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Gustavo Maultasch

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Eleições

Os hermeneutas desassombrados de Tarcísio

Após evento em Embu das Artes (SP), Tarcísio de Freitas reafirmou sua pretensão em disputar segundo mandato como governador de São Paulo.
Após evento em Embu das Artes (SP), Tarcísio de Freitas reafirmou sua pretensão em disputar segundo mandato como governador de São Paulo. (Foto: Celio Messias/Governo de SP)

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Quando a esquerda anuncia Lula, toda a esquerda fecha com Lula. Podem reclamar, podem fazer aquelas discussões intermináveis e minuciosas sobre a vulgata marxista, mas no final todos pedem voto e fazem o L. Mas quando a principal liderança da direita anuncia Flávio Bolsonaro, parte considerável da direita resiste; por que não outro candidato? Por que não alguém menos de direita, menos polarizador, menos brucutu? Por que não Tarcísio?

Deixe-me tirar logo o óbvio do caminho: qualquer opção à direita do PT é melhor que o PT, evidentemente. Qualquer coisa que nos livre dessa esquerda tirânica, delirante e antissemita, desse ciclo interminável de censura e imposto, para mim é lucro. Dito isso, ainda assim podemos criticar a hesitação da direita em apresentar-se como direita, e a insistência em candidatos que cedem demais à social-democracia que vem destruindo o país há décadas.

A adesão, a crença e a paixão por um dos lados não é algo tão pernicioso assim quanto se pensa. Muitas vezes é preciso combater fogo com fogo, e se o adversário galvaniza esse tipo de apoio, a contenção do incendiário exigirá convicção semelhante do outro lado

Parte do problema é que muitos intelectuais de direita também estão imersos na hegemonia progressista, e terminam por absorver as suas premissas sobre a realidade. O candidato de esquerda pode ser extremista e prometer guerra; mas o da direita precisa ser circunspecto, demonstrar compostura e ser magnânimo com a esquerda que o quer destruir.

O candidato de esquerda pode-se preocupar apenas em vencer, a qualquer custo; mas o de direita precisa vencer “direito”, com fair play, precisa ser ecumênico, um político de “proposta”, alguém que irá dirimir a “polarização” e “unir” o país. Reparou na prudência e sofisticação?

Esses entusiastas da moderação são herdeiros da longa tradição brasileira do bacharelismo improdutivo, que consagrou a figura do mediador, do comentarista de salão, do observador do Olimpo, do crítico equidistante, enfim, do hermeneuta desassombrado, que vê tudo com ironia, com ceticismo político e moral, e que está sempre apto a interpretar a realidade como uma sequência de erros cometidos por pessoas sem ilustração.

O hermeneuta desassombrado jamais se deixa levar pelas paixões mundanas de ter de escolher um lado; ele prefere anunciar a sua vitória moral diretamente de dentro do gulag. Posso ser torturado e morrer, mas ao menos tenho princípios! Só que na verdade nem isso ele tem, porque desprezar assim a própria vida é um tipo de imoralidade.

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O desassombrado comete um erro grave também na sua concepção de democracia. Para ele, a democracia é uma instituição meramente deliberativa: as pessoas elegem representantes, e esses representantes discutem e votam nas políticas que julgarem mais adequadas para o país. Essa é uma visão bastante comum da democracia, e imagino que boa parte da população, se perguntada sobre o significado da democracia, responderia alguma coisa parecida com isso.

O problema é que esse ideal deliberativo destrói o sentido real da democracia. O objetivo da democracia é conter abusos de poder; é garantir que o poder que conferimos ao Estado – em especial o poder de usar a força para proteger a vida, a liberdade e a propriedade – jamais seja utilizado contra nós mesmos. Para garantir que esse poder não se concentre, a democracia promove a transição pacífica de poder. Esse é todo o sentido da democracia; todo o resto é acessório. Se pudermos aprovar boas leis, ótimo; mas a função principal da democracia não é essa, e sim evitar abusos de poder por meio da transição pacífica de poder.

É por isso que a adesão, a crença e a paixão por um dos lados não é algo tão pernicioso assim quanto se pensa. Muitas vezes é preciso combater fogo com fogo, e se o adversário galvaniza esse tipo de apoio, a contenção do incendiário exigirá convicção semelhante do outro lado. A afetação de moderação e distanciamento esplêndido do hermeneuta desassombrado pode ser útil para a sua autoimagem, mas não contribui para os objetivos reais de preservação da democracia.

A caminho do gulag, ninguém deveria perder tempo convencendo os algozes de que aquilo é errado; ele provavelmente ou não se importa, ou já sabe disso e crê que você o merece. A caminho do gulag, a sua única preocupação deve ser em evitar o gulag. E nesses cenários a afetação de desassombro faz apenas facilitar o trabalho dos tiranos.

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