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Guilherme Macalossi

Guilherme Macalossi

Saúde pública

Eduardo Bolsonaro brinca de “revolta da vacina” em meio a surto de sarampo

exigência de vacinas
Eduardo Bolsonaro mantém sua cruzada contra a "ditadura sanitária". (Foto: Albari Rosa/Arquivo/Gazeta do Povo.)

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“Deus te livre, leitor, de uma ideia fixa; antes um argueiro, antes uma trave no olho”, escreveu Machado de Assis em Memórias Póstumas de Brás Cubas. Eduardo Bolsonaro também tem sua ideia fixa: a chamada “ditadura sanitária”. Enquanto o fidalgo que dá nome ao livro alegava, veja você, querer curar a humanidade da melancolia, Eduardo — uma espécie de Brás Cubas do mundo invertido — dedica-se a espalhá-la por toda parte. E o faz por meio de emplastos ditos miraculosos, capazes de lhe render alguma fama pueril: sai a pomada anti-hipocondríaca; entra a militância contra a vacina.

Bem no Dia dos Pais, o ex-deputado resolveu gravar um vídeo no X mostrando como livrou sua filha da imunização coletiva. “Imprimi esse papel em casa aqui, do governo do Texas, assinei, trouxe em uma espécie de cartório, só que sem fila. Paguei 10 dólares e tá feita a declaração juramentada, na qual fico responsável por minha filha não tomar vacinas”, disse, em tom efusivo, como se estivesse a divulgar o que seria uma conquista civilizatória. “Selvagens são vocês aí em Ratanabá, que são obrigados a se proteger do sarampo”, faltou-lhe dizer.

Trata-se de uma aberração do que se entende por “direito individual”. Na vida em sociedade, mesmo esses direitos não são absolutos. E não estamos falando do Estado soviético, mas das tais democracias ocidentais. Ou se vai querer retroceder à lei do mais forte? Ou à lei do “quem pode mais”? No conflito dos múltiplos direitos individuais nascem também as obrigações de uns para com os outros. A civilização busca, de forma permanente, o ajuste fino entre uma coisa e outra. E o debate sobre a obrigatoriedade da vacinação se enquadra exatamente nesse espaço tênue.

Em resumo: o seu direito de não se vacinar colide diretamente com o direito de terceiros de não serem expostos ao risco de contaminação por doenças. Alguém dirá que basta você se vacinar, deixando o outro livre para fazer o que quiser. Mas isso é ignorar o básico da imunologia. A proteção conferida pelas vacinas não é individual; é coletiva. Depende de ampla adesão para que seja efetiva. E não é apenas o caso da covid-19, mas de muitas outras patologias que foram controladas ou eliminadas graças às campanhas de vacinação.

A manifestação de Eduardo Bolsonaro ocorre enquanto o Estado de São Paulo, pelo qual ele se elegeu deputado, enfrenta um surto de sarampo. A cobertura da tríplice viral ainda está muito abaixo da meta do Ministério da Saúde, e é inequívoco que esse tipo de discurso negacionista puxa os indicadores para baixo. Enquanto crianças são expostas a doenças outrora controladas, Eduardo Bolsonaro brinca de “revolta da vacina” entre uma ida e outra a um fast-food no Texas. Deus te livre de uma ideia fixa, caro leitor. Quanto mais de uma que seja contagiosa.

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