A luta de Mide do fandango
| Foto: André Rodrigues/Gazeta do Povo / Arte: Felipe Lima

“É sobre o fandango, né?”, pergunta a costureira Cremildes Ferreira Bahr, 81 anos, antes de começar a entrevista. Dona Mide, como é chamada, sabe que há mais de um motivo para ser procurada pela imprensa. Ela é a última irmã viva do compositor Palminor Rodrigues Ferreira (1942-1978), o Lápis, autor de Vestido branco, um artista singular, a quem Curitiba ainda deve as merecidas honras. Ele era o 20.º de uma longa prole, que somava um agregado, fechando em 21 rebentos. Ela, a 17.ª.

Mide também se tornou uma fonte privilegiada sobre o maestro, compositor e arranjador parnanguara Waltel Branco, morto ano passado, a quem conheceu desde menina. Como se não bastasse o assédio dos repórteres, qualquer pesquisador que se aventure a contar a vida dos negros no Paraná vai bater na porta dessa digníssima senhora. Por décadas a casa de dona Maria Luíza Chichorro Ferreira, mãe de Mide, foi uma espécie de entreposto social e cultural no bairro das Mercês. De populares a ilustres – como os irmãos Requião, por exemplo – provaram do pão de casa e da hospitalidade de dona Mariquinha, apelido que a celebrizou. Mais? Junto com frei Zanini, Mide é uma das fundadoras da associação Dom Camilo, pioneira na reciclagem de lixo na capital paranaense. Há meio século. Os Rodrigues Ferreira valem um livro, um filme, depoimentos, mas Mide, a sobrevivente, prefere falar de fandango. Tem seus motivos.

De uns tempos para cá, a veterana anda assombrada com datas cada vez mais parrudas. Dia desses, deu-se conta de que contabiliza 51 anos de dedicação efetiva à salvaguarda fandangueira. E 32 da criação de seu grupo de fandango, o Meu Paraná, que entre as glórias consta ter feito uma turnê pela Europa nos anos 1990 e tido sede na Bélgica. Foi a tal da história certa por caminhos estranhos. Ainda que tenha vindo de um clã musical – é filha de um chorão, o carioca Abelardo Rodrigues Ferreira –, Mide não lembra de ter “batido fandango” na infância. Nem mesmo a mãe Mariquinha, antoninense castiça, a tinha apresentado a essa arte.

Mide não tem um acervo do quilate de José Ramos Tinhorão, nem a visibilidade de uma Inezita Barroso, para citar dois marcos na luta pela cultura popular. Mas tem seu quinhão nessa batalha

Tudo se deu, pasmem, quando estava perto dos 30 anos e por causa do Centro de Tradições Gaúchas 20 de Setembro, ainda na ativa no bairro do Pinheirinho, Zona Sul de Curitiba. É curioso. Ainda que conhecidos de gente de toda a cidade, os Rodrigues Ferreira tinham rotina mais do que modesta. Apenas nove dos 20 filhos chegaram à vida adulta. A maioria estudou pouco, o que não impediu que dali saísse um Lápis e um Juca – tido como baterista virtuoso. As meninas se empregavam em fábricas assim que adolesciam. Mide se tornou bordadeira, costureira e rato de sacristia. Como se dizia, era do trabalho para casa e da casa para a Igreja Católica, sua paixão juvenil.

Acontecia que uma de suas manas, Abelardina, a Didi, era soprano, o que fez crescer os olhos do musicista Aldo Ademar Assi. Por experiência, o mestre sabia da boa combinação de vozes entre parentes. Puxe a lista pela memória, é fato. Mide era contralto. Queria que integrassem um coral, que ensaiava no... CTG. Pelas contas de Cremildes, Aldo pelejou seis meses até conseguir seu aceite. Venceu. As duas filhas de dona Mariquinha passaram a cruzar a cidade para ensaiar – uma viagem das Mercês ao Pinheirinho – e acabaram sendo alfabetizadas em pilchas, vanerões, lendas dos Pampas, vocabulário de fronteira. Não demoraram a se perguntar por que diabos não havia nada parecido no Paraná.

A trama é longa, minuciosa – e a memória de Mide, um primor. Grosso modo, nesse vaivém de porquês um dia viajaram todos para a Praia de Leste, em companhia do pesquisador Inamy Custódio Pinto – seu amigo de uma encarnação – para assistir ao fandango. Gamou. Não teve mais parada. Da experiência nasceu a Associação Tradicionalista Gralha Azul, dissolvida em 1982, e o grupo de fandango Meu Paraná, criado em 1987. Não há personalidade do fandango que não tenha tido parte com Mide. Foi próxima da folclorista Roselis Roderjan Vellozo; é fã confessa do militante cultural Aurélio Domingues, que trabalha no Litoral; acompanha com atenção a atuação da pesquisadora e produtora Lia Marchi, assim como as entranças do Grupo Fato, de Ulisses Galetto, na leitura pop do fandango. A cada morte de um mestre fandangueiro, sofre como se fosse a perda de um parente. E sofre também por outros motivos.

