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Na semana passada escrevi sobre a esquerda e sua aparente contradição entre apoiar a causa LGBT e, ao mesmo tempo, apoiar grupos terroristas que cometem atentados contra civis (inclusive contra a população LGBT). Conforme expliquei, essas causas de direitos de minorias e “oprimidos” não têm importância real para a esquerda; elas são apenas instrumentos para o seu ímpeto revolucionário. Se for preciso sacrificar os direitos de gays, mulheres, negros, trans e qualquer outro grupo em nome da utopia progressista, eles assim o farão, sem qualquer claudicância moral.
Essa mesma lógica permite-nos entender uma outra grande (aparente) contradição existente no esquerdismo atual: a sua adesão ao antissemitismo e o seu apoio ao terrorismo islâmico.
Muitos acreditam que o progressismo seja sobretudo uma doutrina econômica, resultado de um diagnóstico sobre as injustiças do “capitalismo”. Há poucos ricos e muitos pobres, dizem eles, uma grande desigualdade na sociedade; e se somos seres empáticos e morais, devemos direcionar nossas preocupações humanitárias a quem é mais fraco e mais pobre, a quem tem menos condições de se defender. É no interesse dos mais pobres que o progressista trabalharia, assim, para aprimorar as instituições sociais rumo a uma sociedade igualitária.
E se você quisesse destruir o Ocidente, a quem você pediria ajuda? Onde você recrutaria a violência para o auxiliar nesse esforço revolucionário? Como atrair e arregimentar as forças da destruição?
Enquanto essas atividades de empatia e caridade forem construtivas, isso é até bom, e nada tem a ver com progressismo. Se eu tenho empatia pelos mais pobres e passo a doar alimentos e dinheiro, passo a fazer caridade e a voluntariar-me em associações religiosas – ou seja, passo a engajar-me em atividades construtivas –, isso é apenas uma ação moral de amor e ajuda ao próximo que muitas religiões e filiações políticas (incluindo liberais e conservadores) costumam incentivar.
A “empatia” e a “caridade” do progressismo são bem diferentes. O progressista olha para a realidade e conclui que os seus problemas são tão malignos quanto insanáveis, e apenas a destruição da ordem atual poderá permitir o surgimento do amanhã radiante. Todo o sonho escatológico da utopia progressista passa, assim, pela destruição do que existe atualmente. O esquerdismo é, assim, um movimento niilista dedicado à destruição do Ocidente e de suas instituições (capitalismo, Igreja, liberdades individuais etc), supostamente para que isso facilite o surgimento de uma sociedade utópica sem classes, sem pobreza, sem opressões.
E se você quisesse destruir o Ocidente, a quem você pediria ajuda? Onde você recrutaria a violência para o auxiliar nesse esforço revolucionário? Como atrair e arregimentar as forças da destruição? Qual é a causa que nos permite antagonizar o Ocidente ao máximo, antagonizá-lo ao ponto da violência? Esse é o dilema estratégico da esquerda atual.
A agenda da mudança climática, com o seu tom histérico e sua pregação apocalíptica, até que foi uma boa tentativa, mas a destruição tem-se limitado mais à economia que à destruição concreta que apenas a violência direta pode produzir. A imigração sem limites também provê certa chama-piloto para o radicalismo violento, mas ainda fica faltando o movimento geral que permitirá a sua conflagração.
É aqui que o antissemitismo e o antissionismo de esquerda entram na agenda do progressismo ocidental atual. Ao associar Israel a “atrocidades” e ao “Ocidente”, o progressismo marca a porta do Ocidente com símbolos de demolição. Terroristas de todo mundo, uni-vos! Aqui há judeus, aqui há defensores de Israel, e vocês jamais se libertarão da opressão sionista enquanto não destruírem o Ocidente que os apoia. Essa é a razão de ser da união niilista global: a esquerda acorda e cutuca o dragão do fundamentalismo islâmico para auxiliá-la em seu projeto niilista.
O antissemitismo progressista é o escudo de David riscado nas instituições ocidentais; é o alvo desenhado que atrai o terrorismo antissemita e o faz trabalhar para a causa do progressismo niilista. É claro que, nesse processo, alguns terroristas também se empolgarão em demasia e acabarão atacando gays e outras minorias; mas esse é um preço que a esquerda está (e sempre esteve) disposta a pagar.
A esquerda tem um longo histórico de antissemitismo, e hoje ela identificou que a sua obsessão anti-Israel, o seu antissionismo psicótico, também pode auxiliá-la em seu ímpeto niilista mais amplo: a arregimentação do terrorismo islâmico para a destruição do Ocidente.

Gustavo Maultasch é diplomata e autor do livro "Contra toda Censura: Pequeno Tratado sobre a Liberdade de Expressão", lançado pela Avis Rara. É formado em direito pela UERJ, mestre em diplomacia pelo Instituto Rio Branco e doutor em administração pública pela Universidade de Illinois-Chicago. Foi Network Fellow do Centro de Ética de Harvard (2013-2014). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



