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Afora os impostos, as mentiras e a corrupção, talvez o traço mais saliente da esquerda seja realmente a sua hipocrisia. O que dizer de artistas que criticam o capitalismo, mas que fazem questão de viver como ricos? E os progressistas que passaram anos criticando os “abusos” da Lava Jato, para em seguida apoiar a perseguição total contra a direita? E o pessoal preocupado com combustíveis fósseis, mas que não para de pegar avião – inclusive para conferências a que vão para denunciar os combustíveis fósseis?
Se fosse em criança, essa contradição toda seria até graciosa: odeio brigadeiro, diz a criança enquanto come um brigadeiro. Mas em adulto, a coisa torna-se meio ridícula; e considerando-se a quantidade de adultos que se comportam assim, a coisa demanda análise e entendimento.
O que fica claro, assim, é que a opinião progressista não tem relação nenhuma com os direitos humanos ou o bem-estar dos povos; o esquerdista busca apenas defender qualquer regime, de qualquer natureza, desde que ele se posicione de maneira contrária à civilização ocidental
A mais recente hipocrisia progressista refere-se aos protestos que ocorrem no Irã. Até ontem, a esquerda parecia obcecada com a violência estatal, com a paz, com os direitos humanos; quantas vezes acusaram Bolsonaro de genocídio? Quantas vezes disseram – e ainda dizem – que Israel comete genocídio em Gaza? Pela quantidade de vezes, alguém até poderia imaginar que a esquerda realmente se preocupa com genocídios e com o bem-estar de outros povos, estejam onde estiverem.
Mas qual não foi a minha surpresa quando, desde o início das revoltas no Irã, notei a total ausência de manifestações progressistas (na verdade, é mentira: não houve surpresa). Por que esse silêncio? E como os progressistas conseguem conviver com tamanha hipocrisia?
Primeiro, é importante lembrar que o progressismo não tem princípios. A rigor, o progressismo não tem nem pautas. Tudo o que o progressismo afirma como sendo suas políticas – intervencionismos na economia, desencarceramento, legalização das drogas e do aborto etc. – significa, na verdade, apenas um meio para alcançar o fim real, que é a acumulação de poder. Todo o resto é acessório. É por isso que a esquerda é tão contraditória e hipócrita: as pautas e discursos são meio que improvisados de acordo com o alinhamento do momento, e assim é natural que apareçam conflitos com posições anteriores.
São tantas mudanças que é praticamente impossível ser de esquerda e coerente ao mesmo tempo. É por isso que num dia eles gritam que cadeia não resolve nada, e no outro dia clamam pela punição aos assassinos de Marielle Franco; num dia afirmam que homens e mulheres não têm diferenças biológicas, e no outro se escandalizam com o número de feminicídios.
Segundo, a verdade é que a hipocrisia raramente é consciente. Na maioria das vezes, o indivíduo não percebe a hipocrisia, pois na cabeça dele as situações são diferentes e merecem tratamento diferente mesmo. Ele critica o genocídio em Gaza porque Israel é um país ocidentalizado e apoiado pelos Estados Unidos e, assim, deve-se exigir mais dele. Já o Irã seria um país com uma outra história e outra cultura política, da qual não se poderia exigir muito. (Se parece um racismo das baixas expectativas, é porque é mesmo; mas o progressismo frequentemente é racista em sua interpretação do mundo).
Para piorar, fanatizados na ética niilista segundo a qual a nossa própria civilização ocidental não tem nada de positivo, o esquerdista é doutrinado a idealizar qualquer guerrilheiro ou radical que pareça anti-imperialista. E como o regime iraniano posiciona-se como contrário a Israel e aos Estados Unidos, ele passa a ser a opção virtuosa da consciência crítica de esquerda.
O que fica claro, assim, é que a opinião progressista não tem relação nenhuma com os direitos humanos ou o bem-estar dos povos; o esquerdista busca apenas defender qualquer regime, de qualquer natureza, desde que ele se posicione de maneira contrária à civilização ocidental, que ele identifica como a raiz do Mal.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos




