empreendimentos intelectuais alternativos em relação ao discurso das elites são ruins ou infrutíferos. Consideremos, por exemplo, a emergência do novo método científico diante de um establishment acadêmico e religioso predominantemente aristotélico. O novo discurso mostrou-se frutífero e, com a Revolução Científica, hegemônico (o que de modo algum tornou o aristotelismo irrecuperavelmente obsoleto).

Com essas três qualificações, penso ser necessário considerar o problema que o relatório de Christopher Douglas levantou: que nos ambientes cristãos fundamentalistas, habituados ao cultivo de estruturas de contraexpertise, a adesão a fake news é maior; e, aparentemente, a tempestade perfeita ocorre quando temos a combinação de conservadorismo com religião. Se tais estruturas são necessárias e inevitáveis na construção da coesão de grupos minoritários, o problema está, provavelmente, no modo como são construídas. E, se há evidência de que cristãos conservadores são mais suscetíveis a fake news, certamente temos cometido algum erro arquitetônico.

Câmaras de eco e a pós-verdade

C. Thi Nguyen, professor de Filosofia da Utah Valley University, publicou em abril de 2018 um interessante artigo para a revista Aeon, “Escape the echo chamber”, seguido no mesmo ano de um artigo mais detalhado para a revista acadêmica Episteme: “Echo Chambers and Epistemic Bubbles” (“Câmaras de eco e bolhas epistêmicas”), e seu trabalho ajuda bastante a iluminar o quadro.

Segundo Nguyen, as “bolhas epistêmicas” e as “câmaras de eco” são fenômenos muito diferentes e que não devem ser confundidos. A bolhas podem se formar naturalmente, como resultado de nos cercarmos, por afinidade, de pessoas que pensam como nós, filtrando assim a informação que entra em nosso “cardápio”. Ficamos assim com uma imagem distorcida da realidade; mas isso não significa que temos algo contra os de fora. Apenas temos uma prática discursiva que dificulta a entrada de informação nova. Mas, assim como bolhas de sabão, bolhas epistêmicas são fáceis de estourar; basta introduzirmos informações complementares e de qualidade. Isso é geralmente suficiente para ampliar as percepções.

Com “câmaras de eco”, a coisa é bem mais complicada. Essas câmaras se formam quando temos um grupo social no qual há o hábito de desacreditar sistematicamente as fontes externas ou divergentes, e de confiar de forma exagerada nas fontes internas. Essa estrutura social-epistêmica não é necessariamente fechada a informações de fora; é que todas essas informações são sistematicamente neutralizadas por uma manipulação cognitiva, de modo que servem apenas para reforçar o sistema de defesa interno do grupo social. Temos, então, uma espécie de loop cognitivo infinito, em que toda evidência dissonante é interpretada como um gesto de hostilidade e uma prova da necessidade de reforçar a confiança interna do grupo.

A bolha epistêmica é claramente distinta da câmara de eco; no caso da primeira, temos um problema de conectividade, uma distorção no fluxo de informação, uma cobertura incompleta dos fatos por omissões. Os algoritmos de mídias sociais frequentemente reforçam essas bolhas. A correção é usar contramedidas para garantir o fluxo de informação. No caso da segunda, temos uma estrutura criada “pela manipulação da confiança” – ou, podemos dizer, da desconfiança. A função da câmara de eco é precisamente “isolar credencialmente os seus membros por uma manipulação da confiança”. Câmaras de eco são estruturas de descredibilização estratégica.

Assim a apresentação de evidência contrária pode, em vez de enfraquecer, reforçar a câmara de eco. Grupos de terraplanistas ou de antivacinas, por exemplo, não se dispersam com a exposição à informação correta. Pelo contrário, se alimentam dela para construir o esforço de negação em seus mundos paralelos. É assim que o fenômeno da “pós-verdade” se tornou tão perigoso; a sociedade se fragmenta em caixas de narrativa herméticas, que não se comunicam verdadeiramente entre si.

