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Nesses dias tive o desprazer de assistir a um vídeo do Eduardo Bueno, vulgo Peninha, em que ele maldizia evangélicos. Naquele seu estilo de afetação histriônica – para fazer as vezes de gênio louco descolado –, ele disse que evangélicos não deveriam votar, e que quando votam acabam elegendo “uma escumalha perigosa e violenta”. Ou seja: evangélicos são fascistas, odiosos, e deveriam ser rebaixados em seus direitos civis.
Tendo convivido muito tempo em ambientes dominados pela esquerda, já presenciei esse tipo de comentário diversas vezes. O evangélico – sua visão de mundo, sua opção eleitoral e sua forma de viver a vida – é visto pelo progressista como um obstáculo para a construção de uma sociedade “do Bem”, “inclusiva”, e que esteja “no rumo certo da história”.
Parte da postura do Eduardo Bueno deve-se a esnobismo, a preconceito de classe mesmo; como os acadêmicos são em sua maioria progressistas, o progressismo acaba sendo percebido e tratado como a ideologia da elite intelectual. Quem não aderiu ao progressismo é parte de uma massa de ignorantes
O progressista não enxerga a sociedade como um conjunto de indivíduos, cada qual com as suas aspirações, ansiedades e desígnios. Ele até sabe que essas particularidades individuais existem, mas elas são irrelevantes diante das injunções do amanhã radiante a ser construído. Para o progressismo, a sociedade é apenas um projeto escatológico de construção do futuro progressista, que por sua vez nada mais é que o futuro em que as pautas progressistas – legalização do aborto, das drogas, desencarceramento, intervencionismo econômico etc. – estejam plenamente vigentes.
Se o país estiver caminhando em direção a essas pautas, o progressista pensará que as coisas estão indo bem, que a sociedade está “progredindo”, que o país está-se desenvolvendo. A partir dessa escatologia, o progressista divide o mundo entre o Bem e o Mal; entre as pessoas que enxergam a luz (os “iluministas”) e os ignorantes que adoram as trevas. Aliás, se o sujeito for evangélico mas adotar a escatologia e as pautas progressistas, aí não há problema algum.
Parte da postura do Eduardo Bueno deve-se a esnobismo, a preconceito de classe mesmo; como os acadêmicos são em sua maioria progressistas, o progressismo acaba sendo percebido e tratado como a ideologia da elite intelectual. Quem não aderiu ao progressismo é parte de uma massa de ignorantes que precisa ser educada e salva pela vanguarda esquerdista.
À escatologia e ao esnobismo junta-se a tecnocracia, a vontade de governar os outros contra a sua própria vontade. Se nós conhecemos o rumo certo da história e, ainda por cima, somos mais intelectualmente preparados, por que o povo não sai logo do caminho e nos deixa governar em paz? Por que insistem em participar, em ter voz, em votar? A decisão sobre os rumos do país não pode ficar na mão de ignorantes.
É por essa tripla insistência – em não aceitar a escatologia progressista, em manter-se fiel independentemente do valor simbólico que a esquerda Projac atribui à sua religião, e em fazer-se presente na política – que o evangélico incomoda tanto o progressista. Ele sabe que enquanto existirem brasileiros com essa insistência, a sua revolução será impossível, ao menos dentro das regras democráticas (e é por isso que os progressistas têm trabalhado tanto para transferir o poder das instâncias eleitas para as não-eleitas, como o Judiciário, organismos internacionais etc.).




