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Confesso que fiquei compungido ao constatar o desamparo do senador Rogério Marinho ao comentar a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos. Diante das câmeras e dos microfones, seus olhos fitavam o vazio. “Nós estamos surpresos porque ontem nós conversamos sobre a necessidade de que Flávio, com os 60 milhões de votos que teve, assumisse esse papel de liderança da oposição”.
Poucas horas antes, durante a boataria sobre o sumiço, ele mesmo negou que Flávio tivesse deixado o país. Foi desmentido pelo fato consumado, quando se confirmou que o senador ingressara na Argentina e já seguia para o país norte-americano. Nem ele nem outros tidos como próximos foram informados do que se passava.
Não se sabe se Flávio, como o personagem Marco Aurélio, da novela Vale Tudo, fez um sinal de banana para o Brasil que deixava para trás. O que se sabe é que o candidato derrotado preferiu se evadir em circunstâncias nebulosas, abandonando os quase 60 milhões de eleitores que depositaram nele a esperança de encerrar o ciclo de Lula na Presidência.
O problema é que Flávio, como o pai, só não arregimentou mais pessoas dispostas a se livrar do PT do que Lula conseguiu mobilizar com o fito de evitar a volta de um Bolsonaro ao poder. O antipetismo é um fomentador de votos, mas o antibolsonarismo se provou um fenômeno político contemporâneo ainda maior.
Não tinham se passado nem 48 horas desde o fim do 2º turno quando o próprio Flávio se desmoralizou, cumprindo o roteiro clássico de negação dos maus perdedores. Sua carta, diga-se, foi mais um apito de cachorro do que qualquer outra coisa
É ilusão imaginar que Flávio, no exterior, será líder da oposição. Até porque ele não exercia esse papel dentro do próprio país quando candidato. Concorreu por delegação do pai e foi conduzido pela estratégia do irmão (Eduardo), de quem jamais conseguiu se desvencilhar ideologicamente.
O conceito de um Bolsonaro “vacinado”, a ilustrar a suposta moderação, caiu por terra com a cartinha delinquente que o ChatGPT redigiu em seu nome para lhe dar, pela ausência de um diploma conferido pelas urnas, o cargo de presidente eleito. Uma fanfarronada que corou de vergonha até apoiadores empedernidos.
Não tinham se passado nem 48 horas desde o fim do 2º turno quando o próprio Flávio se desmoralizou, cumprindo o roteiro clássico de negação dos maus perdedores. Sua carta, diga-se, foi mais um apito de cachorro do que qualquer outra coisa. Ela representa uma linha divisória a separar os que, a partir dela, serão classificados como fiéis e infiéis. Aqueles que ousarem ter uma abordagem distinta serão queimados na fogueira.
É preciso contar com gente séria e com desprendimento para fazer frente ao PT. Rogério Marinho, aliás, tem boas condições de presidir o Senado Federal, mas não conseguirá isso com o isolamento do PL. Mesmo fragilizado, não se pode subestimar Davi Alcolumbre, que concorrerá com o apoio do Palácio do Planalto.
Ao negar o resultado da eleição, radicalizando o discurso de “líder exilado”, Flávio contribui para inviabilizar tal pretensão. Quem no meio político vai se associar a alguém que chegou a se intitular “verdadeiro presidente eleito”? Só os que se sentirem coagidos.
O resultado das urnas mostra que quem saiu derrotada foi a família Bolsonaro, não necessariamente a direita. Esta se fortaleceu no 1º turno. Mas de nada adiantará o crescimento numérico de seus membros no Congresso Nacional e nos governos estaduais se não tiver uma liderança séria, articulada e com agenda.
A conduta de Flávio e de seus bate-paus, entretanto, parece apontar para um boicote político a qualquer esforço nesse sentido. O que importa, afinal, é hegemonizar o antipetismo, ainda que isso o inviabilize como alternativa.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Guilherme Macalossi é jornalista, apresentador, redator e radialista. Formado em Direito, é apresentador do programa "Bandeirantes Acontece" e comentarista do "Jornal Gente", na Rádio Bandeirantes. É colunista do jornal "Band Cidade", na TV Bandeirantes. Atua também como fellow do Instituto Monitor da Democracia. Na Gazeta do Povo já foi produtor do programa Imprensa Livre e de mini-documentários especiais. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