O tempo todo acreditamos nas normas sociais, nas instituições, nas pessoas próximas, em livros e em especialistas. Confiar é uma dimensão da condição humana

Entre seus diversos insights, Nguyen oferece dois que me parecem crucialmente importantes. Em primeiro lugar, que a solução para isso não é o cultivo de um “cartesianismo” universal, como se a dúvida pudesse nos salvar. Ele reconhece, a partir de outros pensadores importantes, que a confiança nos outros é “necessária e inerradicável”. O tempo todo acreditamos nas normas sociais, nas instituições, nas pessoas próximas, em livros, e em especialistas que cuidam de aviões, da construção de casas, do fornecimento de energia elétrica ou de alimentos, mesmo não tendo a menor ideia de como eles tomam decisões. Confiar é uma dimensão da condição humana.

O segundo insight é o de que, se de fato as câmaras de eco se formam pela manipulação da confiança e pela geração de descrença em relação aos de fora, o caminho para desfazê-las seria o cultivo de relações de confiança entre os membros da câmara de eco e os de fora. Nguyen oferece relatos interessantes a respeito, e é claro que isso faz muito sentido. Parece que a arma principal na corrente guerra cognitiva não é a verdade ou mesmo a informação, mas a confiança. Trata-se de um problema moral e espiritual, que não pode ser vencido apenas com melhores conteúdos ou argumentações científicas, jornalísticas e políticas.

De novo, o bem comum

Mas o que pode fazer com que pessoas que habitam mundos paralelos em certa área de discussão possam confiar umas nas outras? Essa é uma pergunta crucial que já levantamos em diversos momentos nessa coluna. A resposta é: o bem comum.

O cientista político Robert Putnam mostrou que, quando damos destaque à diversidade entre as pessoas – seja de opinião, moralidade, cor de pele ou religião –, elas tendem a se sentir desconfiadas umas das outras e reduzem a cooperação. Mas quando, mesmo sendo muito diferentes, elas descobrem áreas de semelhança e congruência, tendem a confiar mais umas nas outras e a relativizar o impacto da diferença. De forma contraintiutiva, portanto, se queremos promover maior cooperação entre pessoas diferentes, precisamos acentuar o quanto são semelhantes, e não martelar unilateralmente em suas cabeças a irredutibilidade das diferenças!

Isso tem uma aplicação direta para o campo das crenças. A elevadíssima exposição a informações e discursos, e a liquidez dos costumes e dos relacionamentos em nossas sociedades ultrapluralizadas tendem a promover esforços energéticos de definição, recuperação e preservação de identidades. Nesse contexto, as pessoas são muito mais suscetíveis a alterar as suas prioridades cognitivas e suspender a busca da verdade em favor das histórias que protegem melhor o “seu” grupo social.

Reconstruir o tecido social significa reconstruir a confiança entre grupos, e isso depende da identificação de bens comuns, ao redor dos quais novos laços comunitários possam ser estabelecidos

Nesse sentido, eu diria que a análise de Nguyen carece de um elemento contextual e crítico: a dinâmica social que favorece a tribalização epistêmica. Em uma sociedade fragmentada e líquida, na qual os indivíduos estão mergulhando em si mesmos, sentindo-se socialmente alienados e buscando desesperadamente corroborações externas para compensar seu sofrimento identitário, é claro que o fenômeno das “câmaras de eco” só poderia florescer.

Reconstruir o tecido social significa reconstruir a confiança entre grupos, e isso depende da identificação de bens comuns, ao redor dos quais novos laços comunitários possam ser estabelecidos, e a suspeita radical sobre as pessoas “de fora” seja relativizada. Pense, por exemplo, num bolsonarista e num psolista que amam cervejas artesanais ou a construção de móveis de madeira. Mostrando cuidado mútuo e lealdade em suas zonas de convergência, eles podem, se quiserem, atenuar seus radicalismos políticos e ouvir melhor o outro, “apenas por sermos amigos”. Isso pode ser feito individualmente, mas também coletivamente.

Câmaras de eco e comunidades de crença: qual a diferença?

Aqui cabe outra crítica a Nguyen; penso que sua descrição das “câmaras de eco” não faz justiça ao que as comunidades cristãs são, historicamente, e como funcionam. Vamos retomar sua definição:

“Por ‘câmara de eco’, refiro-me a uma comunidade epistêmica que cria uma disparidade significativa na confiança entre membros e não membros. Essa disparidade é criada excluindo não membros por meio do descrédito epistêmico, enquanto ao mesmo tempo amplifica as credenciais epistêmicas dos membros. Finalmente, câmaras de eco são tais que a concordância geral com um conjunto central de crenças é um pré-requisito para a membresia, sendo que essas crenças centrais incluem crenças que sustentam a disparidade na confiança.”

