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A captura de Nicolás Maduro pelos EUA inaugurou uma nova temporada de mal-entendidos. Ou, mais exatamente, uma nova temporada de polêmicas inúteis. Já há veículo de imprensa dizendo que a associação de Lula a Maduro é obra de “bolsonaristas”. Veja o tamanho do potencial do debate.
Se associar Lula a Maduro é bolsonarismo, o atual presidente da República é bolsonarista de carteirinha. Ninguém o associou mais a Maduro do que ele próprio, no presente e no passado. Nunca escondeu de ninguém, nas várias passagens do PT pelo Palácio do Planalto, a decisão de apoiar e investir no regime chavista — que classificou como “excesso de democracia” num momento em que a Venezuela já estava refém do autoritarismo.
Lula sempre teve a preocupação de afirmar que a Venezuela de Chávez e Maduro não era governada de forma ditatorial. Deu-se, inclusive, ao luxo de aconselhar publicamente Nicolás Maduro a escolher uma “narrativa” mais eficiente. Convidar um opressor a ser um narrador melhor é pura poesia. E esse conselho foi dado em solo brasileiro, mais precisamente no palácio presidencial — onde Lula recebeu Maduro com as mais altas honras de chefe de Estado, em 2023. Haja bolsonarismo petista.
Apostar que o repúdio manifestado por Lula à prisão de Maduro não tem nada a ver com a aliança histórica entre os dois é superestimar a distração geral. Lula estaria apenas defendendo, com impessoalidade, a paz e a soberania no continente… Essa não cola nem no recreio do jardim de infância.
Desde que Maduro fraudou sua reeleição em 2024 (segundo a OEA e o Carter Center), existe uma tentativa de banho de loja na retórica petista. Alguns jornalistas militantes chegaram a escrever que o ditador venezuelano era “de direita” e que o presidente brasileiro não tinha nada a ver com isso.
Numa das teses mais arrojadas, Celso Amorim aparecia como objeto da crítica da imprensa amiga — por supostamente induzir Lula ao erro de se aliar a Maduro. Como se vê, o céu é o limite para o demagogo.
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No momento em que os sinais flagrantes da brutalidade chavista começaram a incomodar mais — especialmente após a eleição, condenada até pelo progressista Boric, do Chile —, a força-tarefa da mistificação entrou em campo com tudo. Era urgente mostrar que o petismo e o chavismo eram coisas diferentes. Como essa diferença, na realidade, é invisível, a tropa da contrapropaganda apostou tudo na alquimia retórica.
Quando Lula saiu de Belém rumo à Colômbia, em plena iniciação da COP 30, para fazer a defesa de Maduro numa conferência regional, a brigada da mistificação já saiu montando a história de que se tratava de uma defesa da paz no continente. Como se a paz pudesse ser evocada em defesa de um regime assassino. Com o mundo todo olhando para o Brasil e para o seu presidente, por causa da conferência do clima, Lula marcou posição em defesa do indefensável Maduro.
Agora, a usina das falsas polêmicas quer colocar o petista no papel de defensor do direito internacional. Tarde demais. Essa demarcação técnica teria de ter sido feita muito antes de o caldo entornar. A própria complacência da ONU com regimes autoritários — que vem se acentuando neste século — já poderia ter sido apontada pelos supostos legalistas que cercam o presidente brasileiro e a sua indumentária democrática.
Claro que, quando entidades multilaterais se omitem na reprovação a focos de ilegalidade, como se tornou a Venezuela, abre-se espaço para o enfrentamento direto por quem alega ter seu território ameaçado pelo crime — como é o caso atual dos EUA.
O problema é complexo e as discussões vão longe. Mas nada disso inclui uma onda de amnésia sobre quem era quem no verão passado.





