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Guilherme Macalossi

Guilherme Macalossi

Cultura

É preciso exorcizar a ditadura do imaginário da direita brasileira

Wagner Moura
O ator Wagner Moura foi premiado pelo Globo de Ouro de 2026 pela atuação no filme "O Agente Secreto". (Foto: Chris Torres/EFE)

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Wagner Moura não é um cientista político. Não é um intelectual cuja leitura ou interpretação sejam relevantes para o debate público. Suas falas, no mais das vezes, são juízos rasteiros, argumentos pedestres formatados a partir de uma espécie de “senso comum” de viés progressista. A nomenclatura, por exemplo, que ele dá ao período de Jair Bolsonaro no poder, ainda que representativa da média da classe artística nacional, não tem a menor importância acadêmica. Mas, num aspecto, ele está correto: é preciso continuar fazendo filmes sobre a ditadura. Segundo o ator, o período “ainda é uma cicatriz aberta em nossa vida brasileira”.

“Mais um filme sobre a ditadura?”, dirá alguém indignado pelo que seria a hegemonização esquerdista na indústria cinematográfica. Mas por que não? Qual o problema, afinal, de denunciar um período de arbítrio, em que liberdades individuais foram revogadas, em que um Estado Policial foi erigido com o fito de enquadrar a sociedade civil, aniquilando as lideranças de diferentes correntes ideológicas, tudo em nome da “segurança nacional” e da abolição da disputa política por uma doutrina científica imposta na base de coturnos e baionetas?

Se parte da esquerda relativiza a ditadura do proletariado, a revolução bolchevique ou mesmo o chavismo, por que uma parte nada desprezível de nossa direita prefere fazer rigorosamente o mesmo, só que na outra ponta do espectro político?

Certa direita toma a ditadura militar como um totem, como um bezerro de ouro, como um objeto de verdadeiro saudosismo. E, no processo, acaba por subscrever ou mesmo justificar seus métodos. O que poderia ser mais danoso para a construção de uma alternativa genuinamente conservadora ao esquerdismo do que se atar de forma tão imprudente ao autoritarismo? Se parte da esquerda relativiza a ditadura do proletariado, a revolução bolchevique ou mesmo o chavismo, por que uma parte nada desprezível de nossa direita prefere fazer rigorosamente o mesmo, só que na outra ponta do espectro político?

A ideia de uma democracia liberal pungente, com tripartição de poderes, direitos sociais mínimos, liberdade de expressão, segurança jurídica e direito de propriedade, deveria constituir uma moldura institucional universalmente reconhecida. Não é preciso ser de esquerda para desprezar o que a ditadura militar fez ao Brasil, até porque bem não fez nem mesmo para a própria direita. Carlos Lacerda que o diga.

As reações negativas ao sucesso do filme O Agente Secreto, vencedor de dois Globos de Ouro, não são inéditas. É só uma enfadonha repetição do que se viu ano passado com o sucesso ainda maior de Ainda Estou Aqui, filme que denunciou a ditadura sem cair na esparrela do proselitismo.

O cinema, como o teatro, a música, a literatura, dentre outras ramificações da expressão artística, é apenas uma das muitas formas de se difundir narrativas, dando escopo e amplitude a interpretações que podem ou não massificar sentimentos. E, quando trata de fatos reais, também de investigar e cutucar nossas feridas. De outro modo, não teríamos tantos filmes retratando os horrores do nazismo 81 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial. Ou alguém também haverá de reclamar caso, amanhã ou depois, outro filme aborde os dramas dos judeus na Alemanha dos anos 1930? “A Lista de Schindler não era suficiente?”.

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Com isso, não pretendo comparar episódios históricos distintos em natureza e escala, apenas pontuar que momentos dramáticos da história costumam despertar maior atenção e gerar interesse de consumo, aqui e em outros países do mundo. Tanto O Agente Secreto quanto Ainda Estou Aqui são também indiscutíveis sucessos comerciais, faturando milhões de reais nas bilheterias brasileiras. A oferta por filmes com essa temática também atende a uma demanda de público, goste você ou não disso.

Ao invés de fazer cara feia e chamar o audiovisual de indústria comunista, seria mais inteligente que certa direita tratasse a ode ao militarismo e o suposto legado da ditadura militar como o que de fato são: chagas que deveriam ser exorcizadas do imaginário político conservador.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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