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Guilherme Macalossi

Guilherme Macalossi

Eleição

José Dirceu concorda comigo

Em entrevista, José Dirceu falou sobre candidatura de Tarcísio de Freitas à Presidência da República
Em entrevista, José Dirceu falou sobre candidatura de Tarcísio de Freitas à Presidência da República (Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil)

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Pense o que quiser o leitor sobre José Dirceu, é impossível não reconhecer sua capacidade de articulação e leitura política. Foi o grande responsável pela costura das alianças que deram sustentação ao governo Lula em seus primeiros mandatos, fazendo a ponte entre o PT e o Centrão. É, independente da trajetória ou do que pensa, um quadro pragmático com visão aguçada da realidade. E isso não é apenas relativo a sua inteligência, mas de sua formação como quadro de esquerda com treinamento em Cuba. Ignorá-lo, seja por questões ideológicas ou pelo seu envolvimento com escândalos como o Mensalão, é sempre um erro.

Ao contrário de seus pares do lulismo deslumbrado, que passaram as últimas semanas sambando na Sapucaí, José Dirceu já viu o ovo. A eleição de 2026, ainda que tendo Lula momentaneamente como favorito, é de enorme risco para o governo. As condicionantes políticas existentes em 2026 não se distinguem das de 2022, com um país rachado ao meio sem margem para alternativas que não as que protagonizam a polarização.

Eis que José Dirceu concorda comigo. Não por alinhamento político, como alguns poderão supor, mas por pura percepção da realidade. Em uma reunião do PT o ex-ministro alertou que 'tirar o Alckmin da chapa do Lula irá custar a eleição'

De modo que qualquer movimento pode se tornar crucial para determinar quem será o vencedor. Na disputa anterior, foi Lula quem acabou tomando a iniciativa mais engenhosa. Fez uma aliança com Geraldo Alckmin, seu ex-adversário. Acenou ao centro e deixou Jair Bolsonaro isolado no campo da direita, com um vice (o general Braga Netto) percebido como mais radical.

Nas últimas semanas, surgiu a especulação de que Lula poderia trocar de vice. Isso a partir de um relato feito por Renan Filho, que o atribuiu ao próprio presidente. Escrevi na Gazeta do Povo que isso poderia configurar um “erro monumental” de Lula, isso por faria rigorosamente o contrário da estratégia bem sucedida adotada na eleição passada. Por quem um quadro como Alckmin seria substituído. Não há ninguém no governo com a mesma trajetória ou credenciais.

Eis que José Dirceu concorda comigo. Não por alinhamento político, como alguns poderão supor, mas por pura percepção da realidade. Em uma reunião do PT o ex-ministro alertou que “tirar o Alckmin da chapa do Lula irá custar a eleição”. E pode ser esse o preço do que, considerando as atuais condições, seria uma aventura arrogante e hegemonista.

O principal adversário de Lula é Flávio Bolsonaro, o filho que, se não pode ser chamado de moderado, é, sem dúvidas o arejado, aquele com trânsito congressual e o que se vacinou contra a Covid-19. Um nome que poderia ser palatável com o vice certo.

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Ao contrário do pai, Flávio não parece ter a disposição de buscar um vice que esteja a sua própria direita. É muito mais provável que componha com um governador como Romeu Zema ou uma senadora como Tereza Cristina, fazendo o aceno ao centro que foi determinante para a derrota do pai.

José Dirceu viu o ovo, numa situação que poderia resultar na inversão dos movimentos estratégicos de 2026. O ex-ministro defende Alckmin na chapa não apreço ideológico mas frieza dogmática de quem enxerga o horizonte político para além do carnaval. Ele sabe que a depender do que for feito, o projeto político de Lula e do PT pode acabar rebaixado junto com a Acadêmicos de Niterói.

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