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Como relíquia cultural de manifestação do neocomunismo, o desfile da Acadêmicos de Niterói foi excepcional. Trata-se de um desses documentos de valor incomum, que logram materializar a autopercepção e as intenções de um regime em sua época. Não me espantaria se, no futuro, esse desfile venha a ser objeto de livros e teses buscando explicar como o Brasil se destruiu pela (ou se salvou a despeito da) ameaça neocomunista.
Essa é a vantagem que, de vez em quando, a direita recebe de presente da esquerda: os comunistas são tão orgulhosos e satisfeitos consigo mesmos que, autoconfiantes, acabam abrindo inadvertidamente as suas intenções. Eles esquecem-se de que a esquerda é uma farsa que produz apenas miséria, ressentimento e tirania, e que só se sustenta por causa da capitalização do ressentimento, dos sonhos da utopia e das fantasias do marketing eleitoral.
Ou seja, eles acabam acreditando nos disfarces que eles mesmos inventam (todos seremos iguais; picanha para todos!), e resolvem abrir o jogo: é tudo utopia, luta de classes e destruição moral mesmo.
Respire fundo, pois tudo é política
Além de assistir ao desfile, eu lio Livro Abre-Alas (publicado pela LIESA, a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro), que apresenta explicações detalhadas sobre o enredo das escolas de samba.
Segundo a doutrina progressista, nada pode existir simplesmente para as suas funções apropriadas. Por exemplo, a música não pode servir apenas ao prazer auditivo, nem a comida ao paladar, nem a medicina à saúde, ou a educação ao saber; tudo deve servir à política. É por isso que adoram dizer que “tudo é política”: porque se tudo tem um componente político, o esquerdista sente-se autorizado a distorcer qualquer coisa na direção de suas preferências políticas. Já havia política mesmo, não fui eu que comecei! E é assim que o esquerdismo destrói praticamente todas as instituições em que sua hegemonia se estabelece.
No Livro Abre-Alas, a Acadêmicos afirma que “defender um enredo em homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva no carnaval é, antes de tudo, defender a própria essência do samba enquanto expressão cultural, política e popular do Brasil (...) Por fim, essa homenagem a Lula também reafirma o carnaval como patrimônio vivo em defesa da democracia brasileira” (p. 9).
Veja-se que o enredo de carnaval não pode ser apenas uma obra de arte, apenas uma manifestação estética que tem como objetivo trazer prazer aos sentidos. O samba precisa ser mais do que isso, pois ele tem uma “expressão” que também é “política”. O carnaval precisa ter um objetivo maior, mais amplo, totalizante; ele precisa ser um patrimônio “em defesa da democracia brasileira”.
Hagiografia
De início, o enredo da Acadêmicos de Niterói chama à atenção pela hagiografia demasiado explícita que faz de Lula, com alegorias personalistas evocando a sua imagem. Na explicação do enredo, a agremiação diz que “a combinação de uma personalidade carismática com sensibilidade social são trunfos sublimes” de Lula (p. 5), que ele é “exemplo de persistência, resiliência e resistência” (p. 24), que a agremiação celebra “a vida de Lula na defesa da nossa soberania” (p. 24).
Ao explicar a simbologia da Comissão de Frente do enredo, a escola informa que “ao retomar o comando da nação [agora em seu terceiro mandato], ele [Lula] confirmou a profecia que move sua existência: a de que o ódio pode ferir, mas é incapaz de governar o coração de um povo que decidiu ser livre. Mais uma vez, diante do mundo, o amor venceu o medo” (p. 57).
Será que as nossas vidas são igualmente movidas por profecias, ou apenas a de Lula?
O samba-enredo tem várias referências que o santificam também, como “pro destino retirante te levei Luiz Inácio / por ironia, treze noites, treze dias / me guiou Santa Luzia, São José Alumiou / da esquerda de Deus pai, da luta sindical / à liderança mundial”.
Mas veja, ele senta-se apenas à esquerda de Deus, porque à direita seria muita pretensão. Ou será que é melhor à esquerda, já que à direita seria extremismo?
Mas o enredo é muito pior do que apenas essa exaltação messiânica de Lula.
Luta de classes
O desfile repete toda a mitologia do comunismo, segundo a qual a sociedade é dividida entre exploradores e explorados, opressores e oprimidos, ricos e pobres. No samba-enredo ouve-se que Garanhuns é “lugar onde a pobreza e o pranto / se dividem para tantos / e a riqueza multiplica para alguns”.
A ala 10, que é a ala da bateria, utiliza uma fantasia que representa “o amadurecimento e o tempo em que Luiz Inácio permaneceu dentro das fábricas (...) Foi nesse período que, por influência do irmão mais velho, Frei Chico, o homenageado adquiriu consciência de classe(...)”. O adereço de cabeça da fantasia é uma peça de engrenagem, que representa “todo o conhecimento, da técnica ao esclarecimento em prol do coletivo” (p. 35). Reparem como, na visão de mundo do progressismo, o conhecimento deve incluir o “esclarecimento em prol do coletivo”.
O quarto carro alegórico representa barracos com fantasiados de pobre na parte de baixo, e prédios com fantasiados de ricos na parte de cima. Segundo o Livro Abre-Alas, a alegoria apresenta a “estratificação social vigente no país. Enquanto ‘os de cima’ nunca perdem a pose, os que vivem ‘às margens’ dependem de um governo que os assistam socialmente” (p.22).
