
Ouça este conteúdo
Você já deve ter percebido o quanto se fala em liberdade, diversidade e pluralidade hoje e, ao mesmo tempo, o quão difícil se tornou discutir certos assuntos. Criticar ou questionar determinadas ideias ou pessoas transformou-se quase em um ato de risco – por vezes tratado como se fosse um desvio grave. Vivemos, ao que tudo indica, em meio à criticofobia.
Essa sensibilidade exacerbada é especialmente visível entre aqueles que ocupam posições de poder, como políticos, autoridades e figuras públicas. Pessoas que, pela própria natureza de suas funções, deveriam estar habituadas ao escrutínio da opinião pública passaram a demonstrar uma surpreendente fragilidade diante de críticas ou questionamentos – e, quando dispõem de instrumentos para isso, não hesitam em tratar discordâncias como ofensas pessoais. Nada mais distante do espírito democrático.
Hoje, críticas a certas pautas ou ideias são rapidamente rotuladas como preconceito ou até racismo. Não importa o conteúdo, o contexto ou a intenção: o simples ato de questionar já basta para a condenação
Ainda que pareça elementar, convém lembrar: a crítica, mesmo quando incisiva, dura ou até deselegante, é elemento essencial da vida pública. A liberdade de expressão e de pensamento, assegurada no artigo 5º da Constituição, é cláusula pétrea. A própria jurisprudência consolidada reconhece que figuras públicas estão sujeitas a um grau mais intenso de crítica, justamente porque exercem funções de interesse coletivo.
Mesmo assim, cresce a tendência de determinadas autoridades se colocarem acima de qualquer questionamento, como se integrassem uma categoria imune ao debate. Fenômeno semelhante ocorre – talvez com ainda mais intensidade – no terreno dos chamados grupos identitários. Hoje, críticas a certas pautas ou ideias são rapidamente rotuladas como preconceito ou até racismo. Não importa o conteúdo, o contexto ou a intenção: o simples ato de questionar já basta para a condenação.
É preciso afirmar o óbvio com clareza: criticar não é discriminar. Discordar não é odiar. Quando todo questionamento é convertido em agressão, cria-se um ambiente em que o debate se torna inviável e em que a busca pela verdade cede lugar à necessidade de não desagradar.
Mulheres, negros, indígenas, pessoas LGBT – como quaisquer outros cidadãos – estão naturalmente inseridos no debate público quando suas pautas extrapolam a esfera privada e produzem efeitos na vida coletiva. Blindar determinados temas sob o pretexto de proteção equivale, na prática, a interditar o diálogo e a reduzir a sociedade a uma condição de imaturidade permanente.
Uma sociedade livre não comporta temas proibidos. Questões consideradas pessoais frequentemente possuem impactos sociais, jurídicos e econômicos e, por isso, devem poder ser discutidas. Impedir esse debate é, em última análise, impedir que a sociedade compreenda a si mesma. Da mesma forma, não pode haver indivíduos ou grupos tão privilegiados a ponto de se tornarem impermeáveis à crítica. Em uma república, ninguém – absolutamente ninguém – deve estar acima do questionamento.
Uma sociedade que não consegue debater certos temas, que não tolera críticas a determinadas autoridades e que passa a encarar a liberdade de expressão como ameaça não se torna mais civilizada – torna-se mais frágil. Sem confronto de ideias, não há avanço. Sem discordância, não há aprendizado. Sem crítica, resta apenas a estagnação, ainda que disfarçada sob a aparência confortável de harmonia.








