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Não convém abrir um debate presidencial sem dar boa noite a ninguém, principalmente ao cidadão que assiste de casa. Fica deselegante, abrupto, dá a sensação de que o participante está nervoso. Lula não parecia nada confortável quando começou a falar no debate da Band, assistido por uma enorme audiência. Saiu atropelando o início da própria manifestação, indo diretamente para o confronto com o adversário. Esse tom ditou o ritmo de sua apresentação, permanentemente desconcertada pela dinâmica adotada por Flávio Bolsonaro, treinado para emular o estilo provocativo do coach Pablo Marçal.
É sempre temerário decretar quem é o vencedor de um debate. Para tanto, o analista político precisaria ter uma capacidade de leitura que alcançasse a mente das pessoas, percebesse milhões de juízos e reações subjetivas e disso tirasse uma conclusão. Ainda assim, considerando como o primeiro turno acabou e a continuidade da campanha na sequência, é possível dizer que o saldo do debate não serviu a Lula, que corre atrás de votos e precisa tanto agregar indecisos (que são poucos) quanto convencer eleitores que não se sentiram interessados em participar do processo eleitoral até aqui.
Não por mérito, não por uma sacada genial, não por ter “esfregado verdades” na cara de Lula. Mas apenas porque o saldo do debate foi tão ruim do ponto de vista do conteúdo que não seria surpreendente que muitos eleitores que poderiam alterar o resultado acabem mesmo é ficando em casa
O debate convertido em bate-boca não tira votos nem de Flávio nem de Lula. Ao contrário. Até ajuda a consolidá-los. Isso porque, no derramamento de sangue no palco montado pela Band, os cortes gerados ajudam a engajar os grupos políticos, cada um se declarando vitorioso a cada altercação compartilhada. O problema, principalmente para Lula, é que esse tipo de enfrentamento também consolida a posição de quem não quer participar do pleito. Exatamente o tipo de voto por onde ele ainda tem, em tese, espaço para crescer.
O cálculo de chegada para Lula é complexo e difícil de ser alcançado. Por ter saído atrás, ele precisa buscar mais votos para vencer do que seu adversário do PL. Se considerarmos o perfil dos votos mobilizados, distribuídos no primeiro turno entre os nanicos de direita, a probabilidade é que eles se direcionem, em grande parte, para Flávio. Outro quinhão deve anular ou se somar às abstenções. A menor parte deve ficar para o petista.
Lula precisa, portanto, não apenas superar os votos que Flávio fez anteriormente, mas ter mais que esse número somado à quase totalidade do desempenho dos demais direitistas que ficaram de fora do páreo. E a saída é alcançar o cidadão ainda indiferente ou que não se sente representado. E fica difícil isso acontecer quando, para este, a imagem passada no debate é de que tudo é uma coisa só.
Flávio não foi bem no debate, como os bolsonaristas alegam. Seu arremedo de imitação de Trump treinado por Marçal foi tão exagerado que caiu no ridículo. Não respondeu nenhum questionamento e ainda ressaltou a esquizofrenia de sua agenda fiscal ao prometer corte de gastos por um lado e aquisição de dívidas bancárias por outro. Mesmo assim, acabou se dando bem.
Não por mérito, não por uma sacada genial, não por ter “esfregado verdades” na cara de Lula. Mas apenas porque o saldo do debate foi tão ruim do ponto de vista do conteúdo que não seria surpreendente que muitos eleitores que poderiam alterar o resultado acabem mesmo é ficando em casa fazendo churrasco.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Guilherme Macalossi é jornalista, apresentador, redator e radialista. Formado em Direito, é apresentador do programa "Bandeirantes Acontece" e comentarista do "Jornal Gente", na Rádio Bandeirantes. É colunista do jornal "Band Cidade", na TV Bandeirantes. Atua também como fellow do Instituto Monitor da Democracia. Na Gazeta do Povo já foi produtor do programa Imprensa Livre e de mini-documentários especiais. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



