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A democracia é uma maravilha. Pelo menos até o eleitor abrir a boca, apertar o botão da urna e fazer o pilili para outro candidato, e não o nosso. Nesse momento, o cidadão, a pessoa, o povo, antes celebrado como protagonista da soberania popular, pode se transformar instantaneamente em um completo idiota.
Foi o que aconteceu na noite de domingo, quando os resultados do primeiro turno deixaram Lula atrás de Flávio Bolsonaro e uma parte da militância lulopetista correu para as redes sociais para chorar as pitangas e declarar que os eleitores de Flávio eram “burros”. A palavra ficou entre os termos mais postados naquele momento, e não faltaram diagnósticos sobre a inteligência alheia. Claro que quem votou em Flávio não é "burro": apenas fez sua escolha.
Do outro lado, os eleitores de Flávio voltaram suas críticas ao Nordeste, com destaque para a Bahia, onde o petismo vai de vento em popa, território sempre pródigo em votos para Lula e seus companheiros. De fato, em 2022, os votos do Nordeste tiveram peso enorme a favor de Lula; nesta eleição, também, mas ainda assim não foram suficientes para deixar Lula em primeiro lugar.
Já falei aqui – e não apenas uma vez – sobre a questão de que a liberdade de expressão existe não para proteger as falas bonitinhas com as quais concordamos e que assinamos embaixo, mas, principalmente, aquelas falas e pensamentos que nos contrariam, nos incomodam ou mesmo nos ofendem. Algo parecido acontece com a democracia: a voz da maioria – seja ela igual à sua ou não – é que deve prevalecer.
O eleitor não é propriedade de partido (embora algumas legendas se achem donas de seus correligionários), não deve obediência a cacique, a militantes de rede social ou aos donos da verdade de plantão
Claro que ficamos possessos quando nosso candidato vai mal. Se o escolhemos, é porque achamos ser ele a melhor opção para o país, o estado ou o município. Ao mesmo tempo, consideramos outros candidatos piores do que aquele que escolhemos. Mas o que vale é a maioria, e nem sempre fazemos parte dela. A direita teve de engolir quatro anos de Lula desde 2022. Se Flávio confirmar a vitória no segundo turno, será a esquerda que terá de engolir – caladinha.
O eleitor não precisa da autorização de ninguém para escolher seu candidato, nem explicar sua escolha. Uma pessoa pode votar por convicção, por rejeição, porque acredita que um candidato representa melhor os valores que considera importantes. Também pode votar por interesse econômico, por medo de perder um programa social – e aqui você pode torcer o nariz, mas pense: se uma mãe achar realmente que perderá o sustento dos filhos caso deixe de votar em um candidato, em quem ela vai votar? A pobreza é a pior forma de manter as pessoas com medo de votar diferente do que sempre fizeram.
Uma pessoa pode votar por uma razão que seus adversários julguem absurda. Até por uma mentira – e, na era das fake news, isso é mais comum do que você pensa. Mas a escolha continua sendo dela. Isso não significa que todas as decisões sejam boas, que todos os candidatos sejam iguais (longe disso!) ou que não devamos discutir as consequências de cada voto. Significa apenas que ninguém recebe – e jamais pode ter – o direito de escolher no lugar do outro porque se considera mais inteligente, mais informado ou moralmente superior.
E aqui chegamos ao ponto: discordar do voto alheio é um direito; desqualificar o eleitor por exercê-lo é outra história. Posso considerar péssima a escolha de alguém e, nesse caso, argumentar contra ela, demonstrar por que acredito que determinado candidato representa um risco ou que suas propostas são equivocadas. Quem está convencido de que o eleitor do adversário foi enganado tem uma solução bastante simples: tentar convencê-lo. Apresente argumentos, exponha contradições, discuta propostas, mostre consequências. Faz parte do bom debate político, aquele em que discutimos ideias com convicção, mas com respeito e humanidade.
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A democracia não promete que o eleitor fará sempre a melhor escolha. Promete que ele poderá escolher. É por isso que devemos ficar tão atentos às interferências indevidas nas eleições, como as do Judiciário, que vira e mexe tenta meter a colher no processo eleitoral. Nada garante que o resultado de uma eleição será aquele que desejamos, nem que o vencedor será o candidato que julgamos mais preparado. Mas, se não fosse assim, nem poderíamos chamar isso de eleição ou democracia.
É claro que existem aqueles que se consideram superiores, seres supremos, iluminados a quem cabe “conduzir a história”, grupos convencidos de que a própria visão de mundo deveria prevalecer sobre a vontade dos demais. Nem preciso dizer que a história já mostrou o que acontece quando esses grupos chegam ao poder. Ninguém, nenhuma instituição, pode ter o direito de decidir quem merece participar da vida política ou qual é o “voto certo”.
O eleitor não é propriedade de partido (embora algumas legendas se achem donas de seus correligionários), não deve obediência a cacique, a militantes de rede social ou aos donos da verdade de plantão. E nem deveria ter medo de votar em quem quiser – e oxalá, um dia, ninguém precise votar movido pelo medo.

Jocelaine Santos é jornalista. Foi repórter na Rádio CBN Ponta Grossa (PR), assessora de imprensa e professora universitária. Hoje é editora de Opinião na Gazeta do Povo. Escreve semanalmente sobre liberdade de expressão e democracia. **Os textos da colunista não representam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