O mecanismo não é difícil de compreender: se você participa de um grupo que acredita muito em certas crenças, incluindo a crença de que os de fora são incompetentes para debater o assunto, você não dará muita atenção aos argumentos deles. Pelo contrário, provavelmente os usará para ilustrar o quanto os de fora são evidentemente maus ou malucos.

Em muitas religiões cultivam-se virtudes destinadas a ampliar o diálogo com a realidade e com outras culturas

Aqui temos, evidentemente, um problema a resolver. Pois diferentes comunidades – a imprensa, sociedades científicas, movimentos políticos e grupos religiosos – promovem confiança e desconfiança. Consideremos, por exemplo, o que faz uma sociedade científica. Segundo Michael Polanyi, o amor ao conhecimento e a convicção de sua acessibilidade são condições para participar de comunidades científicas. Por outro lado, temos institutos como o Instituto Questão de Ciência (IQC), dedicados, entre outras coisas, a desacreditar pseudociências e falsas narrativas.

Como as religiões em geral sustentam que há realidades espirituais ou divinas que não são evidentes a todos, ou que não são trivialmente acessíveis a todos, virtualmente cada religião tem alguma explicação para a incredulidade dos que são “de fora”. Mas isso não torna todas a religiões seitas herméticas das quais é quase impossível escapar; pelo contrário, em muitas delas cultivam-se virtudes destinadas a ampliar o diálogo com a realidade e com outras culturas.

Finalmente, não podemos nos esquecer de que as crenças religiosas não são fins em si mesmas, mas instrumentos para estabelecer certas relações com o mundo que são existencialmente significativas – para perceber a presença divina, para resistir ao mal, para construir liturgias coletivas e práticas sociais etc. E, pela própria natureza dessas atividades, não é viável que as crenças que as sustentam sejam constantemente retiradas do lugar e postas sub judice.

De certa forma, isso se assemelha ao exemplo do espelho odontológico, a partir do pensamento de Michael Polanyi: o dentista não pode inquirir sobre o estado da boca do paciente e, ao mesmo tempo, duvidar do espelho. Em algum momento as crenças que usamos para interpretar o mundo precisam ser pressupostas e sair do foco da nossa visão, enquanto nos concentramos em novas tarefas. Se o dentista tiver um assistente que sempre lança dúvidas sobre os espelhos odontológicos, não conseguirá trabalhar!

Não basta, portanto, constatar que uma comunidade epistêmica tem fronteiras de crença e filtros internos, e que esteja em concorrência cognitiva com outras comunidades, para descobrir uma câmara de eco cognitiva. Toda comunidade e, especialmente, toda comunidade cristã naturalmente desenvolverá estruturas de reforço cognitivo. Há alguma coisa faltando no modelo de Nguyen.

Comunidades de comunicação

Penso que a resposta reside no tipo de comunidade que procuramos promover. Comunidades sadias existem para promover bens coletivos; o bem comum identificado por todos e cultivado com práticas eficientes e reconhecidas faz as pessoas convergirem e cooperarem. Também tratamos desse assunto aqui, anteriormente; na concepção agostiniana de sociedade, os povos se reúnem ao redor do que amam.

Isso se aplica, por exemplo, à ciência; comunidades científicas se articulam ao redor do conhecimento, pelo amor ao conhecimento, cultivando tradições, instrumentos, métodos e exemplos de como preservar e ampliar o conhecimento. Com todos os seus defeitos, politicagens e egoísmos de seus membros, são comunidades de amor. A ciência tem, também, seus mecanismos de proteção e até de descredibilização, mas eles existem em função de seus fins superiores.

A pergunta que deve ser feita, no tocante a um grupo “câmara de eco”, é a mesma: quais são os fins dessa estrutura social-epistêmica? Por qual razão ela existe? Arrisco-me a dizer que, na maioria dos casos, elas não existem para um esforço construtivo rumo a uma atividade compartilhada, mas como um mero esforço defensivo e alienante. Elas não têm outra finalidade a não ser a sua autoperpetuação, de modo que seus mecanismos de proteção nada protegem a não ser o estado de alienação de grupo.