De forma indireta, o fandango foi a escola de Mide

“O que tenho de dizer, digo”, avisa a militante. A primeira-dama do fandango não esconde suas diferenças com a turma que, como ela, batalha para que esse misto de tudo que é bom deixe de visitar uma amostra grátis da cultura paranaense. Já se estranharam, mas também se abraçam. As práticas que repudia são mais ou menos conhecidas. Quando alguma instituição pública ou privada quer mostrar seu apreço pela arte popular, chama os fandangueiros no Litoral ou o grupo Meu Paraná... para se apresentar de graça, em nome das melhores intenções. A esse respeito, Mide tem uma metralhadora cheia de mágoas. E não se furta em dizer que a discriminação – inclusive financeira – se agrava em se tratando de ser ela mulher, negra “e gorda”, como gosta de frisar.

As crônicas de desatinos relatados por Mide encheriam uma página. Há passagens engraçadas. Depois de muito quebra-pau com a Secretaria de Estado da Educação, em tempos idos, conseguiu erguer um palco, reunir rabequeiros, violeiros, dançarinos e coisa e tal. Saiu da percussão, sua tarefa no grupo, e tirou o secretário para dançar, no meio da turba. E foi ali, no bater dos tamancos, que lavou a roupa suja. Ganhou em resposta mais promessas, nem sempre cumpridas. “Uma vez botaram a gente para se apresentar nas escolas de Educação de Jovens e Adultos. O público era de quatro pessoas por sessão... Não dá, né”.

O Meu Paraná é formado por músicos profissionais, que deixam seus trabalhos para comparecer às apresentações. Mesmo assim, já chegou a lugares em que ninguém tinha sido avisado que haveria fandango. Bateram em retirada. “Uma professora me chamou num canto, certa vez, e me disse que eu tinha sofrido uma ‘pegadinha’”, conta. Mide caiu no choro, para em seguida partir para o desaforo. Pelo que se sabe, sempre com elegância. Aprendeu com dona Mariquinha. Ao saber que as filhas ficavam sozinhas no pátio da escola, por serem negras, ensinou-as a responder com dignidade. Levou para a vida. “Mas o tempo está passando.”

Quando alguma instituição pública ou privada quer mostrar seu apreço pela arte popular, chama os fandangueiros para se apresentar... de graça, só "em nome das melhores intenções"

Aos 81 anos, Mide ainda trabalha – tem uma confecção, mas prefere se apresentar como costureira. As apresentações do Meu Paraná são raras – a última foi no Memorial de Curitiba, a convite do prefeito Rafael Greca. Além dos músicos, o grupo é familiar. Inclui o marido Werner Bahr, tradutor do alemão e também ligado à produção cultural; a filha única Verônica Calazans, professora da UTFPR e estudiosa da área de Filosofia; a neta; o genro Alex; e quem mais. Frisa que sua pequena família inclui Alexandre Carlos, o Grafite, filho do Lápis, a quem criou e “manda beijos e abraços”. E que se pela de medo de morrer sem ver realizado o seu sonho mais bonito – a criação da Casa do Fandango. “Por enquanto, a casa é aqui, na minha casa”, brinca.

O projeto dá piruetas em suas gavetas. Foi e voltou, nunca morreu. “Eu, desistir?”, responde, fazendo pouco, com a voz firme e bonita que em 1968 encantou o maestro Aldo Ademar Assi. Mide não tem um acervo do quilate de José Ramos Tinhorão, nem a visibilidade de uma Inezita Barroso, para citar dois marcos na luta pela cultura popular. Mas tem seu quinhão nessa batalha. Não diz explicitamente, mas de forma indireta o fandango foi a sua escola. A mãe, conta, sabia que os filhos ficariam pouco nos colégios, por isso exortava a que encontrassem outros lugares onde aprender. Olhando para trás, entendeu o que ela queria dizer. Sua guerra não é um mimo – é um conhecimento. Que não lhe venham pedir silêncio.

Em tempo. A pergunta que não quer calar é por que a família Rodrigues Ferreira adotava nomes tão, digamos, exóticos. “Meu pai não gostava dessa coisa de chamar ‘João’ e vir um monte de gente”, conta Mide, com graça. Havia registros mais convencionais, como Marlene, Abigail, Nilza e Raquel, ou Maria Francisca e José Maria, o Juca. Mas a regra era inovar, o que favorecia os apelidos. A Umbelina virou Bila; a Clidorema, Lilita; o Ladislau, Lalo; a Abelardina, Didi; o Palminor, Lápis – dado pelo povo para identificar o rapaz fino, magro e alto. Tinha também a Oscarina e a Unízia. E Cremildes, Mide para facilitar a prosa. Grande família.

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