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Gustavo Maultasch

Gustavo Maultasch

Oriente Médio

A hipocrisia progressista sobre o Irã

Manifestantes iranianos demonstram apoio ao príncipe exilado Reza Pahlavi em ato na Suíça, em fevereiro de 2025.
Manifestantes iranianos demonstram apoio ao príncipe exilado Reza Pahlavi em ato na Suíça, em fevereiro de 2025. (Foto: EFE/EPA/SALVATORE DI NOLFI)

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Afora os impostos, as mentiras e a corrupção, talvez o traço mais saliente da esquerda seja realmente a sua hipocrisia. O que dizer de artistas que criticam o capitalismo, mas que fazem questão de viver como ricos? E os progressistas que passaram anos criticando os “abusos” da Lava Jato, para em seguida apoiar a perseguição total contra a direita? E o pessoal preocupado com combustíveis fósseis, mas que não para de pegar avião – inclusive para conferências a que vão para denunciar os combustíveis fósseis?

Se fosse em criança, essa contradição toda seria até graciosa: odeio brigadeiro, diz a criança enquanto come um brigadeiro. Mas em adulto, a coisa torna-se meio ridícula; e considerando-se a quantidade de adultos que se comportam assim, a coisa demanda análise e entendimento.

O que fica claro, assim, é que a opinião progressista não tem relação nenhuma com os direitos humanos ou o bem-estar dos povos; o esquerdista busca apenas defender qualquer regime, de qualquer natureza, desde que ele se posicione de maneira contrária à civilização ocidental

A mais recente hipocrisia progressista refere-se aos protestos que ocorrem no Irã. Até ontem, a esquerda parecia obcecada com a violência estatal, com a paz, com os direitos humanos; quantas vezes acusaram Bolsonaro de genocídio? Quantas vezes disseram – e ainda dizem – que Israel comete genocídio em Gaza? Pela quantidade de vezes, alguém até poderia imaginar que a esquerda realmente se preocupa com genocídios e com o bem-estar de outros povos, estejam onde estiverem.

Mas qual não foi a minha surpresa quando, desde o início das revoltas no Irã, notei a total ausência de manifestações progressistas (na verdade, é mentira: não houve surpresa). Por que esse silêncio? E como os progressistas conseguem conviver com tamanha hipocrisia?

Primeiro, é importante lembrar que o progressismo não tem princípios. A rigor, o progressismo não tem nem pautas. Tudo o que o progressismo afirma como sendo suas políticas – intervencionismos na economia, desencarceramento, legalização das drogas e do aborto etc. – significa, na verdade, apenas um meio para alcançar o fim real, que é a acumulação de poder. Todo o resto é acessório. É por isso que a esquerda é tão contraditória e hipócrita: as pautas e discursos são meio que improvisados de acordo com o alinhamento do momento, e assim é natural que apareçam conflitos com posições anteriores.

São tantas mudanças que é praticamente impossível ser de esquerda e coerente ao mesmo tempo. É por isso que num dia eles gritam que cadeia não resolve nada, e no outro dia clamam pela punição aos assassinos de Marielle Franco; num dia afirmam que homens e mulheres não têm diferenças biológicas, e no outro se escandalizam com o número de feminicídios.

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Segundo, a verdade é que a hipocrisia raramente é consciente. Na maioria das vezes, o indivíduo não percebe a hipocrisia, pois na cabeça dele as situações são diferentes e merecem tratamento diferente mesmo. Ele critica o genocídio em Gaza porque Israel é um país ocidentalizado e apoiado pelos Estados Unidos e, assim, deve-se exigir mais dele. Já o Irã seria um país com uma outra história e outra cultura política, da qual não se poderia exigir muito. (Se parece um racismo das baixas expectativas, é porque é mesmo; mas o progressismo frequentemente é racista em sua interpretação do mundo).

Para piorar, fanatizados na ética niilista segundo a qual a nossa própria civilização ocidental não tem nada de positivo, o esquerdista é doutrinado a idealizar qualquer guerrilheiro ou radical que pareça anti-imperialista. E como o regime iraniano posiciona-se como contrário a Israel e aos Estados Unidos, ele passa a ser a opção virtuosa da consciência crítica de esquerda.

O que fica claro, assim, é que a opinião progressista não tem relação nenhuma com os direitos humanos ou o bem-estar dos povos; o esquerdista busca apenas defender qualquer regime, de qualquer natureza, desde que ele se posicione de maneira contrária à civilização ocidental, que ele identifica como a raiz do Mal.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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