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Gustavo Nogy

Gustavo Nogy

Às vezes é preciso não dar a mínima

Reprodução Cena de ""E o vento levou." (Foto: )

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Aconteceu na cidade de São João Batista da Glória, Minas Gerais.

Entra numa mercearia um homem com jeito de bandido, capacete de bandido, segurando a hipotética arma de bandido, e anuncia, como um bandido cumpridor dos deveres da bandidagem, o assalto diário.

Ninguém dá a mínima.

Quem bebe cerveja continua a beber cerveja, quem conversa continua a conversar, quem empacota continua a empacotar, quem nem dá por isso continua a nem dar por isso.

Insatisfeito com a fria recepção, o ignorado bandido faz ainda mais pose de bandido, invoca seus direitos de bandido, emposta a voz de bandido e, tal e qual um funcionário do SUS gritando as senhas dos pacientes e organizando a fila, anuncia, mais uma vez, o terrível assalto.

Ninguém dá a mínima.

Que eu saiba é a primeira vez que um assalto fracassou em virtude da indiferença dos assaltados. Numa atitude que beira a desobediência civil, retifico, a desobediência criminal, os frequentadores da mercearia deram de ombros e, com a classe de Clark Gable, foi como se em coro dissessem: “...frankly, my dear, we don't give a damn”.

Pois os frequentadores dessa mercearia, e com ela a cidade de São João Batista da Glória, deveriam ser condecorados como os únicos pacifistas possíveis. Mais do que isso: deveriam ensinar algumas lições ao restante do país.

O cronista Anderson França, preocupado com a ascensão do nazismo tropical, criticou aqueles da classe artística que silenciam a respeito. “O pessoal do pagodinho. Do sertanejo. Do axé. Do pop-funk-fuck”, representados nas figuras de “Thiaguinho, Simone e Simaria, Ivetão, Anittão de Honório, Maiara e Maraísa, Kéfera”.

De repente, descobrimos a luta de classes artísticas e estilos musicais: esse estilo é de esquerda, aquele é de direita. O axé é colaboracionista, o pagodinho é alienado, o pop-funk-fuck é false flag, o sertanejo é universitário.

Eu tenho minhas preocupações políticas, todos sabem, mas quem, por vocação ou fetiche, se preocupa com o governo, que se preocupe. Tem gente demais se preocupando, escrevendo, reclamando, elogiando, criticando. Mas exigir que cada um de nós, cada um de vocês, minuto a minuto, se preocupe e manifeste preocupação, daí já é demais.

Eu lá quero saber o que pensará Kéfera sobre o governo? Tenho medo de saber o que pensa Kéfera sobre qualquer coisa.

Que o Thiaguinho seja apenas Thiaguinho, bem no cantinho dele, que não sei onde é.

Que Maiara e Maraísa e Simone e Simaria se contentem em servir de trava-língua, mas não me venham com opiniões sobre o juiz de garantias.

Ainda que o país sofra turbulências políticas e institucionais, precisamos de gente, talvez de muita gente, que não se importe e seja capaz de beber uma cerveja e continuar a conversa. Precisamos não apenas dos engajados e irreverentes, mas também dos alienados e indiferentes. Carecemos de quem não faça ideia de como resolver os problemas da nação e até se orgulhe um pouquinho disso.

Se o padeiro se revoltar, se o entregador de gás se rebelar, se o cantor silenciar, se o futebol paralisar, se o carnaval acabar – o que será do Brasil? Precisamos sair à rua e encontrar quem não dê a mínima, quem não tenha opiniões, quem não conheça os onze do STF e continue a viver como se nada.

Como o Clarke Gable, em ...E o vento levou.

Como os heroicos frequentadores duma certa mercearia, da cidade de São João Batista da Glória, em Minas Gerais.

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