O bem comum identificado por todos e cultivado com práticas eficientes e reconhecidas faz as pessoas convergirem e cooperarem

O próprio Nguyen observa em seu artigo que às vezes um indivíduo, operando dentro de uma câmara de eco cognitiva, se esforça para agir virtuosamente a partir das crenças e pressupostos disponíveis, mas ainda assim o resultado final é doentio. Nesse caso o vício não é tanto do indivíduo, mas da estrutura social-cognitiva em si, ou seja, da própria câmara de eco, que “recruta” as habilidades, a seriedade, o foco e outras características do bom pensamento para colocá-los a serviço de um projeto ideológico manipulativo.

Mas o que seria uma comunidade virtuosa? Vale citarmos aqui um trecho do artigo “Nós somos o que nós amamos”, publicado nessa coluna:

“Esse é um traço interessante das mais diversas formas de associação humana: famílias, partidos, igrejas, universidades, coletivos artísticos, associações de bairro, sociedades profissionais etc.: todas elas têm centros de gravidade que nos fazem orbitar a seu redor. Esses centros de gravidade são bens humanos reconhecidos coletivamente, que podem ser o afeto, os filhos, a fé e as tradições religiosas, a ciência, a poesia, o meio ambiente, tradições culinárias, a educação de crianças, uma profissão, e assim por diante. Poderíamos também dizer que esses bens amados por suas comunidades correspondentes constituem os fins dessas comunidades; elas existem por causa deles. Assim, comunidades de amor são também comunidades de propósito.”

Não podemos falar sobre uma comunidade humana abstratamente, sem considerar seus fins e o modo como ela se organiza para alcançá-los. Nessa perspectiva, uma “câmara de eco” poderia ser classificada como uma forma defectiva de comunidade. Enquanto caricatura de uma comunidade epistêmica, falha em atingir o alvo porque a verdade e as virtudes intelectuais não são a sua norma interna, mas sim a ansiedade de autoproteção e de autoafirmação do grupo. Nesse sentido, as câmaras de eco servem para reforçar epistemologias tribais.

No caso das comunidades cristãs, a tarefa de identificar seu propósito e eixo de finalidade: elas são comunidades de fé e de comunicação. Existem para anunciar e demonstrar a realidade de Deus em termos significativos para cada época e lugar. E isso mostra com clareza límpida por que elas não podem ser câmaras de eco cognitivas e ao mesmo tempo comunidades cristãs autênticas: elas precisam, por natureza, se comunicar. Fechar-se hermeticamente em autodefesa é, na verdade, o contrário de tudo o que a mensagem cristã significa.

Pensemos no modelo de Cristo, o pioneiro do cristianismo: segundo a mensagem do Evangelho, ele é a Palavra que se encarna e que mora com os homens. Jesus é aquele que é questionado e questiona; que é vulnerável e que procura a autenticidade, e não a autoafirmação ansiosa; que vem e habita. O paradigma cristão é de extroversão, de autotranscendência e de encontro.

Assim também o grupo de discípulos de Jesus se torna uma comunidade apostólica, comissionada para a encarnação e a comunicação com os homens. O universalismo cristão certamente implica uma “concorrência” com outras narrativas, mas assume a existência de uma base comum com todos os homens e se desarma colocando os olhos nos bens que precisam ser buscados e cultivados.

Contra o tribalismo evangélico

Poderíamos traduzir isso nos termos do que pede o discipulado cristão: “quem quiser salvar a sua vida, perde-a; mas quem a perde por amor de Cristo e do Evangelho a ganha”. Em termos cognitivos: quem pensa a fim de se proteger se enreda epistemicamente; mas quem pensa por amor à verdade e sobre ela constrói a sua casa terá nela o máximo de proteção e de segurança.

Penso que os cristãos devem, sim, estabelecer suas tradições interpretativas, suas formulações doutrinárias, suas práticas de formação espiritual; devem ter suas instituições, e reunir pessoas com expertise em diversas áreas para ajudar no esforço de amadurecimento intelectual e prático; devem, ainda, buscar o que é às vezes chamado de “cosmovisão cristã”: uma compreensão holística da realidade a partir das luzes da revelação cristã, que oriente o cristão sobre como viver diante da realidade e presença divina.

