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Centro de recepção de refugiados vazio em Zaporizhzhnya: local tem pouquíssimos moradores de Mariupol porque a Rússia não tem autorizado com frequência corredores humanitários
Centro de recepção de refugiados vazio em Zaporizhzhnya: local tem pouquíssimos moradores de Mariupol porque a Rússia não tem autorizado com frequência corredores humanitários| Foto: Luis Kawaguti

A notícia de que a cidade de Mariupol, um porto importante no sudeste da Ucrânia, está prestes a cair tem aparecido com frequência no noticiário nos últimos dias. A Rússia já clamou vitória diversas vezes e a Ucrânia vem afirmando que a cidade não caiu nas mãos de seus adversários. Mas até quando vai durar esse impasse?

As tropas russas controlam praticamente toda a cidade, exceto pela fábrica de aço de Azovstal, um complexo industrial de 11 quilômetros quadrados localizado próximo à região portuária da cidade.

O local foi transformado na principal base das forças ucranianas, pois foi construído para resistir a bombardeios e possui uma rede de túneis subterrâneos que somam cerca de 24 quilômetros. Se deslocando por eles sem serem descobertos, cerca de 2 mil combatentes ucranianos têm resistido a repetidas investidas russas. É também nesse complexo de túneis que estariam abrigados cerca de 2 mil civis - que seriam parentes dos combatentes.

Mariupol é um alvo militar de grande importância estratégica por dois motivos: sua conquista garantiria à Rússia um corredor terrestre ligando seu território à Crimeia (anexada por Moscou em 2014) e privaria a Ucrânia de um importante porto - por onde era escoada grande parte de produção de grãos e aço do país.

Na prática, a Rússia já atingiu esses objetivos. Isso porque controla as principais rodovias e ferrovias que passam pela cidade ligando a região com a Crimeia. O porto já estava com as atividades suspensas desde o início da guerra, em 24 de fevereiro. Estima-se que 140 navios estrangeiros e suas tripulações estejam hoje presos em portos ucranianos, porque a Rússia fez um bloqueio naval ao país no Mar Negro - que também está repleto de minas navais.

Não há possibilidade dos defensores de Azovstal romperem o cerco russo. Eles também têm poucas chances de trocar as fardas por roupas civis e escapar em meio à população civil. Até agora, o discurso dos ucranianos é lutar até o fim.

Moscou já ofereceu ao menos três vezes oportunidades para os combatentes ucranianos se renderem. Todas elas foram recusadas até agora. Kiev queria o estabelecimento de um corredor humanitário para que seus combatentes pudessem fugir sem ser presos, mas Moscou não concordou.

O leitor deve estar se questionando: por que os combatentes não se entregam de uma vez e esperam pelas próximas trocas de prisioneiros (que têm sido recorrentes)?

Isso não ocorreu até agora porque a Ucrânia quer manter o maior número de tropas russas pelo maior tempo possível engajadas na Batalha de Mariupol. Enquanto estão na região, essas tropas não podem ser deslocadas para reforçar as fileiras russas mais ao norte, na Batalha de Donbass, segundo afirmou a este colunista o general de divisão ucraniano Andrii Kozhemiakin, comandante do batalhão Mriya, de Kiev.

A Ucrânia quer ganhar o maior tempo possível para que suas tropas em Donbass recebam mais armamentos que estão sendo enviados pelos Estados Unidos e seus aliados europeus.

Por que a Rússia não faz um ataque final contra Azovstal?

Na quarta-feira (20), tropas russas bombardearam e lançaram sucessivos ataques contra o complexo industrial - mas não conseguiram tomá-lo. Os bombardeios são pouco efetivos nessa área específica. Acredita-se que o complexo poderia resistir até a um ataque nuclear. Por isso, o combate tem que ser feito homem a homem - o que eleva muito o número de baixas dos dois lados.

O presidente russo, Vladimir Putin, ordenou então que as tropas russas isolassem o complexo, para evitar a entrada de suprimentos e a fuga de combatentes. Não se sabe, porém, a quantidade de água e mantimentos que os ucranianos possuem, nem o número de feridos em suas fileiras.

Em paralelo, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, havia afirmado que não seria possível voltar a negociar com a Rússia caso os combatentes de Mariupol sejam massacrados. Ao oferecer sucessivos acordos de rendição, Putin também parece não querer ser culpado pelo eventual fracasso das negociações de paz.

