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Após a dissolução do bloco soviético e o fim da Guerra Fria, muitos analistas julgaram que o mundo adentraria uma era sem ideologias. Os conflitos seriam ou bastante reduzidos, por causa da nova dominância dos valores da sociedade liberal (como democracia e direitos individuais) ou dar-se-iam por causa de choques civilizacionais e culturais, e não por razões ideológicas.
Embora tenham-se demonstrado incorretas, muitos acreditaram nessas previsões e assim baixaram a guarda, acreditando que a sua visão de mundo e os seus valores estariam perpetuamente em segurança, haja vista a extinção de ideologias e movimentos adversariais.
Toda mídia é uma espécie de tecnologia da liberdade, que contribui para horizontalizar relações sociais permitindo que o povo se faça ouvir um pouco mais
O que ocorreu, no entanto, foi o contrário. Na ausência de contrapontos, as lideranças das principais instituições do Ocidente – como governo, mídia, academia etc. – sentiram-se mais seguras para implementar a sua política e a sua visão de mundo. De certa maneira, essa é toda a história da política: quem manda, e como mandou; e num mundo sem contrapontos ideológicos, tornou-se mais fácil mandar e implementar o seu pensamento único.
O problema é que, como também demonstra a história, toda nova mídia derruba biombos; toda nova mídia revela aspectos do poder que, quando revelados, minam a legitimidade daquele poder. Isso ocorreu com a prensa de Gutenberg, com o telégrafo, com o rádio, com a televisão e, agora, com a internet e as redes sociais. Não necessariamente o que é revelado é algo ilegal; mas o desvelar das negociações próprias da política, do troca-troca, dos acordões, causa estranhamento no público, que passa a questionar o poder. E todo questionamento já é, por si só, um desafio à autoridade.
Antes das novas mídias, um cidadão comum, de uma pequena cidade do interior do Brasil, por exemplo, não dispunha de meios para arguir ou desafiar uma autoridade encastelada nessas instituições.
O advento da Internet e das redes sociais atenuou essas assimetrias de informação e de poder, permitindo que muitas outras vozes pudessem ser ouvidas e multiplicadas. Erros e abusos da autoridade passaram a ser descobertos, criticados e denunciados com maior facilidade, o que contribui para minar a legitimidade automática dessas elites institucionais. Toda mídia é uma espécie de tecnologia da liberdade, que contribui para horizontalizar relações sociais permitindo que o povo se faça ouvir um pouco mais.
Essa nova contestação costuma provocar ansiedade e indignação moral entre as elites, inconformadas que a plebe agora ouse questionar a sua autoridade. E costuma provocar ainda uma desorientação geral, uma ansiedade generalizada, no público em geral, que agora perdemos “o nosso senso de lugar” (Joshua Meyrowitz), perdemos as bases sobre as quais nos apoiar, as crenças mínimas comuns que podemos compartilhar.
De certa maneira, o nível de estridência no debate público, as “revoltas do público” (Martin Gurri) que ocorreram em países árabes nos anos 2000 e agora na Europa, fazem parte dessa história de como novas mídias desafiam as instituições e exigem maior transparência, mais prestação de contas, mais trabalho para manterem a sua legitimidade. Nem todas, no entanto, demonstraram-se à altura desse desafio histórico.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Gustavo Maultasch é diplomata e autor do livro "Contra toda Censura: Pequeno Tratado sobre a Liberdade de Expressão", lançado pela Avis Rara. É formado em direito pela UERJ, mestre em diplomacia pelo Instituto Rio Branco e doutor em administração pública pela Universidade de Illinois-Chicago. Foi Network Fellow do Centro de Ética de Harvard (2013-2014). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