Mas isso não pode ser feito em espírito e ressentimento e de autodefesa. Todo o propósito de uma “visão de mundo cristã” é estabelecer uma relação rica e integral com a realidade, e não o defender-se contra ela. No entanto, assim como Jesus denunciou, em seu tempo, alguns fariseus que usavam os mandamentos religiosos para evitar a obediência à lei de Deus, e não para cumpri-la, é possível – e, na verdade, extremamente comum – que usemos formulações teológicas e morais sofisticadas precisamente com o propósito de evitar um engajamento real, e de contornar a realidade.

Todo o propósito de uma “visão de mundo cristã” é estabelecer uma relação rica e integral com a realidade, e não o defender-se contra ela

Quando isso acontece, o foco da reflexão deixa de ser o aumento da “superfície de contato” e uma resposta eficiente e honesta a essa realidade, e passa a ser a consistência interna do sistema de crenças e sua conformação com as exigências sociais do grupo. Torna-se uma espécie de formalismo discursivo. É possível, desse ponto em diante, que a realidade não importe mais, mas apenas a narrativa. E uma concepção rica e genial, como a “cosmovisão cristã”, deixe de ser uma ferramenta de reflexão crítica e comunicação para se tornar uma justificativa para “o mundo paralelo dos crentes” – ou seja, a legitimação de uma epistemologia tribal.

Há poucos dias eu e alguns amigos encontramos um preocupante exemplo disso nas mídias sociais. Alguns cristãos conservadores citaram a doutrina cristã e reformada da Queda no pecado e da “depravação total” (doutrina segundo a qual, por sua alienação de Deus, o ser humano está espiritualmente morto em estado de inimizade contra o bem) como justificativa para rejeitar o esforço internacional de vacinação contra a Covid-19. A explicação seria que, dada a “depravação total”, temos uma razão extra para crer que esse esforço de governos e da indústria farmacêutica é interesseiro, corrupto, carente de segurança, e que a “legitimação científica” que ele recebe é só mais uma das manipulações das elites econômicas e ideológicas.

Ora, eu não poria minha mão no fogo por nenhum governo, nem pela indústria farmacêutica. Mas é evidente que esse gesto extremo de suspeita denota uma crise profunda de confiança, e não uma aplicação sóbria da doutrina cristã do pecado. Até porque, segundo essa doutrina, não apenas a indústria farmacêutica deveria ser posta entre parênteses, mas a atual Presidência da República, todos os influenciadores de direita, as mensagens conspiratórias de WhatsApp, o discurso antivax e, acima de tudo, o próprio coração do indivíduo que suspeita, já que o pecado é uma realidade universal da qual ninguém pode escapar.

O que temos aqui? O paradoxo da credulidade e do ceticismo, a construção de uma narrativa defensiva, que não visa promover algum bem, mas desacreditar pessoas e instituições, e a instrumentalização de uma doutrina teológica cristã com o fim de impedir a comunicação entre “os de dentro” e “os de fora”. Isso é precisamente o que constitui uma “câmara de eco” (que, no caso, não é uma igreja específica, mas uma rede de usuários de mídias sociais reforçando mutuamente suas narrativas paralelas).

Francis Schaeffer, segundo se relata extraoficialmente na comunidade L’Abri, não gostava muito de falar em “cosmovisão”. Para ele, a única razão para sermos cristãos é que Cristo seja a verdade sobre o universo; e por isso mesmo deveríamos levar nossas questões honestas até o esgotamento. Além disso, a missão cristã, em sua compreensão, não era trazer pessoas “para o nosso grupo”, mas para Deus e para o mundo real, aquele criado por Ele. Pessoalmente aprecio a ideia de “cosmovisão cristã”, desde que seja uma ferramenta de engajamento, e não de fuga.

Se cultivamos comunidades cognitivas nas quais o amor pela realidade seja um hábito coletivo, e a jornada em direção à luz seja o destino comum, mesmo na divergência com outras comunidades poderemos ser desafiados a aprender continuamente; e talvez não nos tornemos meras câmaras de eco de manipuladores cognitivos. A missão das comunidades cristãs não é cultivar a dúvida, a descrença e o descrédito, mas a honra, a confiança e a esperança.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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