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Guilherme Macalossi

Guilherme Macalossi

Cancelamento

Com quantas canetadas se arruína um debate?

Último debate presidencial televisivo programado antes do primeiro turno das eleições 2026 teve reviravoltas poucas horas antes do início.
Último debate presidencial televisivo programado antes do primeiro turno das eleições 2026 teve reviravoltas poucas horas antes do início e acabou cancelado. (Foto: Reprodução/Instagram Jornal Nacional)

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Com quantas canetadas se arruína um debate eleitoral? O cancelamento do encontro que seria promovido pela TV Globo se deu depois de umas quantas. Uma sucessão de decisões, contraditórias entre si, uma se sobrepondo à outra, todas intervindo diretamente sobre critérios devidamente subscritos e acordados entre as partes. Uma repetição patética do que se viu nos casos Master e da Padroeira do Brasil. A guerra de liminares é a única regra que sobrou ao combalido direito brasileiro.

Ao invés de assegurarem os interesses dos eleitores, os ministros Kassio Nunes Marques, Estela Aranha e Gilmar Mendes, a título de garanti-los, destruíram qualquer segurança jurídica que viabilizasse a realização do programa. O último antes do primeiro turno. Primeiro, Kassio decidiu pela inclusão de Romeu Zema e, depois, vetou a participação de Renan Santos. Veio a ministra Aranha e determinou que a emissora não exibisse o púlpito vazio de Lula, bem como que candidatos presentes não lhe direcionassem perguntas. Por fim, Mendes anulou a decisão de Kassio e incluiu o candidato do Missão.

As regras, assinadas por representantes dos candidatos, foram mandadas para a lata do lixo sem qualquer pudor. É de se perguntar se há alguma garantia futura para que uma emissora de rádio ou de TV se interesse em promover um debate. O precedente criado, e quando falamos de direito falamos de precedente, impede que se tenha certeza de que os termos acordados sejam de fato respeitados. A campanha de Lula, que assinou o documento, é que ingressou na Justiça para impedir que este fosse cumprido.

O púlpito vazio para candidatos ausentes é, diga-se, uma tradição dos debates brasileiros. Na Band, não apenas estava vazio o de Lula, como também os de Flávio Bolsonaro e Zema, que se ausentou de última hora. E isso se repetiu também nos debates para governos estaduais ainda um dia antes da celeuma da quinta-feira (01). Agora isso foi relativizado a partir da decisão da ministra Aranha, que não se sentiu suspeita em decidir a favor do candidato a quem pediu votos em 2022.

A insegurança jurídica sempre foi uma constante no mundo do direito brasileiro. A qualidade do material legislativo sempre franqueou brechas interpretativas, obscuridades e desalinhamentos constitucionais. A aplicação de tais regramentos nunca foi pacífica, mas acabava sendo corrigida conforme subia na hierarquia do Judiciário. O que mudou foi o sentido desse fluxo. A multiplicação de liminares, de despachos e de intromissões, inclusive pelo subterfúgio de processos já arquivados, fez com que os papéis se invertessem. Ao invés de uniformizarem a interpretação e encerrarem as divergências, as cortes superiores e o STF passaram a ser o epicentro da insegurança. A instabilidade que deveria terminar nelas agora é produzida por elas, chegando à população da maneira mais concreta possível: impedindo-a até mesmo de assistir a um debate entre candidatos a presidente.

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