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A proibição das bets pouco mais de uma semana antes das eleições é um retrato do Brasil atual. A sensação hoje é de que tudo pode acontecer em todos os terrenos — e para tudo haverá uma embalagem legal ou moral. A imprevisibilidade nacional chegou ao seu ápice.
Não que o país tenha um histórico de previsibilidade alta. O período da chamada Nova República (1985-89), por exemplo, foi marcado pela elaboração e promulgação de uma Constituição em meio a um cenário de total instabilidade institucional. E o período seguinte, que prometia “normalização” com a volta da eleição direta para presidente após quase 30 anos, degenerou em caos.
Mas, após as turbulências dos ciclos Sarney e Collor, o país experimentou algo diferente. À estabilidade monetária, conquistada em meados da década de 90, correspondeu também a chegada de uma tendência de estabilidade institucional. A forma como o Brasil passou a lidar com seus compromissos internos e externos reduziu a flacidez das relações nas esferas pública e privada.
De lá para cá, mesmo com a longa aventura petista no comando da nação, os brasileiros galgaram um estágio ligeiramente mais alto de previsibilidade. A herança do respeito a contratos — ponto essencial da transformação que permitiu a estabilidade econômica ainda no século passado — constrangeu, por assim dizer, uma parcela das práticas marginais. O chamado “jeitinho brasileiro” perdeu prestígio.
O choque contra a corrupção, duas décadas depois da estabilização da moeda, foi outro marco de legalismo. Apesar das marchas e contramarchas do processo, ficou culturalmente estabelecido que as instituições por aqui também são capazes de funcionar. Mas a atual reencarnação do petismo é o dado histórico a desafiar essas premissas — e a prometer um retorno à era da avacalhação institucional.
Não por causa do PT. Como dito anteriormente, apesar dos maus serviços prestados pela sigla, houve relativa robustez da sociedade brasileira para preservar a essência das suas conquistas. A novidade na gestão atual é a adesão de parte dessa sociedade não petista à aventura da maleabilização dos princípios legais.
Como já admitido por uns e outros, parece ter havido um “vale-tudo de conveniência”
Valeu um pouco de tudo mesmo nos últimos anos — inclusive avançar contra os marcos do Plano Real e da Lava Jato. A ficção do arcabouço fiscal e a reabilitação de empreiteiras condenadas ilustram essa marcha à ré institucional. Ao lado disso, a relativização da liberdade de expressão com a consagração dos pecados semânticos (“desinformação”, “ódio” etc.).
A canetada proibindo sumariamente as bets no país veio acompanhada, como de hábito, da claque envernizadora. Trata-se de proteger as famílias da desgraça do vício, argumentaram os porta-vozes formais e informais. O problema é que a atividade tinha sido regulamentada pelo próprio governo — inclusive com planos de congênere estatal — e havia se inserido fortemente na economia nacional. De repente, o setor é extirpado, e a sociedade que se vire para refazer a vascularização local.
O problema do endividamento no Brasil é decorrente da perda de poder de compra e do encarecimento do crédito. Tudo isso está claramente descrito nas atas do Comitê de Política Monetária do Banco Central como resultante principalmente do expansionismo fiscal do governo. A solução talvez seja tentar convencer o eleitor de que é o tigrinho quem redige a ata do Copom.

Guilherme Fiuza é jornalista, escritor e roteirista, autor dos livros “Meu nome não é Johnny”, “3.000 dias no bunker” (ambos adaptados para o cinema), “Bussunda - A vida do casseta”, “O Império do Oprimido” e “O passado promete”, entre outros. Autor das peças “Eu e ela” e “O controle”, e coautor da série de TV “O Brado Retumbante”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




