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Quando a esquerda anuncia Lula, toda a esquerda fecha com Lula. Podem reclamar, podem fazer aquelas discussões intermináveis e minuciosas sobre a vulgata marxista, mas no final todos pedem voto e fazem o L. Mas quando a principal liderança da direita anuncia Flávio Bolsonaro, parte considerável da direita resiste; por que não outro candidato? Por que não alguém menos de direita, menos polarizador, menos brucutu? Por que não Tarcísio?
Deixe-me tirar logo o óbvio do caminho: qualquer opção à direita do PT é melhor que o PT, evidentemente. Qualquer coisa que nos livre dessa esquerda tirânica, delirante e antissemita, desse ciclo interminável de censura e imposto, para mim é lucro. Dito isso, ainda assim podemos criticar a hesitação da direita em apresentar-se como direita, e a insistência em candidatos que cedem demais à social-democracia que vem destruindo o país há décadas.
A adesão, a crença e a paixão por um dos lados não é algo tão pernicioso assim quanto se pensa. Muitas vezes é preciso combater fogo com fogo, e se o adversário galvaniza esse tipo de apoio, a contenção do incendiário exigirá convicção semelhante do outro lado
Parte do problema é que muitos intelectuais de direita também estão imersos na hegemonia progressista, e terminam por absorver as suas premissas sobre a realidade. O candidato de esquerda pode ser extremista e prometer guerra; mas o da direita precisa ser circunspecto, demonstrar compostura e ser magnânimo com a esquerda que o quer destruir.
O candidato de esquerda pode-se preocupar apenas em vencer, a qualquer custo; mas o de direita precisa vencer “direito”, com fair play, precisa ser ecumênico, um político de “proposta”, alguém que irá dirimir a “polarização” e “unir” o país. Reparou na prudência e sofisticação?
Esses entusiastas da moderação são herdeiros da longa tradição brasileira do bacharelismo improdutivo, que consagrou a figura do mediador, do comentarista de salão, do observador do Olimpo, do crítico equidistante, enfim, do hermeneuta desassombrado, que vê tudo com ironia, com ceticismo político e moral, e que está sempre apto a interpretar a realidade como uma sequência de erros cometidos por pessoas sem ilustração.
O hermeneuta desassombrado jamais se deixa levar pelas paixões mundanas de ter de escolher um lado; ele prefere anunciar a sua vitória moral diretamente de dentro do gulag. Posso ser torturado e morrer, mas ao menos tenho princípios! Só que na verdade nem isso ele tem, porque desprezar assim a própria vida é um tipo de imoralidade.
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O desassombrado comete um erro grave também na sua concepção de democracia. Para ele, a democracia é uma instituição meramente deliberativa: as pessoas elegem representantes, e esses representantes discutem e votam nas políticas que julgarem mais adequadas para o país. Essa é uma visão bastante comum da democracia, e imagino que boa parte da população, se perguntada sobre o significado da democracia, responderia alguma coisa parecida com isso.
O problema é que esse ideal deliberativo destrói o sentido real da democracia. O objetivo da democracia é conter abusos de poder; é garantir que o poder que conferimos ao Estado – em especial o poder de usar a força para proteger a vida, a liberdade e a propriedade – jamais seja utilizado contra nós mesmos. Para garantir que esse poder não se concentre, a democracia promove a transição pacífica de poder. Esse é todo o sentido da democracia; todo o resto é acessório. Se pudermos aprovar boas leis, ótimo; mas a função principal da democracia não é essa, e sim evitar abusos de poder por meio da transição pacífica de poder.
É por isso que a adesão, a crença e a paixão por um dos lados não é algo tão pernicioso assim quanto se pensa. Muitas vezes é preciso combater fogo com fogo, e se o adversário galvaniza esse tipo de apoio, a contenção do incendiário exigirá convicção semelhante do outro lado. A afetação de moderação e distanciamento esplêndido do hermeneuta desassombrado pode ser útil para a sua autoimagem, mas não contribui para os objetivos reais de preservação da democracia.
A caminho do gulag, ninguém deveria perder tempo convencendo os algozes de que aquilo é errado; ele provavelmente ou não se importa, ou já sabe disso e crê que você o merece. A caminho do gulag, a sua única preocupação deve ser em evitar o gulag. E nesses cenários a afetação de desassombro faz apenas facilitar o trabalho dos tiranos.




