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Na hora da decisão, a infinitésima encarnação do petismo no poder central tenta sua autoperenização com o truque de sempre: a alternativa a Lula é a ditadura, o extremismo, o fascismo. Mas o PT não está sozinho nessa. Há um bom contingente de pessoas esclarecidas e não militantes ajudando a fermentar essa premissa arrepiante.
A transposição do painel eleitoral de 2026 para um cenário de alegorias ideológicas fluidas é uma tentação para muitos — até de parte dos que não votam em Lula. O país, ou uma parte bem audível dele, tem hoje essa cisma: não consegue olhar para as coisas reais sem tacar uma indumentária conceitual em cima de tudo. Foi assim que o repúdio ao petismo e suas obras completas virou monopólio da “direita” ou da “extrema-direita” ou do “conservadorismo” etc.
Obviamente, muitos milhões de brasileiros não se guiam por essas demarcações vagas, possivelmente nem sabendo o que significam. Na verdade, ninguém sabe. Se um mesmo conceito pode ser lido por parte da população como sinônimo de liberdade e por outra parte da população como sinônimo de autoritarismo, naturalmente ele não quer dizer nada. Um significado que só existe em determinado círculo (ou nem isso) e pode ser o oposto em outro círculo não designa objeto algum. O idioma é um só.
Esse surto de abstração é a única esperança do lulismo. Escândalo do INSS e suas implicações palacianas, escândalo Master e suas injunções com sustentáculos do regime, endividamento recorde e inadimplência, inflação e juros altos, tentativa de controle das mídias — tudo isso fica diluído no postulado “ascensão da direita”. Milhões de pessoas que certamente votaram na oposição reagindo à lista de problemas acima são transmutados automaticamente em células de facção ideológica. O PT agradece.
Seguiu-se ao resultado do primeiro turno, com a candidatura de Flávio Bolsonaro superando a de Lula, uma reação clara e intensa do mercado. Os juros futuros abriram em forte queda no dia seguinte à eleição. Não há coreografia conceitual nesse fato: é apenas a expectativa do mundo real de uma administração melhor para o país. Ponto.
Mas aí vem o bailado da imprensa — nacional e estrangeira: “onda conservadora”, “ascensão da direita”, “perigo da extrema-direita”, “fenômeno de radicalização” etc. Por mais que se queira conectar linhas administrativas com essa conceituação vaga, o resultado será sempre o afastamento da vida real. Na vida real, milhões de pessoas comuns, de boa-fé, se confundem com esses termos, que no Brasil servem muito mais para engolfar tudo numa polêmica sobre 1964 do que para designar uma linha de administração.
O mercado reagiu bem porque se livrar do petismo no poder central é uma chance boa de sustar a sucção de riquezas pelo Estado, na base da expansão tributária e fiscal
O próprio senador Flávio Bolsonaro, afastando-se das caricaturas que cercam sua família, listou desmandos do governo do seu adversário e disse que o país precisa apenas “voltar ao normal”.
Com a expectativa de que o país “volte ao normal”, o resultado do primeiro turno rendeu 365 bilhões de reais a investidores na bolsa. A queda do juro futuro projetou uma economia de 66 bilhões de reais com dívida pública. Bancos como JP Morgan e Morgan Stanley projetaram ciclo de alta para as ações brasileiras. O Ibovespa subiu fortemente com entrada recorde de recursos estrangeiros após o primeiro turno.
Nada disso é retratável ou traduzível como onda ideológica. O país precisa superar um problema político sério que enfraquece a institucionalidade e a organização da sociedade como um todo — aferível nitidamente no declínio das condições de vida e dos direitos do cidadão comum. Os fanáticos pela conceituação estratosférica precisam dar espaço para os que não votam 13 porque não querem uma república de amigos do rei.

Guilherme Fiuza é jornalista, escritor e roteirista, autor dos livros “Meu nome não é Johnny”, “3.000 dias no bunker” (ambos adaptados para o cinema), “Bussunda - A vida do casseta”, “O Império do Oprimido” e “O passado promete”, entre outros. Autor das peças “Eu e ela” e “O controle”, e coautor da série de TV “O Brado Retumbante”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




