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Há coisas tão evidentes que chega a ser impossível acreditar que alguém possa discordar. Como o fato de que Nicolás Maduro era um ditador – e daquele tipo bem caricato, com direito a controle do Judiciário, do Parlamento, das eleições, da imprensa, que censura e prende críticos, que empurra o povo de seu país para a miséria enquanto se deleita com mordomias. Mas teve gente choramingando pela prisão do ditador. Como pode?
Maduro foi capturado pelos Estados Unidos numa operação que levantou muitos questionamentos relacionados ao direito internacional. Os EUA podem entrar em um país e simplesmente levar quem quer que seja? Haveria algum outro caminho para prender Maduro que não fosse o da força? Qual o real interesse de Trump em tirar o ditador do comando da Venezuela? O fim de Maduro vai, de fato, significar a libertação dos venezuelanos? Enfim, são muitas as questões que merecem ser pensadas com rigor – por favor, fujamos sempre das análises rasas e simplistas –, mas ao menos um ponto me parecia pacífico: a natureza ditatorial do governo Maduro.
Não há nenhum problema em questionar a ação dos Estados Unidos, mas querer fazer de Maduro um coitadinho alvo dos “imperialistas” é algo que não desce
Meio milhão de venezuelanos fugiu de seu país e veio para o Brasil para fugir da ditadura. Gente que viu a Venezuela sucumbir ao autoritarismo, à miséria, à perseguição política, que não via mais esperança de mudança. Gente que não podia protestar nem reclamar, acossada pelas milícias, gente que foi para a cadeia acusada de golpe de Estado e traição simplesmente por pedir melhores condições de vida.
Não esqueçamos que os próprios venezuelanos já haviam tentado dar fim ao regime de Maduro através do voto, mas quem disse que a vontade do povo tem algum valor dentro de uma ditadura? Fraudar eleição é a coisa mais fácil do mundo para quem é ditador e dispõe de um sistema eleitoral corrompido. Pelo voto, os venezuelanos jamais se livrariam de Maduro. Esta é a verdade.
Não há nenhum problema em questionar a ação dos Estados Unidos, mas querer fazer de Maduro um coitadinho alvo dos “imperialistas” é algo que não desce. Como pode haver gente – e não são poucos – disposta a defender um dos piores crápulas que existem em nome de ideologias empoeiradas? Essa defesa nasce da ignorância ou de uma escolha deliberada?
Porque muitos dos que relativizam os crimes do chavismo sabem exatamente o que aconteceu na Venezuela. Conhecem os números da fome, do êxodo, da inflação fora de controle, da repressão fartamente documentada por organismos internacionais. E, mesmo assim, preferem torcer os fatos, distorcê-los, moldá-los em um conto da carochinha, em que o tirano se torna vítima. Um ditador – seja qual for – não merece nenhuma lágrima quando é tirado do poder.




