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Uma das principais notícias deste ano de sucessão presidencial é a aproximação da dívida pública dos 80% do PIB (79,2%). É uma notícia central porque fala sobre o futuro imediato do país. Mas parece ser uma questão sobre quem será o terceiro goleiro da seleção.
Por algum mistério insondável, a contratação do empobrecimento nacional não comove o debate político. O desastre do “arcabouço” e a licença para a deterioração fiscal parecem estar normalizados. Tanto que Fernando Haddad é pré-candidato a governador de São Paulo. Se as responsabilidades sobre a explosão da dívida estivessem sendo devidamente cobradas, o ex-ministro da Fazenda teria planos mais modestos.
O país terminou 2022 com a dívida em 73,5% do PIB — mesmo com a contração decorrente da pandemia. Aí veio o expansionismo petista, que o Banco Central vem apontando ao longo de todo o período com diversos termos técnicos para a palavra gastança. O descalabro fiscal contou com várias formas de embelezamento retórico — as vozes providenciais que recitam teoria econômica como se estivessem num karaokê, com Haddad ao violão.
Desde a negação da responsabilidade fiscal com a literatura do “arcabouço”, uma parte da elite acadêmica resolveu brincar de faz de conta. E essa encenação ganhou seus contornos mais patéticos com as desculpas propagandísticas para o aumento indiscriminado de impostos. Até Odete Roitman entrou na dança, com a atriz Débora Bloch usando sua personagem esnobe no remake de “Vale Tudo” para a campanha de taxação dos “ricos” — um jeitinho esperto de embelezar o aumento do IOF. A vida imita a arte.
O resultado de gastos públicos descontrolados, com aumento de impostos em série e crédito artificialmente estimulado, não podia ser outro: endividamento das famílias próximo de um recorde histórico (49,7% em janeiro), com inadimplência crescente tanto entre pessoas físicas quanto jurídicas. Claro que a explosão dos gastos públicos é e será cada vez mais um componente da escalada do endividamento privado, com a pressão inflacionária daí decorrente.
Todo esse cenário tempestuoso está exposto de forma cristalina nas atas do Comitê de Política Monetária. E, ainda assim, o BC optou por uma redução de 0,25 ponto na taxa básica de juros — levantando dúvidas pertinentes sobre o quanto essa decisão terá sido influenciada pelo ano eleitoral (ou seja: o quanto a técnica está começando a perder terreno para a política, com “p” minúsculo).
Se estiver havendo artificialidade na política monetária — como ocorreu de forma flagrante no final do governo Dilma —, o resultado será dramático
A tentação de baixar juros para dar satisfação eleitoral acaba tendo o mesmo efeito da demagogia creditícia. A pressão inflacionária, nesses casos, sempre acaba se encarregando de desfazer o conto de fadas do crescimento. Por mais que se queira dourar a pílula (sejam vozes de aluguel ou não), o filme é conhecido: empobrecimento.
Enquanto isso, a Argentina faz o dever de casa e realça o descaminho brasileiro. Será que, mesmo com essa paisagem gritante, os economistas do Plano Real vão voltar a defender o voto em Lula?









