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A espetaculosa missão militar que resultou na captura do agora ex-ditador Nicolás Maduro vai muito além da justificativa do governo Donald Trump para legitimá-la sem a necessidade de contar com uma autorização do Congresso norte-americano. Não foi um ato de guerra, mas tampouco uma mera ação policial, ainda que Maduro e seu regime ditatorial tenham laços inequívocos com o narcotráfico e o escoamento de drogas no hemisfério ocidental. Mais do que isso, o que se desdobrou na Venezuela foi um contundente recado dos Estados Unidos para a Rússia e a China.
Maduro era a face de uma ditadura militar que, desde sua origem, serviu como anteparo local para os interesses de potências inimigas dos Estados Unidos. Ao longo do tempo, o regime bolivariano se armou com apoio de Moscou e Pequim. Um estudo do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo apontou, ainda em 2023, que desde 2010 o chavismo recebeu R$5 bilhões em investimentos militares, além de equipamentos como mísseis, veículos blindados e anfíbios.
A disposição do governo americano é menos de mudar o regime existente na Venezuela e mais de enquadrar o que restou de sua estrutura, obrigando seus próceres a se realinharem aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos
Outro país com quem a Venezuela passou a ter relações diretas foi o Irã. Segundo o jornal espanhol ABC, durante mais de vinte anos o chavismo usou as receitas provenientes a exploração de petróleo para subsidiar o programa nuclear dos Aiatolás, recentemente atacado em outra operação militar norte-americana. Os petrodólares venezuelanos foram lavados a partir de transações envolvendo estatais, empresas de fachada e fundos falsos de maneira a desviar o conjunto de sanções impostas aos dois países.
Decidido a retomar o protagonismo no hemisfério, Trump fez uma linha de corte, cujo marco, para a América Latina, foi a prisão de Maduro. Em uma entrevista para a NBC News, o secretário de Estado Marco Rubio foi explícito: “Este é o hemisfério ocidental. É onde nós vivemos. E nós não vamos permitir que o hemisfério ocidental seja uma base de operações para adversários, competidores e rivais dos Estados Unidos”.
Se o regime chavista cair como consequência da operação, não será por ter sido seu objetivo primordial e sim como efeito colateral. É necessário deixar de lado o idealismo político para compreender a dinâmica dos acontecimentos recentes na Venezuela. Trump não é um presidente com visão ideológica. É um pragmático de resultados. Como escreveu recentemente o satirista Konstantin Kisin, “ele enxerga através das ficções às quais outros líderes se apegam”.
O movimento contra Maduro é parte de um teatro de operações mais amplo. A disposição do governo americano é menos de mudar o regime existente na Venezuela e mais de enquadrar o que restou de sua estrutura, obrigando seus próceres a se realinharem aos interesses geopolíticos dos Estados Unidos. Isso se, como disse Trump, estes não quiserem “pagar um preço muito alto, provavelmente maior do que Maduro”.




