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Imagine que você tenha um conhecido que, um dia, puxe uma conversa e diga que acabou de voltar de um país africano, e que achou a viagem absolutamente abominável. Tudo bem, podemos pensar; ninguém é obrigado a gostar de país nenhum. Vai ver que ele teve uma experiência ruim mesmo.
Durante semanas, ele faz diversos posts no Instagram com críticas severas à África e a líderes africanos (por exemplo, sobre corrupção e violência). Tudo bem; o sujeito pode mesmo pensar e falar sobre o que quiser. Vai ver ele ficou realmente impressionado com a África.
Em seguida, ele faz vários posts sobre como ele não suporta a capoeira, e que considera os seus praticantes uns desarrazoados sem amor ao próprio tempo. Tudo bem; ninguém é obrigado a gostar de capoeira mesmo.
Na próxima vez que vocês se encontram, ele comenta que viu uma apresentação de hip hop, e que achou tudo absolutamente insuportável, ridículo, desde a música até a estética do cabelo dos artistas. Tudo bem; ninguém, evidentemente, é obrigado a gostar de apresentações de hip hop.
Nenhuma dessas críticas, isoladamente, seria necessariamente preconceituosa; ninguém é obrigado a gostar de nada, e todos têm o direito de criticar o que quiserem. O sujeito tem, evidentemente, a liberdade para pronunciar-se sobre sua aversão a elementos relacionados à cultura negra.
Mas em que momento essas antipatias deixam de ser acidentais? Em que momento devemos parar e pensar que é, realmente, esse cara tem algum problema com negros?
Quando a crítica se manifesta como uma fixação desproporcional sobre Israel, e quando é baseada num padrão duplo de julgamento que trata o estado judeu como diferente dos demais, podemos afirmar que estamos diante do antissionismo psicótico
Estatisticamente é muito estranho: em algum momento o espaço desproporcional que os negros preenchem nas preocupações diárias dele deve-nos conduzir, forçosamente, à conclusão sobre preconceito e racismo.
É exatamente isso o que ocorre hoje em relação a judeus e a Israel. Trata-se de uma fixação, obsessão, histeria, uma atenção completamente desproporcional sobre o que Israel faz, como se esse país fosse a principal raiz dos males da região e do mundo. É uma aversão compulsiva ao Estado de Israel e que, por diferenciar-se do antissemitismo clássico, prefiro chamar de transtorno de antissionismo psicótico.
Eu nem gosto de usar demais o termo antissemitismo, porque isso acaba enfraquecendo o termo quando realmente precisarmos dele (o mesmo desgaste tem ocorrido com racismo, misoginia, transfobia, homofobia etc). Talvez outras expressões, como antissionismo psicótico, possam ser mais adequadas.
Uma das maiores diferenças do antissemitismo para os demais preconceitos é que, no antissemitismo, as características do alvo (o judeu) transformam-se no tempo. O judeu é sempre retratado como o arquétipo do Mal e, assim, ele simboliza aquilo que cada época define como sendo o Mal.
Na época em que a religião e o cristianismo eram a principal referência cultural, o judeu era o assassino de Cristo, ou o assassino de crianças para usar o seu sangue em rituais religiosos. Na época do avanço dos nacionalismos, da ciência moderna e do racismo científico, o judeu passou a ser a anti-raça, ou o traidor da nação. E após a Segunda Guerra Mundial, com os movimentos de descolonização, o avanço do internacionalismo (e do globalismo) e o crescimento da ideologia dos direitos humanos, os judeus passaram a ser os colonizadores brancos que vilipendiam inocentes palestinos e causam instabilidades na região. O judeu é sempre a antítese daquilo que uma época considera como virtuoso. E toda geração acha que odeia os judeus pelos motivos certos.
Neste momento em que Donald Trump aliou-se a Israel na guerra contra o Irã, alguns antissemitas têm promovido teorias de que Israel estaria por trás do assassinato de Charlie Kirk (que supostamente se oporia à guerra) e que teria ameaçado Trump de morte. (É uma teoria da conspiração completamente absurda: como se o Mossad precisasse ameaçar Trump, que tem uma filha judia e é o presidente mais pró-Israel da história dos Estados Unidos).
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O antissemitismo hoje revela-se, sobretudo, como antissionismo psicótico. Em vez de se opor a judeus diretamente, o antissionista opõe-se a Israel e ao sionismo (que nada mais é do que o movimento nacional dos judeus pelo estabelecimento de Israel).Com isso, ele sente-se livre para judiar exclusivamente do único Estado judeu do mundo enquanto jura para si mesmo que nada tem contra judeus. Muitas vezes essa psicose é acidental, fruto da ignorância ou do efeito manada; o universitário vai na passeata do “Palestina Livre” porque os amigos vão e essa parece ser a coisa certa a se fazer. Outras vezes, no entanto, o antissemita faz uso consciente do antissionismo como um disfarce para o seu preconceito.
O antissionismo difere de uma crítica aceitável a Israel por dois motivos. Primeiro, o antissionismo costuma-se manifestar como uma fixação, uma obsessão desproporcional com Israel, que normalmente se apresenta como uma indignação seletiva: o antissionista psicótico é capaz de passar anos acusando Israel de genocídio sem, por exemplo, jamais criticar quaisquer outros governos que, estes sim, neste exato momento, estão cometendo verdadeiros genocídios.
E segundo, o antissionismo manifesta-se pela singularização de vícios (como se Israel fosse o único estado com determinados problemas) ou pela negação a Israel de direitos que são amplamente conferidos a outros estados. Trata-se de um duplo padrão de julgamento, exigindo dos judeus o que não se exige de mais ninguém. Por exemplo, como diz Norman Podhoretz, “todos os outros povos têm direito à autodeterminação nacional, mas quando os judeus exercem esse direito, estão cometendo os crimes de racismo e imperialismo. Da mesma forma, todas as outras nações têm o direito de garantir a segurança de suas fronteiras; quando Israel exerce esse direito, está cometendo o crime de agressão”.
Torna-se relativamente simples, assim, reconhecer quando a crítica a Israel ultrapassa a fronteira do admissível e se torna antissionismo psicótico. Quando a crítica se manifesta como uma fixação desproporcional sobre Israel, e quando é baseada num padrão duplo de julgamento que trata o estado judeu como diferente dos demais, podemos afirmar que estamos diante do antissionismo psicótico, a mais recente – e atualmente a mais popular – manifestação de antissemitismo.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos








