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Antigamente, ou nem tão antigamente assim, uma multidão tomando uma grande avenida era uma multidão tomando uma grande avenida. E, se essa multidão clamava unida por algo, isso era considerado uma relevante manifestação popular.
Mas estamos falando do tempo do jornalismo-verdade. Como dito acima, não faz nem tanto tempo assim. No entanto, a mudança foi tão brusca que já começamos a esquecer como era antes — no tempo em que povo na rua era a voz essencial da democracia.
O 7 de Setembro de 2026 confirmou a metamorfose conceitual dos últimos anos. Povo na rua, hoje em dia, é algo meio abstrato, quase embaraçoso. As forças de relativização da manifestação popular se sofisticaram. Os medidores de plantão se impõem rapidamente com suas métricas criativas para mostrar que aquilo que os olhos de todos veem não é bem aquilo.
A comemoração do Dia da Independência gerou, na história recente do Brasil, algumas das maiores manifestações de rua a que o país já assistiu. Todas elas tiveram como características marcantes dois aspectos onipresentes: comportamento pacífico da massa e defesa da liberdade. Em contraste com esses dois aspectos, verificou-se um terceiro, também onipresente: a tentativa da maior parte da imprensa — e da chamada elite intelectual — de desqualificar esses atos gigantescos.
Não foi diferente neste 7 de Setembro de 2026. Uma multidão voltou a encher a Avenida Paulista de verde e amarelo, no tópico principal de uma série de manifestações pelas capitais, de novo com o pedido de liberdade embasando as causas centrais — no caso, o repúdio ao autoritarismo dos atuais mandatários dos poderes constituídos. Aí entraram em campo os “medidores” — que também podem atender por “relativizadores” da voz do povo.
Seria anedótico se não fosse dramático — e absolutamente real. Fórmulas supostamente científicas de aferição de densidade humana vão para as manchetes desmentir o que todo mundo viu. Multidão na rua é multidão na rua. Ou era.
Hoje em dia, mesmo com a facilidade das imagens aéreas mostrando um formigueiro humano espalhado por uma das maiores vias urbanas do país, os cientistas da democracia impalpável decretam que não era tanta gente assim
Quanta gente é suficiente para um brado ecoar nas manchetes contemporâneas? Qual é o número mágico que torna um ato público relevante para os sensores (ou os censores) da democracia laboratorial? Nenhum. Não existe esse número. Nenhum mar de gente significará a expressão de um anseio popular. Até porque, cerca de cinco anos atrás, quando esse mar transbordou pelo país inteiro, os intérpretes da democracia de gabinete qualificaram aquela onda como semente fascista.
Eis o dilema contemporâneo da elite burocratizada (fantasiada de humanista): uma mesma imagem real de povo na rua ou não é quantitativamente expressiva, ou é a expressão de uma propensão antidemocrática. Os arquitetos da negação popular precisam se decidir urgentemente. Ou ensaiar melhor.

Guilherme Fiuza é jornalista, escritor e roteirista, autor dos livros “Meu nome não é Johnny”, “3.000 dias no bunker” (ambos adaptados para o cinema), “Bussunda - A vida do casseta”, “O Império do Oprimido” e “O passado promete”, entre outros. Autor das peças “Eu e ela” e “O controle”, e coautor da série de TV “O Brado Retumbante”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




