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Guilherme Fiuza

Guilherme Fiuza

Lula e seu ato chavista

Quem barrou o assessor de Trump?

Lula disse que decidiu impedir a entrada de Beattie no Brasil em reciprocidade ao bloqueio do visto de Padilha e de seus familiares. (Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil)

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Camisão vermelho e gola fechada à la Hugo Chávez, Lula protagonizou mais um momento do democrata transverso. A narrativa oficial do regime brasileiro é que, sem o herói petista no poder, a democracia no Brasil está em risco. Em nome disso, vale basicamente tudo.

Numa solenidade no Rio de Janeiro, o presidente fez seu tipo de comício preferido - caminhando com um microfone na mão, dentro de um círculo de aduladores, prontos a aplaudir exortações vagas e a rir de histrionismos constrangedores.

Para essa plateia acolhedora, Lula anunciou seu ato chavista contra “aquele cara americano” - a proibição de entrada no Brasil do assessor da Casa Branca Darren Beattie.

O próprio presidente sabe que, dessa forma, estava transformando o que teria de ser uma decisão de Estado em ato de vontade pessoal. É deliberado - e combina com o figurino escolhido para a situação. Tanto que, depois, o Itamaraty divulgou uma justificativa supostamente técnica para embargar o visto do assessor de Trump - afirmando que ele fornecera informações incorretas sobre sua missão no Brasil.

Ou seja: ou Darren Beattie estava sendo barrado no país por descumprir requisitos de entrada, ou estava sendo barrado pelo motivo apresentado por Lula.

No seu comício carioca, o presidente disse que impediria “aquele cara americano” de entrar no Brasil enquanto seu ministro da Saúde, Alexandre Padilha, tivesse sua entrada proibida nos EUA. Afirmou isso diante do ministro, que estava presente e ainda levou um tapinha no braço do “amigo” - como seu chefe fez questão de qualificar a relação.

Como classificar uma decisão como essa? Uma espécie de “reciprocidade” no grito? Lula sabe que não se trata de reciprocidade. Padilha foi sancionado pelo governo dos EUA, junto a outros envolvidos no programa Mais Médicos - considerado pela atual administração norte-americana como lesivo aos direitos humanos no continente, por manipular grandes contingentes de mão de obra para financiar regimes autoritários. O governo de Cuba ficava com a maior parte do salário dos funcionários do programa.

Enfim, concorde-se ou não com o critério que atingiu o ministro da Saúde, trata-se de uma política de Estado. A não ser que houvesse uma lei prevendo a barragem de integrantes de governos que sancionassem brasileiros, o que se viu como contraponto à decisão americana foi um ato de vontade pessoal. Exatamente o que Lula quis transparecer, inclusive ornando seu gesto com seu figurino. Quem manda aqui sou eu. Falo grosso com o Trump. No meu quintal esses caras americanos não se criam. Etc.

O problema, como sempre, é a complacência geral com a bravata. Se o presidente está protegido por uma propaganda de garantidor da democracia, quando bate no peito e diz, metaforicamente, “o Estado sou eu”, precisa ser contrastado

Aqueles que desfilam no olimpo hollywoodiano vendendo Lula como resistência ao fascismo precisam ser questionados - delicadamente, sem querer estragar a festa e ofuscar o brilho das joias. Conto de fadas tem limite.

Não é o que se vê. O compromisso com a mistificação foi longe no Brasil - inclusive da parte de gente muito influente e alheia ao petismo propriamente dito. Esses são os sócios ocultos da nossa democracia de efeitos especiais.

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