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Jocelaine Santos

Jocelaine Santos

Liberdade de expressão é condição necessária para a democracia

Falsidade

Os alvos do ódio da turma do amor

Manifestação Avenida Paulista Acorda Brasil Flávio Bolsonaro
Manifestantes se reúnem na Avenida Paulista durante ato do “Acorda Brasil”, com críticas ao STF e defesa da anistia aos condenados de 8 de janeiro (Foto: EFE/ Isaac Fontana)

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Há tempos temos alertado que a liberdade de expressão vai de mal a pior no Brasil (e no mundo também). Parece que apenas certos posicionamentos são “permitidos” – tudo o mais é tratado como escárnio, ódio ou desprezo, quando não criminalizado. Nessa lógica inovadora de convivência democrática, a liberdade de expressão continua existindo – mas em versão premium, reservada apenas para certas opiniões aprovadas previamente.

A regra, aparentemente simples, funciona mais ou menos assim: concorde comigo ou se torne um alvo do ódio e da vingança. É um modelo de debate público extremamente eficiente. Dispensa argumentos, elimina divergências e ainda produz aquela deliciosa sensação moral de estar sempre do lado certo da história. Quem ousa discordar, por sua vez, ganha acesso imediato a uma experiência imersiva de linchamento digital: insultos, ameaças, tentativas de silenciamento e, claro, a clássica recomendação de que “volte para o lugar de onde veio”.

Com frequência cada vez maior, o debate público brasileiro parece operar sob um princípio bastante simples: algumas pessoas têm o direito de opinar; outras têm o dever de concordar

Foi exatamente isso que aconteceu com uma família venezuelana que vive no Brasil. O crime cometido por eles: participar do “Acorda Brasil”, organizado por Nikolas Ferreira. Em resposta, a família afirma ter recebido uma chuva de mensagens ofensivas e insultos xenofóbicos – a maioria vinda da turma do “amor que venceu o ódio”, gente que gosta de se vangloriar de denunciar preconceitos e defender causas humanitárias.

Esse fenômeno não é isolado. Com frequência cada vez maior, o debate público brasileiro parece operar sob um princípio bastante simples: algumas pessoas têm o direito de opinar; outras têm o dever de concordar. Se insistirem em divergir, passam a ser tratadas como inimigas públicas, indignas de voz e, se possível, também de dignidade. Isso nunca foi liberdade de expressão.

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O mais curioso é que esse comportamento costuma vir embalado em discursos apaixonados sobre democracia, tolerância e diversidade. Uma diversidade bastante seletiva, é verdade, limitada a ideias que não perturbem o consenso do grupo. No caso dos venezuelanos, xingados simplesmente por estarem numa mobilização da direita, a seletividade é gritante. A xenofobia não é defensável sob nenhum aspecto e já levou o mundo a atrocidades sem tamanho, mas ainda há quem insista que ela só deva ser condenada quando parte do “lado errado”. Nessa lógica distorcida, tudo bem chamar de ratos, insetos ou burros, ou pregar a deportação em massa de venezuelanos que participam de um ato político da direita.

Durante anos, repetiu-se que o Brasil deveria ser um país aberto, plural e acolhedor. Um país onde todos pudessem se manifestar, participar do debate público e expressar suas convicções. Mas parece que havia um pequeno asterisco escondido no rodapé dessa promessa: pluralidade, sim – desde que seja uma pluralidade cuidadosamente homogênea. É essa a nossa realidade.

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