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Jocelaine Santos

Jocelaine Santos

Liberdade de expressão é condição necessária para a democracia

Uma fábula para eleições

Até quando continuaremos a ser o povo que troca voto por migalhas?

Há governantes e grupos políticos que passam anos – ou décadas – no poder só nos depenando. Arrebatam nosso dinheiro por via de impostos, limitam nossos direitos mais fundamentais, atacam nossos valores, nossas crenças. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Ah, eleições! Essa festa descarada da pseudodemocracia que nos assombra a cada dia! Já fez sua listinha de votos? Preparado para ouvir o "pilili" no domingo e depois torcer para que seu candidato eleito não seja cassado pela Justiça Eleitoral? Brincadeira. Ou não. Quem sabe?

Li esses dias uma anedota que cai como uma luva, não só para esta, mas para todas as eleições. É a fábula da galinha depenada de Stalin, sim, aquele bigodudo comunista russo, inspiração para muitos barbudos comunistas mundo afora.

Conta-se que, certa vez, o camarada ditador mandou trazer uma galinha para uma sala onde estavam alguns de seus homens. Antes disso, a pobre galinha passava seus dias pacificamente cumprindo seus afazeres de galinha: botava regularmente um ovo por dia, ovo esse que era roubado com a mesma regularidade pelos serviçais de Stalin.

Nas poucas vezes em que conseguiu botar seus ovos escondida e criar uns pintainhos, teve seus filhotes levados para longe – a galinha obviamente não sabia, mas os franguinhos viraram canja. Esta galinha, enfim, foi levada a Stalin, presa numa gaiola minúscula, onde mal podia se mover. Em volta dela, dezenas de bigodudos de uniforme militar a observavam.

Stalin, com cara de satisfação, explica a lição aos seus camaradas: a galinha é como o povo. 'Não importa quanto sofrimento lhe impusermos, se lhes dermos de vez em quando umas migalhas, eles sempre nos seguirão fielmente', teria dito

Stalin então começou a arrancar, uma a uma, as penas da pobre galinácea. A pobre se debatia, tentava escapar, batia as asas, cacarejava. Não adiantava nada. Stalin continuava sadicamente a operação, deixando a galinha sem penas, coberta de sangue e feridas, assustada e, provavelmente, profundamente arrependida de ter nascido galinha.

Depois, calmamente, Stalin soltou a galinha no chão e, praticamente ao mesmo tempo, jogou perto dela alguns grãos de milho. O animal, em vez de fugir rapidamente de seu algoz e buscar salvar-se, correu para os grãozinhos e começou a comer. Stalin andou alguns passos e jogou mais milho. A galinha foi atrás. Mais alguns passos, mais milho. E lá estava ela seguindo alegremente o homem que, poucos minutos antes, havia arrancado suas penas e lhe causado um sofrimento atroz.

Stalin, com cara de satisfação, explica a lição aos seus camaradas: a galinha é como o povo. “Não importa quanto sofrimento lhe impusermos, se lhes dermos de vez em quando umas migalhas, eles sempre nos seguirão fielmente”, teria dito. Facilmente podemos trocar a sala de Moscou por um palanque e o milho por promessas vazias e benesses (e aqui vale tudo, de picanha a Mounjaro). Já a galinha, como bem disse Stalin, somos nós, o povo.

Há governantes e grupos políticos que passam anos – ou décadas – no poder só nos depenando. Arrebatam nosso dinheiro por via de impostos, limitam nossos direitos mais fundamentais, atacam nossos valores, nossas crenças, tentam impor a vontade deles sobre a nossa, fazem chacota da nossa religião.

Não fazem nada para o bem do país e só sabem culpar os antecessores pelos problemas que eles nem tentam resolver. Passam anos nos tratando como animais, burros que só servem para trabalhar, galinhas tontas que se contentam com migalhas, lançadas, por uma coincidência incrível, sempre só na época das eleições.

Porque apenas nas eleições é que eles decidem distribuir algumas benesses. Vales, bolsas, descontos, empréstimos. Derrubam impostos que eles mesmos criaram, se tornam devotos da religião que abominam. Mentem e mentem sem qualquer pudor. Apresentam-se como a única esperança, a salvação para todos os problemas, o caminho certeiro para um país desenvolvido, rico, imbatível. Um país de paz e amor.

E, por mais absurdo que seja, essa receita ainda dá certo. Assim como a galinha da fábula, de memória curta demais para lembrar quem é que a depena, muitas pessoas só conseguem enxergar o milho diante de si. Mas bastaria parar um pouquinho e, antes de correr atrás de migalhas, olhar para as próprias penas para perceber o mau negócio que é continuar seguindo na direção do milho.

Graças a Deus não somos um país de galinhas – ou somos? Domingo, após as eleições, saberemos.

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