
Ouça este conteúdo
Ainda que falte muito tempo para a eleição, a última pesquisa Atlas Bloomberg não traz nenhum indicativo positivo para a chamada “terceira via”. Pelo menos não a que busca se viabilizar com o apadrinhamento de Gilberto Kassab. Os governadores que ambicionam quebrar a polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro aparecem todos com indicadores tímidos, nunca acima dos 4%. Ratinho Junior (que já desistiu), Ronaldo Caiado e Eduardo Leite ficam atrás até de Renan Santos, líder do Movimento Brasil Livre (MBL) e pré-candidato pelo recém criado partido Missão.
Ignorar a capacidade e organização do MBL, bem como a formação intelectual de Renan Santos é um erro de seus muitos adversários (sejam de esquerda, de direita ou de centro). O grupo conseguiu, alias, o que nem o bolsonarismo foi capaz: constituir uma legenda e registrá-la rapidamente na Justiça Eleitoral.
Ainda mais desmotivados com a terceira via do PSD estão os próprios eleitores. A rejeição cruzada de Lula e Flávio Bolsonaro não se constituiu num ativo para os concorrentes, isso porque eles possuem apoio quase monolítico de suas respectivas bases
Até aqui, a terceira via que mais tem votos não é a do PSD, mas sim a do MBL. Santos, que nunca ocupou cargo eletivo, caminha para angariar mais votos na disputa presidencial do que líderes reeleitos em estados importantes como Goiás e Rio Grande do Sul. Não é pouca coisa. Ele tem o que falta ao partido de Kassab: presença massiva nas redes sociais e uma militância coordenada e capilarizada com objetivos claros.
Por mais que Caiado e Leite tenham disposição genuína de concorrer, não parece haver a menos disposição de seus correligionários. Isso porque o PSD não é um partido doutrinariamente identificado. Gravita no entorno do poder, com grupos ora mais alinhados com o lulismo, ora mais alinhados com o bolsonarismo. Seja Caiado ou Leite, alguém acha mesmo que os filiados do PSD em estados como a Bahia, Minas Gerais ou São Paulo vão mesmo se engajar numa disputa presidencial que, na prática, atrapalha as alianças e objetivos locais.
Ainda mais desmotivados com a terceira via do PSD estão os próprios eleitores. A rejeição cruzada de Lula e Flávio Bolsonaro não se constituiu num ativo para os concorrentes, isso porque eles possuem apoio quase monolítico de suas respectivas bases. O eleitor convicto de Lula e o eleitor convicto de Flávio Bolsonaro não mudam de posição, e se constituem, em ambos os casos, em pisos eleitorais altos demais, mesmo que tenham tetos limitados pela rejeição já mencionada.
Não é que a população esteja conformada com a polarização existente, é que a maior parte dos eleitores a escolheu de forma objetiva em detrimento ao resto. As coisas, obviamente, podem mudar, ainda mais considerando o cenário de incerteza estabelecido pelo caso Banco Master. Mas o que vai se desnudando no cenário eleitoral não é ascensão de uma alternativa, e sim a materialização de uma disputa plebiscitária entre os favoritos com verdadeiro segundo turno se consolidando já no primeiro.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos








