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Guilherme Fiuza

Guilherme Fiuza

Jogo de narrativas

EUA x Irã: a imprensa do lado errado

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil informa que acompanha “com preocupação” os acontecimentos no Irã — fórmula diplomática que observa tudo de perto, sem se comprometer com quase nada. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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O governo brasileiro condenou os ataques dos EUA ao Irã. Já o massacre da ditadura iraniana contra seu próprio povo não foi condenado pelo governo brasileiro. No caso, o Itamaraty apenas informou que o Brasil acompanhava, com preocupação, os acontecimentos.

Todos estão acompanhando, com preocupação, o percurso perigoso do governo brasileiro. Perigoso, mas nada surpreendente. Ninguém está autorizado a se declarar decepcionado com a quinta encarnação do petismo no Planalto. O partido é absolutamente coerente na sua forma de habitar o poder. Traiçoeiros são os que acenaram com perspectivas diferentes para o mesmo cardápio.

Entre os que envernizam a velha mobília petista está a imprensa — antes chamada de grande imprensa, hoje mais conhecida como velha imprensa. Mobília velha na política, cenografia velha na mídia. A pose dos âncoras, dos editorialistas e dos analistas está esvaziada de credibilidade e prestígio. Hoje, esse elenco, que já foi associado à missão de conectar o povo com a verdade, é visto, frequentemente, fazendo o contrário.

A postura indefensável do governo brasileiro de se alinhar ao regime obscuro do Irã é sutilmente (ou nem tanto) apoiada pela velha imprensa

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Qual é o problema se ela é velha? O problema é que ela é velha, anacrônica, degenerada e sonsa, mas ainda é muito assistida — e muito influente, apesar das análises que a dão como abandonada pelo grande público. Esse abandono não é verdadeiro. As premissas de que Donald Trump é o fator de desestabilização mundial e Lula é o contraponto pacifista são “compradas” por muita gente boa — graças à insistência midiática nessa narrativa patética.

Infelizmente, o direito internacional é, hoje, um retrato amarelado na parede da ONU. A observância ao conjunto de tratados e convenções que concretizaram, no século 20, o ambicioso objetivo de um mundo civilizado e cooperativo está em crise.

A Organização das Nações Unidas e demais instituições multilaterais, como a própria OTAN (auxiliadas nesse papel pela União Europeia), caíram na tentação do poder artificial — a grande onda demagógica que se espalhou pelo planeta neste século.

Regimes como os do Irã e da China foram sendo “trazidos para dentro” — numa mistura de “orientalismo” com falta de vergonha explícita — para tratar como parceiros leais, no universo democrático, polos de poder baseados no autoritarismo.

A nova eleição de Trump encontrou esse espetáculo armado: por trás do que seria uma política “inclusiva” para harmonização entre Ocidente e Oriente, com suposta derrubada de preconceito contra sociedades externas ao eixo judaico-cristão, estabeleceu-se uma complacência com focos de poder que financiam o terrorismo e que vivem da mística obscurantista dos EUA como o grande satã.

É uma completa inversão de sinais que fecha os olhos para a ameaça nuclear do Irã contra o mundo e para o autoritarismo que avilta os direitos de populações inteiras. Mas ainda há, na velha mídia, muitos “professores” e “especialistas” supersimpáticos para emplacar suas teses de que a grande ameaça ao mundo é a ação da maior democracia do planeta — no momento, reconciliada com seu papel de liderar a busca da paz.

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