A ala 20 do desfile é intitulada de “Taxação BBB (bilionários, bancos e bets)” e traz pessoas fantasiadas com dinheiro, cartola, e outros símbolos da riqueza. Segundo a agremiação, “desde o início deste terceiro mandato presidencial, Lula vem defendendo a taxação dos super-ricos. Em tom jocoso, a ala faz uma crítica aos ricos que devem pagar mais impostos. Para combater a chamada injustiça tributária, o presidente propôs novas leis e regras” (p. 43).
Mais à frente, lê-se: “é riqueza demais concentrada nas mãos de uma pequena parcela de super-ricos” (p. 43).
A Rainha Iluminista
Eu queria até que fosse, mas nem é brincadeira: a Rainha de Bateria da Acadêmicos de Niterói utilizou uma fantasia intitulada “Iluminista”; preciso dizer mais?
Segundo a descrição da agremiação, a fantasia reflete “as ideias que vão iluminar o coração e os discursos do homenageado [Lula] ao se tornar sindicalizado. Ela é a representação subjetiva para o conhecimento” (p. 35).
Trata-se da síntese perfeita do que é a esquerda: um produto kitsch, cafona, da mistura entre clichê, descaramento e soberba.
Mas se eles representam os iluministas, quem será que representa as trevas?
Maniqueísmo moral
Por falar em maniqueísmo enlatado, boa parte do enredo é dedicada a debochar de adversários (como Temer e Bolsonaro) e de conservadores. A coreografia da Comissão de Frente, por exemplo, apresenta o personagem de Temer tomando a faixa presidencial de Dilma. Aliás, ao descrever esse período da história, a agremiação repete a conhecida narrativa de esquerda: as “elites” resolveram perseguir Lula por causa dos avanços sociais que ele promoveu (p. 57).
Uma das alas, por exemplo, intitula-se “Menino veste rosa e menina veste azul”, e apresenta um homem vestindo rosa e uma mulher vestindo azul. (Que transgressão, que audácia, sambaram muito na cara da sociedade).
Deboche dos conservadores
Mas a ala 22, chamada de “Neoconservadores em conserva”, é de fato a mais peculiar. A fantasia, segundo a agremiação, “traz uma lata de conserva, com uma defesa da dita família tradicional, formada exclusivamente por um homem, uma mulher e os filhos”.
Sobre a cabeça, a fantasia apresenta diferentes “elementos para enumerar os grupos que levantam a bandeira do neoconservadorismo. São eles: os representantes do agronegócio (na figura de um fazendeiro), uma mulher de classe alta (perua), os defensores da Ditadura Militar e os grupos religiosos evangélicos. No Congresso Nacional, formam um bloco conservador que defende pautas como flexibilização do porte de armas, exaltação às Forças Armadas, interesses do agronegócio e dos valores tradicionais da família” (p. 44).
Além do adereço de cabeça, os que representavam os grupos evangélicos traziam à mão uma Bíblia, representada por um livro vermelho com uma cruz na capa. Parece até um elogio, não? O que tem de errado em ter uma família tradicional, em defender valores tradicionais da família, em ter a Bíblia como norte?
Constata-se aí realmente o ímpeto de destruição da família, elemento central do movimento comunista. O progressismo odeia a família por dois motivos principais: primeiro porque, se a realidade é maniqueísta, se tudo se resume a opressor versus oprimido, então na família também haverá opressores e oprimidos. A família seria, assim, nada mais que uma instituição de violência de alguém (talvez o pai) contra os demais (esposa e filhos), uma instituição de opressão, de reprodução de traumas e desigualdades etc. O progressista é tão treinado, tão lobotomizado a enxergar opressão em tudo que ele é incapaz de admitir que existam instituições baseadas em amor. Isso somente poderá ocorrer no dia em que a sua escatologia, o seu ideal messiânico, a revolução socialista, finalmente emergir. Todas as instituições, da família à igreja, são opressoras; tirando a esquerda. A esquerda é só amor.
E segundo, pelo simples fato de que todo culto totalitário odeia a família; eles sabem que os laços de afeto e desprendimento que unem a família formam um referencial sólido de verdade e de honestidade contra os estelionatários vindos de fora. É por isso que todo picareta, todo líder de culto, todo golpista, tenta afastar suas vítimas daqueles que as amam.
Ao se tratar de um culto totalitário e estelionatário, o progressismo une essas duas razões em sua guerra contra a família.
A cadência do progressismo
O progressista sabe que tudo tem o seu tempo: tem aquele minutinho excepcional em que ele faz bolinho e finge dialogar para pedir voto dos conservadores; e tem o resto todo da eternidade em que ele insulta e debocha dos valores do conservadorismo. E tudo isso, claro, enquanto diz que quer respeito e tolerância para todos.
Na ala 24, as fantasias são “manifestações carnavalescas que se apresentam com cunho político progressista, exaltando a perspicácia irônica brasileira, como pode ser vista em alguns estandartes da ala (...) Durante a festa, nossas fantasias são símbolos de uma utopia coletiva, onde a diversidade é celebrada e as diferenças são respeitadas” (p. 46).
A esquizofrenia é admirável: pregam a diversidade e a tolerância, mas fazem inúmeros deboches a conservadores, a evangélicos, ao agronegócio etc.
As diferenças são respeitadas; desde que sejam todos de esquerda, trabalhem para a esquerda, e jamais critiquem a esquerda. Essa é a verdadeira utopia de esquerda, tão bem representada pelas alegorias deste enredo: um projeto totalitário que tem o seu messias, a sua escatologia, o seu maniqueísmo moral, e que perseguirá quem ousar dissentir.




