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A crise no IBGE é um dos problemas mais preocupantes da atual conjuntura — que já é, em si, problemática. A ciranda da inversão de valores foi longe demais, num regime que chama todo mundo de antidemocrático para ficar à vontade nos seus desmandos. Colocar os indicadores socioeconômicos do país nessa névoa é uma temeridade.
Às vésperas da divulgação dos dados do PIB, a presidência do instituto tomou medidas drásticas. A demissão sumária da coordenadora de Contas Nacionais levou a pedidos de demissão em série de funcionários graduados do setor. O presidente do IBGE, Márcio Pochmann, é tradicional integrante da ala mais ideológica do PT — e mesmo a equipe de Dilma Rousseff, no período da derrocada de sua administração, lutou contra a influência de Pochmann no governo.
Entregar uma área técnica a um estilo administrativo sempre dividido entre a conduta acadêmica e a militância partidária é arriscado. Ou talvez tenha sido premeditado. O PT iniciou sua primeira gestão no governo federal (2003) seguindo as diretrizes da responsabilidade fiscal. O populismo e as tentações fisiológicas foram, naquela época, contidos e controlados em favor de uma administração pragmática. Mas isso não durou muito.
O petismo raiz logo se arrependeu de tentar pensar grande e retomou o fisiologismo como filosofia de segurança. As incertezas de uma administração meritocrática são muitas para quem acha que a maior chance de ter poder é se agarrar a ele. Na época do mensalão — denunciado em 2005 — ocorria também a guinada macroeconômica, verificada a partir da chegada de Guido Mantega à Fazenda. E, nessa época, os olhares petistas se voltaram para a Argentina.
Transcorria o governo de Néstor Kirchner, com algumas inovações interessantes para os adeptos da mistificação como fator de governança. Serviços essenciais tinham suas tarifas espetacularmente reduzidas, para produzir o efeito da aparente bondade que depois viria a ser bancada de forma menos perceptível pelo contribuinte. E surgiam também as mudanças de cálculos dos indicadores nacionais.
Kirchner alterou várias metodologias para inflação, crescimento econômico, emprego e outros índices essenciais à fotografia da sociedade. Chegou a decretar interferências explícitas nos órgãos oficiais de estatística para “modernizar” as aferições. Naturalmente, os dados foram ficando mais positivos para o governo — e a ruína populista do kirchnerismo ganhou uma fantasia bonita.
Esse tipo de mistificação “oficial” sempre encantou os fisiológicos brasileiros. Se o grande objetivo é viver pendurado na máquina estatal, fica bem mais seguro e confortável poder encher o peito para declarar que essa máquina está trabalhando bem — e ostentar bons resultados “oficiais”. O que pode atrapalhar nessas horas é a imprensa — tanto que Lula sempre convidou seu público a desconfiar do que lia nos jornais. Nos últimos anos, com a imprensa mais dócil ao PT, o problema passou a ser as redes sociais.
A novidade agora é que, aparentemente, a imprensa está mostrando sem filtros a crise no IBGE. Quem sabe isso não seja um bom sinal? Chega uma hora que a mistificação cansa até o mistificador. Com um pouco de sorte, ainda veremos os economistas do Plano Real que apoiaram a nova aventura petista tendo um choque de consciência. E ajudando o país a rejeitar o caminho da enganação.





