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Se tem uma coisa que devemos admirar na esquerda é a sua empáfia; a sua capacidade de vestir a cara-de-pau e defender, para os demais, aquilo que ela jamais toleraria para si. Será que fazem isso porque odeiam o próximo? Porque odeiam os mais pobres? Ou simplesmente têm algum amor platônico e olímpico pela hipocrisia?
E é assim que progressistas conseguem viver a vida inteira defendendo a escola pública, por exemplo, enquanto julgam uma humilhação – e uma falha espiritual inaceitável – não enviar os filhos para a escola particular. Da mesma forma, pronunciam repetidamente o mantra “Viva o SUS” enquanto, evidentemente, jamais levariam a família para correr riscos no sistema público de saúde. Para os bolchehipsters, Viva o SUS só é verdadeiro se significar “Só Uso Sírio”.
Viva a escola pública, Viva o SUS, Viva a abolição penal, nada disso se materializa, na vida prática, da maneira de que é falado, porque apesar de o esquerdista gostar de afetar a posição de que a favela é linda, ele sabe que jamais moraria na comunidade. Então é tudo uma farsa – com exceção talvez do Viva a Maconha, essa sim bastante verdadeira na esquerda. Viu como nem tudo é hipocrisia? (Ou melhor, até nisso tem hipocrisia sim, porque muitos dizem defender apenas a maconha medicinal, mas em geral é só estratégia para depois legalizar a recreativa mesmo).
Quando falam em socializar os meios de produção para reduzir a pobreza e promover a abundância, o que a esquerda realmente quer é a destruição da riqueza e da burguesia. Quando dizem defender inclusão e diversidade, o que buscam é a homogeneidade de pensamento
São raríssimas – na verdade, praticamente inexistentes – as políticas da esquerda que sejam fiéis ao que se propõem alcançar. A maioria de suas políticas é uma vileza niilista envelopada em algum discurso falso com pretensões de paz e amor universais.
Por exemplo, quando falam em socializar os meios de produção para reduzir a pobreza e promover a abundância, o que a esquerda realmente quer é a destruição da riqueza e da burguesia. Quando dizem defender inclusão e diversidade, o que buscam é a homogeneidade de pensamento. Quando falam em eliminar o ódio e fomentar a harmonia, o que buscam é a censura da direita. Quando falam em imigração e tolerância, o que eles querem é minar as bases demográficas e culturais do Ocidente.
O problema é que, evidentemente, muitos deles buscam promover a destruição enquanto reservam, para si, todos os benefícios do capitalismo e da “opressão”. Daí por que a hipocrisia é fundamentalmente uma doença ocupacional, uma lesão de esforço repetitivo, do trabalho de ser esquerdista. A mente progressista quer afetar a construção da utopia a partir da destruição de tudo que contenha alguma “opressão”, mas o seu corpo sabe que perderá o conforto se abandonar essa mesma “opressão” que lhe permite viver tão bem.
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E como ele vê-se ao espelho como um grande defensor das causas dos oprimidos, isso acaba-lhe conferindo licença moral para aproveitar ainda mais os confortos do capitalismo; é claro que eu vou ao hospital privado e não ao público! Porque, como eu sou um revolucionário, ao cuidar bem de mim eu estou cuidando também da revolução! Manter-me na opulência, na regalia, na volúpia, significa dar o mesmo à revolução, o que é praticamente sinônimo de conferir tudo isso ao povo diretamente. Bebamos ao povo!
Não à toa, há inúmeros nomes para o personagem político e social do progressista hipócrita: esquerda caviar, socialista champanhe, socialista de iPhone, comunista de limousine, radical chic, esquerda chardonnay, “bobo” (bourgeois-bohème), ambientalista de jatinho etc.
Em geral não acredito, no entanto, em hipocrisia consciente. Na cabeça do hipócrita, o que existem são no máximo contradições pontuais, negligenciáveis, que em sua mente não afetam em nada a nobreza do seu posicionamento. O problema não é usar o hospital particular em vez do público; o problema é que os hospitais públicos ainda não contem com a mesma excelência que os particulares. Até lá, até esse amanhã radiante em que os hospitais e as escolas públicas transformem-se em milagres burocráticos de leite e mel, o progressista vai vivendo a sua vida, dia após dia, sobrevivendo duramente à abundância do capitalismo opressor.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Gustavo Maultasch é diplomata e autor do livro "Contra toda Censura: Pequeno Tratado sobre a Liberdade de Expressão", lançado pela Avis Rara. É formado em direito pela UERJ, mestre em diplomacia pelo Instituto Rio Branco e doutor em administração pública pela Universidade de Illinois-Chicago. Foi Network Fellow do Centro de Ética de Harvard (2013-2014). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



