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Arte em Curitiba: Ópera de Arame
| Foto: Alexandre Mazzo/ Gazeta do Povo

Jaime Lerner*

É sustentada por muitos estudiosos que, numa determinada passagem muito remota, a mente humana alçou voo para o imaginário, inicialmente construindo universos anímicos, mitos, simbologias, narrativas e lendas; e no decorrer dos milênios, gerando ambientes para toda gama de manifestações artísticas e de criatividade.

Hoje, assistimos a ciência e a tecnologia cada vez mais entrelaçadas com a arte e a cultura em quase todos os campos da atividade humana: nas invenções de ponta, no ecossistema da comunicação e entretenimento, no nosso cotidiano.

O sonho e a imaginação são o começo de tudo: para fazer acontecer é preciso esboçar, pintar, desenhar, escrever, projetar – Leonardo da Vinci que o diga!

Os artistas e os criadores, com as suas aguçadas sensibilidades, têm o dom nato de imaginar, compor e interpretar ideias e conceitos através de todas as artes; antecipam tendências, sempre à frente do seu tempo, como verdadeiras antenas da sociedade; tradutores do "intangível" desde os tempos imemoriais e presenças indispensáveis na civilização humana.

Como urbanista e prefeito, sempre abracei o ‘intangível’ como instrumento de planejamento tão imprescindível como os temas usuais na ciência das cidades, como o uso do solo, zoneamento, mobilidade, meio ambiente, redes de infraestrutura, redes de promoção social. Não pode ser item secundário na gestão pública; a velha história "se sobrar orçamento, investimos em cultura", nem pensar.

Digo sempre que uma cidade é como o corpo humano: buscamos ter nossas funções fisiológicas e biológicas sempre em bom estado, mas isso não basta; nos alimentamos também do simbólico, da arte, cultura, memória, espiritualidade.

Pensar a cidade com primazia aos espaços públicos interativos e estimuladores da criatividade; cidade que reconhece que a arte é transformadora, e que de braços dados à educação, são motores de inovação e solidariedade.

Temos em Curitiba uma invejável rede de equipamentos culturais públicos e privados – Teatro Guaíra, Museu Oscar Niemeyer, Ópera do Arame, Teatro Paiol, Memorial da Cidade, entre muitos outros – mais que construções, são disseminadores de arte, cultura e conhecimento com sua miríade de shows, exibições, exposições, mostras, cursos, oficinas e de grandes eventos, como o Festival de Teatro e a Oficina de Música.

Junto com essa rede temos a valorização da memória local, do patrimônio histórico, das referências urbanas, dos caminhos antigos, dos parques étnicos e a nossa Rua da Flores como palco democrático por excelência para toda manifestação artística, cultural e cidadã.

"Canta a sua aldeia e serás universal", escreveu Tolstói. Sim, todo esse caldo alicerça a nossa identidade e, importante, cria pontes e linguagens multidimensionais de diálogo com outras identidades, catalisando o entendimento e coexistência entre grupos, raças e povos.

Nestes obscuros momentos atuais, acompanho com apreensão como a produção cultural e todas atividades paralelas estão sendo afetadas, mas é questão de tempo: estou seguro que a verdadeira criatividade está em permanente fermentação, pronta para descortinar novos olhares e novas visões de mundo...

Aos artistas, sonhadores e trupes culturais desta cidade: AGUARDAMOS ANSIOSAMENTE AS PRÓXIMAS ATRAÇÕES!

*Jaime Lerner é arquiteto, urbanista e cinéfilo com saudades do cinema de rua.

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