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Gustavo Maultasch

Gustavo Maultasch

Oriente Médio

Israel e o conflito mais simples da história

Israel ama viver, e seus inimigos odeiam Israel mais do que amam a própria vida. (Foto: Stanislav Vdovin/Unsplash )

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Um dos maiores erros de análise sobre o conflito Israel-Palestina, ou o conflito Israel-Irã, é acreditar que se trata de um conflito “complexo”. É evidente que, se você for entrar no varejo da política do dia a dia, querendo entender a posição de cada linha ideológica de cada governo (ou grupo político) da região, incluindo cada um dos seus adversários, aí fica complicado mesmo; mas aí até briga de condomínio torna-se complexa.

Imagine uma série de conflitos dos últimos séculos – como a revolução francesa, as guerras napoleônicas, a primavera dos povos, a guerra russo-turca, as guerras mundiais, a guerra fria – e você verá que esses conflitos são infinitamente mais complexos do que as guerras envolvendo Israel. Até a guerra dos ambulantes com a Guarda Municipal do Rio de Janeiro – que em breve superará, em duração, a Guerra dos Trinta Anos – é mais tortuosa e complicada que o conflito no Oriente Médio.

Os analistas progressistas baseiam-se na ideia de que todas as culturas são iguais; e que comparar culturas não apenas é errado analiticamente, como também é moralmente repreensível

O conflito envolvendo Israel e seus inimigos realmente não conta com essa profundidade toda. Essa suposta complexidade é um clichê bastante repetido, e acredito que o seja porque os analistas (em sua maioria progressistas) adotam o relativismo e, por isso, têm receio de tomar posições. Ou melhor: tirando aqueles progressistas que já mergulharam no antissemitismo de esquerda e adotam uma posição automática anti-Israel, os demais têm receio de tomar posições.

Dizer que o conflito é “complexo” é uma maneira de evitar-se comprometer com uma interpretação clara sobre o conflito. É uma forma também de os progressistas conseguirem evitar enxergar (e pronunciar) o óbvio: que Israel é um ator mais moral que os seus adversários.

Os analistas progressistas baseiam-se na ideia de que todas as culturas são iguais; e que comparar culturas não apenas é errado analiticamente, como também é moralmente repreensível. Com isso, eles acabam-se incapacitando para fazer juízos morais sobre a ação de um ou outro grupo. Qualquer ação, por mais bárbara e extremista que seja, acaba sendo interpretada como resultado de alguma avaliação racional.

Por exemplo: o Hamas assassinou israelenses? Deve ser apenas uma consequência natural da “ocupação” ou da “repressão”; os israelenses são iguais. O Irã oprime gays, mulheres e minorias? Tudo bem, mas e os Estados Unidos, que nem têm saúde pública e gratuita? Essas comparações ridículas são o resultado de quem parte da conclusão para, depois, buscar os argumentos na realidade. E esse tipo de analogia é uma forma de evitar enxergar a realidade: que há culturas e regimes que, infelizmente, são dedicados à destruição de outros grupos, e que por isso são moralmente mais condenáveis que outros.

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Tendo-se coragem para fazer avaliações morais, o conflito torna-se simples de entender. Desde a Comissão Peel (1936-1937), desde a partilha da ONU (1947), os judeus sempre aceitaram dividir terras e conviver na região com os árabes. Estes, por sua vez, sempre recusaram aceitar a existência de Israel, e empreenderam diversas guerras – em 1948, em 1967, em 1973, afora inúmeros outros conflitos menores – com o objetivo de destruir Israel e assassinar judeus. Israel obviamente não quer ser destruído; daí o conflito.

A propensão de Israel à paz é demonstrada, inclusive, pelos acordos de paz ou normalização que assinou com países árabes, como Egito (1979), Jordânia (1994), e Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos (2020). Ou seja: se você é um sujeito pacífico e for a Israel, é capaz de andar na rua, tropeçar num buraco e sem querer acabar voltando de lá com um acordo de paz assinado entre você e a calçada.

O regime iraniano financia e treina o chamado Eixo da Resistência, incluindo grupos como Hamas e Hezbollah, com o claro objetivo de destruir Israel. Evidentemente que Israel (ou qualquer outro ator racional) não pode aceitar que esse país detenha armas nucleares. Mais uma vez, um adversário quer destruir Israel mas Israel não quer ser destruído; daí o conflito.

O resto da história, os detalhes de cada guerra e os posicionamentos dos variados grupos políticos, são notas de rodapé nessa simplicidade geral do conflito: Israel ama viver, e seus inimigos odeiam Israel mais do que amam a própria vida.

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