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Donald Trump não gostou da decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de barrar sua política tarifária global. A classificou como “uma vergonha” e prometeu adotar o que seria um “plano B” de maneira a compensar o revés. É uma derrota jurídica e tanto para um presidente que enfrenta um cenário político desafiador, para dizer o mínimo.
Não há qualquer garantia de que ele e o Partido Republicano sustentem as maiores legislativas nas eleições vindouras. Se a economia do país não ganhar tração, o risco de uma derrota parcial ou completa é grande, o que dificultaria a aplicação de sua agenda pelo restante do mandato. Ele se tornaria um pato manco, como se costuma dizer nos Estados Unidos.
Ainda que tenha causado impactos pelo mundo inteiro, o principal prejudicado com o tarifaço trumpista foi o mercado consumidor interno norte-americano. E o caso emblemático é do setor de alimentos
Mais do que os porta-aviões, mais do que os aviões invisíveis, mais do que os Navy SEALs, as chamadas “tarifas recíprocas” passaram a constituir o principal instrumento de pressão dos Estados Unidos desde o início do novo governo de Trump. Foram usadas para obtenção de investimentos, de acordos comerciais benéficos ao que o presidente dos EUA entende seriam os “interesses americanos”, e também como meio de pressão cruzada contra inimigos geopolíticos.
Trump, entretanto, não pode se dizer surpreso com a decisão. Desde que editou as “ordens executivas” se multiplicaram as ações na Justiça contra seus efeitos. E parte considerável delas dos próprios empresários dos Estados Unidos prejudicados com o custo embutido na iniciativa. Ainda que tenha causado impactos pelo mundo inteiro, o principal prejudicado com o tarifaço trumpista foi o mercado consumidor interno norte-americano. E o caso emblemático é do setor de alimentos, dependente de exportações de países com o Brasil.
Era uma questão de tempo até que a matéria fosse apreciada pela Suprema Corte. Trump extrapolou os limites legais do Internacional Emergency Economic Powers Act, de 1977. Banalizou o conceito de “emergência econômica” para usar as tarifas de forma indiscriminada, inclusive agredindo o mercado consumidor interno dos Estados Unidos, que viu preços de produtos subirem como decorrência da antiglobalização e do protecionismo.
Trump classificou a decisão judicial como “uma vergonha”, uma “desgraça para a nação” e chamou os magistrados de “antipatrióticos”. Atacou uma corte que, curiosamente, tem um perfil majoritariamente conservador, inclusive com três indicações suas na atual composição. É oportunismo político de quem não está acostumado a ser contrariado. Uma mistura de choradeira com jus sperniandi.




