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Guilherme Fiuza

Guilherme Fiuza

A verdade escapou

‘‘O Brasil acabou’’: gafe ou ato falho?

Lula durante o debate na Band: entre reclamações e gafes, o presidente se complicou com as próprias palavras.
Lula durante o debate na Band: entre reclamações e gafes, o presidente se complicou com as próprias palavras. (Foto: Renato Pizzutto/Band)

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Lula encerrou sua participação no debate da Band afirmando que aspira a um quarto mandato para poder anunciar que “o Brasil acabou”. Foi a gafe mais famosa do duelo com Flávio Bolsonaro, mas houve quem considerasse que se tratou, na verdade, de um ato falho.

Ato falho é quando a pessoa diz sem querer aquilo que realmente pensa ou sente. É uma boa questão: o que será que Lula pensa, de fato, da sua presença no comando da nação? Segundo Roberta Luchsinger, em entrevista à CNN, afastando-se a hipótese de senilidade, Lula seria mentiroso. Ela não especificou de qual tipo: o mentiroso que só mente para os outros? Ou o que mente para si mesmo — e acredita na própria mentira?

Às vezes, Lula parece confiar no seu discurso — e talvez a assessoria consiga de fato convencê-lo da veracidade do que está dizendo. Especialmente sobre economia, o presidente tem sido enfático, nos debates e sabatinas, sobre a premissa de que seu governo não é deficitário. É um ponto para os especialistas se debruçarem, considerando-se que o próprio Banco Central assinala expansão fiscal exagerada, gerando pressão inflacionária e endividamento crescente. É verdade, esse bilhete?

Lula já admitiu usar números fantasiosos no terreno dos indicadores sociais, quando disse que apresentou dados exagerados sobre crianças vivendo nas ruas brasileiras. Chegou a contar de forma irreverente que foi alertado pelo arquiteto Jaime Lerner de que aqueles dados eram irreais. Não ficou claro se até então Lula acreditava na informação equivocada que estava transmitindo.

Se a expressão “o Brasil acabou” tiver sido um ato falho, o presidente estaria expondo, involuntariamente, sua consciência de que o governo dirigido por ele está colocando o país em maus lençóis

O processo de endividamento é bastante claro e indisfarçável, mesmo com bons filtros da assessoria. Numa entrevista, o presidente disse que não se preocupava com isso. Em outra, para a mesma emissora, declarou que a situação da dívida o preocupa.

Pode ser que não o preocupe de fato. Pode ser que ele considere ser um efeito colateral administrável — e tenha manifestado preocupação para sinalizar responsabilidade. Se “o Brasil acabou” tiver sido apenas uma gafe, e não um ato falho, pode ser que o presidente acredite que o país vá resistir bem aos solavancos administrativos. E talvez acredite que a deterioração dos indicadores seja consequência da conjuntura — e não resultado direto da forma como seu grupo político exerce o poder.

Sem dúvida, o apoio propagandístico oferecido ao PT por setores influentes da sociedade — do meio acadêmico ao meio artístico, passando pelo meio jornalístico — deve contribuir para uma certa anestesia de consciência presidencial. Notadamente no meio artístico, o alcance da adesão a Lula cria um discurso bastante estimulante para o governo.

Mas há quem considere isso uma fantasia pueril. É o caso do músico Carlos Maltz, integrante da banda Engenheiros do Havaí. Ele gravou um vídeo sobre o assunto — do qual vale destacar o trecho a seguir:

“Não é nem uma questão política isso, senhores. Essa mudança de ares é uma questão da gente poder sobreviver. O problema maior do nosso país não é a direita e a esquerda. É a superficialidade, senhores. É a infantilidade com que as pessoas lidam com as coisas. Quando eu vejo declaração política de artista aí, dá vontade de pegar os caras no colo e cantar ‘nana nenê’. Um monte de ideia, um monte de slogan: ‘A liberdade!’, ‘a democracia!’, ‘a arte!’, ‘em nome da cultura eu vou votar em não sei quem’… Meu amigo, dá vontade de pegar no colo.”

Para Carlos Maltz, a eleição presidencial é de fato um momento de vida ou morte. Ele está falando em sobrevivência. Se “o Brasil acabou” tiver sido um ato falho, Lula concorda com ele.

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