Esse é o cenário militar e diplomático, mas como ficam os civis nessa conta?

Estive na sexta-feira (22) no centro de recepção de refugiados na cidade de Zaporizhzhnya, a 200 quilômetros de Azovstal, e encontrei pouquíssimos moradores da cidade de Mariupol.

Isso ocorre porque a Rússia não tem autorizado com frequência o estabelecimento de corredores humanitários para a cidade. A última vez que isso aconteceu foi na quinta-feira (21), mas apenas 60 pessoas conseguiram escapar em alguns ônibus providenciados pelas autoridades ucranianas.

Os corredores são necessários porque a frente de batalha no sudeste da Ucrânia não está consolidada. Bombardeios e enfrentamentos entre os exércitos russo e ucraniano têm sido reportados próximo a Zaporizhzhnya - em cidades como Huliaipilske, Kamyanske, Novodanylivka, Orikhiv, Pavlivka, Vremivka, Temyrivka, Preobrazhenka, Charivne, Uspenivka, Mala Tokmachka, Malynivka, Poltavka e Novoandriivka.

Ou seja, é muito perigoso para os cidadãos pegarem seus veículos e dirigirem até o lado ucraniano, pois podem ser atingidos no fogo cruzado. Mas algumas pessoas estão fazendo isso. Elas amarram bandeiras e panos brancos em seus veículos e se arriscam a passar por áreas onde não se sabe se há tropas ou não.

A família de Alex Besmrtni, de 14 anos, tentou a sorte e chegou ilesa. “Nós caímos em um posto de controle, mas não havia russos lá, e sim tropas do Daguestão (que combatem ao lado dos russos). Ficamos oito horas esperando até deixarem a gente passar. Mas antes de irmos, eles disseram: ‘Não adianta vocês irem para Zaporizhzhnya, porque lá vai ser a segunda Mariupol’”, disse.

O jovem era o único membro da família capaz de falar algumas palavras em inglês. Para entender uma parte de sua entrevista, tentei recorrer a um tradutor de ucraniano online no celular, mas me surpreendi com a reação dele: “Coloque tradução de inglês para o russo porque não sei falar muito bem o ucraniano”.

Eu havia notado que em toda a Ucrânia é normal ouvir as pessoas misturando palavras russas ao idioma ucraniano, mas antes de vir a Zaporizhzhnya não havia encontrado ucranianos que não sabem a língua oficial do país. E como trata-se de um adolescente, não se pode atribuir o fato ao período de dominação soviética.

Segundo o único censo realizado na Ucrânia no período pós-União Soviética, no começo dos anos 2000, cerca de 85% dos cidadãos falam ucraniano e pouco menos de 15% falam russo. Os falantes de russo estão exatamente no sudeste do país e na região de Donbass.

Na sexta-feira, Zelensky lançou mais um de seus vídeos e dessa vez fez um apelo aos moradores de Zaporizhzhnya e Kherson: não forneçam nenhuma informação para autoridades russas que aleguem estar fazendo um censo na região. Uma grande parte do oblast (estado) de Zaporizhzhnya já é controlado pelos russos. Kherson foi a primeira cidade ucraniana a ser conquistada.

“Não é só para fazer um censo (...). Não é para dar ajuda humanitária de qualquer tipo. É para falsificar um suposto referendo em sua terra”, disse Zelensky.

A Rússia diz que a invasão do leste e do sul da Ucrânia tem como objetivo libertar russos étnicos que estariam descontentes e sofrendo supostos abusos de direitos humanos pelo governo de Zelensky. O presidente ucraniano diz temer que Putin faça um referendo falso para dar mais subsídios a esse argumento.

A questão é extremamente complexa e não parece ser possível descartar totalmente nem a visão de Putin nem a de Zelensky. Mas tenho conversado com muitos ucranianos da região e a maioria diz que não está preocupada com política, mas sim com salvar seus familiares e ter uma vida digna após o conflito.

Por um lado, ainda há centenas de milhares de ucranianos em território recentemente ocupado pela Rússia - 100 mil só em Mariupol. Só que muitos já deixaram a região - mais de 300 mil refugiados eram de Mariupol.

Apesar de falarem mais russo que ucraniano, a maioria desses refugiados procurou abrigo em território ucraniano não ocupado, não na Rússia. Isso pode dar uma pista sobre o que está acontecendo.

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