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Depois do assassinato de Henry Nowak, sobre o qual escrevi na semana passada, um novo caso renovou o sentimento de revolta de cidadãos do Reino Unido. Na segunda-feira (8), em Belfast, um cidadão sudanês foi filmado esfaqueando o rosto e o pescoço de um homem, no que parecia ser uma tentativa de degola ou de decapitação.
Até o momento não estão claros os antecedentes e as motivações para o crime, mas o vídeo é tenebroso: vê-se o sujeito relativamente calmo, montado sobre o outro que se encontrava indefeso ao chão, usando a faca em movimentos de corte na direção do seu rosto e do seu pescoço. Algum tempo depois, podem-se ver transeuntes ganhando coragem e se aproximando para interromper o barbarismo e livrar a vítima de seu algoz.
Até para o Brasil, um país razoavelmente violento, uma cena desse tipo seria demasiadamente brutal. Evidentemente que, logo em seguida, convocou-se uma série de manifestações, as quais têm ocorrido desde ontem – algumas até com violência, incêndios e destruição – na Irlanda do Norte.
Há várias explicações para o que ocorre na Europa; em geral, tendo a acreditar que o problema europeu deve-se sobretudo à destruição moral causada pelo comunismo, conforme tenho escrito nas minhas colunas. Mas como o comunismo costuma-se manifestar de diferentes formas, com distintos conceitos e vocabulários – como multiculturalismo, anticolonialismo, identitarismo, ambientalismo, direitos humanos etc. –, é sempre necessário analisar quais de seus aspectos alimentaram a crise específica que se busca entender.
Se todas as culturas têm o mesmo valor, se todas elas podem ser convidadas a integrar o projeto multicultural europeu, então simplesmente não há mais nada que possa ser rechaçado a priori
Há muitas décadas, a Europa adotou o projeto do multiculturalismo, segundo o qual uma nação não precisaria ter uma cultura principal que servisse para galvanizar a população em torno de um ideal comum; uma nação poderia ser bem-sucedida tornando-se multicultural, ou seja, tornando-se um país em que pessoas com diferentes bagagens culturais convivem perfeitamente lado a lado com respeito, confiança e segurança.
O problema é que, evidentemente, culturas diferentes possuem valores e visões de mundo diferentes; por vezes compatíveis, mas muitas vezes incompatíveis também. O problema do progressista é acreditar que o planeta seria um paraíso, e o ser humano seria um anjo, caso as estruturas opressivas não os transformassem em inferno e demônio. Na cabeça do progressista, assim, basta destruir as estruturas malévolas (como o capitalismo, o colonialismo etc.) para que o Bem floresça eternamente; basta trazer para perto todas as culturas do mundo, que assim a tolerância e a paz vicejarão. Sem o capitalismo e suas opressões, todas as culturas são compatíveis.
O problema é que, quando não há uma cultura nacional considerada principal, ou de referência, perde-se a capacidade de se distinguir o certo do errado, o aceitável do inaceitável. Perde-se inclusive a capacidade de adjudicar quais culturas devem ser impedidas de imigrar. E pior: algumas culturas são totalitárias, monopolizadoras, não admitindo a convivência com outras culturas, o que tem o potencial de gerar ainda mais conflitos.
Esse tipo de problema de incompatibilidade já foi percebido há muito tempo; já em 2010 a chanceler alemã Angela Merkel havia dito que o multiculturalismo alemão fracassara.
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Se todas as culturas têm o mesmo valor, se todas elas podem ser convidadas a integrar o projeto multicultural europeu, então simplesmente não há mais nada que possa ser rechaçado a priori; tudo passa a valer, desde que mediante a justificativa de pertencer à “cultura” de um grupo determinado.
E é assim que, na Europa progressista onde dizem defender a mulher, por exemplo, aceita-se a presença de imigrantes com libidos medievais sobre a função da mulher na sociedade. A esquerda que defende o feminismo é a mesma esquerda que incentiva a imigração dos grupos mais misóginos do planeta, e que ameaçam a segurança e a vida das mesmas mulheres por quem afirmam lutar. Essas duas ambições parecem contraditórias, mas na realidade integram um plano bastante consistente: uma revolta niilista contra o Ocidente, contra “as potências”, e contra “o homem branco”.
Algumas coisas, no entanto, serão demasiado selvagens para serem aceitas; uma tentativa de decapitação no meio da rua, executada em frente a outras pessoas, pode ser o tipo de evento que provoque o crescimento do movimento político contrário a essa submissão da Europa. Em um momento em que o multiculturalismo começa a cobrar o seu preço em vidas, talvez alguns retardatários comecem a acordar para o problema que insuflaram.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos








