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Gustavo Caboco é um multiartista.
| Foto: Fotos: Divulgação | Arte: Maryane Vioto Silva

Quando perguntam ao multiartista Gustavo Caboco, 32 anos, “de onde ele é?”, a resposta não poderia ser mais precisa: “Sou de Curitiba, Roraima”, declara, sem se importar com os 4.765,8 quilômetros que separam Boa Vista e a capital paranaense. Curitiba é, de fato, sua paróquia. Aqui nasceu, criou-se e se formou – mas foi num intervalo, passado no Norte do país, que entendeu não pertencer a um único lugar.

PR e RR viraram vizinhos quando Gustavo tinha 10 para 11 anos e acompanhou a mãe, Lucilene, à aldeia Canauanim, na Serra da Lua, de onde ela tinha saído três décadas antes, sem nunca mais retornar. “Menino de tudo”, como se dizia, viu de perto a tucumã e a buriti, fruto e árvore dos quais Lucilene falava com saudade. Um Gustavo admirado com o que via fez anotações, vídeos e fotografias sobre a terra dos seus ancestrais. Sem que soubesse, aquele seria a primeira pesquisa histórica e estética desse que é hoje um dos expoentes da arte indígena no Brasil, elenco do qual fazem parte Jaider Esbell – morto precocemente, em novembro último –, Denilson Baniwa, Arissana Pataxó, Edgar Kanaykó, Daiara Tukano, Sueli Maxacali e Uyara.

Ainda que sua carreira seja breve, Gustavo Caboco tem no currículo exposições internacionais – uma delas no Haiti – e participações em certames como a Bienal de Curitiba e coletivas no Centro Cultural Banco do Brasil e Pinacoteca de São Paulo. Em dezembro passado, liderou um coletivo que expôs no Museu Paranaense. Mas seu maior feito está em figurar entre os artistas convidados para a 34ª Bienal de São Paulo, encerrada em dezembro. Ficou em lugar de destaque, na entrada, ao lado do “Meteorito Santa Luzia”, que saiu incólume do incêndio do Museu Nacional, em 2018. O objeto, epicentro da exposição, virou símbolo de “resistência da cultura” em tempos de desmanche e covardias a perder de vista.

O convite para a Bienal – um dos mais importantes eventos do gênero no mundo – veio a partir do livro de arte Baaraz Kawau (“campo após o fogo”), no qual o artista relaciona o desaparecimento de uma borduna wapichana – um dos 20 milhões de itens que viraram cinza no incêndio do Museu Nacional – à morte de seu tio-avô Casimiro Cadete Wapichana, militante na preservação da língua da família indígena em que nasceu. Foi das mãos do admirável Casimiro que Gustavo recebeu, em 2001, ano de sua primeira visita à maloca, uma apostila – para que aprendesse o idioma dos antepassados. Obedeceu.

Os curadores da bienal gostaram da história e perguntaram se havia mais a contar. Sim, desde que estivesse acompanhado. É assim que Caboco cria quase sempre, em grupo. Formou um coletivo com os primos Roseane Cadete, Wanderson Wapichana e Emanuel Wapichana. Juntos, transformaram um mezanino do pavilhão do Ibirapuera, em São Paulo, num cantinho de Canauanim. Quem olhava nos créditos das obras, estranhava o que estava escrito: “Gustavo Caboco, Curitiba, Roraima”.

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Gustavo foi criado num prédio do bairro Vila Isabel, na Zona Sul de Curitiba. Jogou bola na rua, flertou com a street art e conta ter aprendido muito com os grafites, uma das bases de seus desenhos de traço vigoroso e personalidade invulgar. “Da experiência da grafitagem, guardo o caráter público e a liberdade de comunicação, mas essa expressão não dava conta do incômodo que eu sentia. Tem a ver com uma dor ancestral, uma ferida aberta. Sabe a metáfora do formigueiro?”, pergunta, sobre o hábito de cutucar e descobrir um movimento desconhecido.

O “meu caboclinho”, carinhosamente repetido pela mãe, acabou por influenciar o personagem que adotou a partir da adolescência, sprays em punho: tornou-se o “Caboco”. Paralelo à fase de artista de rua, frequentou o Colégio Martinus e se formou em Publicidade e Propaganda na hoje Universidade Positivo. Fez estágios em agências, como era de se esperar, e em 2013 criou seu próprio negócio, o recém-encerrado estúdio “Pedro, Pastel & Besouro”, com o qual saldava as contas fazendo marcas e trabalhos gráficos em geral. Foi dali que saiu Baaraz Kawau, o livro que virou instalação na Bienal de São Paulo, e no qual Gustavo consolidou um pouco de tudo que forma sua trajetória.

A vida dele, afinal, se divide entre antes e depois de Canauanim. Foi lá que se entendeu indígena, com tudo o que o termo pode provocar. De admiração a repulsa, não lhe escapou à pele. “Quando eu levava para a escola minha identidade indígena, voltava com um desconforto forte. Cheguei a ser chamado de trombadinha. Cheguei a ser barrado antes de entrar no banco”, lembra. Em sua própria defesa, passou a dizer apenas a uns poucos amigos que era um wapichana e, mesmo assim, ganhou de troco, na hora de alguma briga, ser ele “um índio”.

O termo lhe é muito caro. Calmo, preciso e inteligente, o jovem miúdo com pinta e peso de guri poderia falar por horas sobre o sentido de “caiçara”, “bugre” e “caboclo”, palavras que no seu entender são mais um lugar do que uma identidade. “São termos racistas. Aquela história corriqueira ‘da avó pega no laço’ parece folclórica, mas é um apagamento. Estamos em um estado de coma colonial”.

Em tempo, o “caboco” que escolheu para carregar no nome é uma ode carinhosa à mãe, Lucilene, que assim o chamava, mas também um manifesto em nome de todos os caboclos, dos quais se furtou o direito de ser “indígena” ou branco. Gustavo fala do “não-lugar”. Refere-se a pessoas em contínuo deslocamento por lugares negados. É nesse movimento de recusa e de avanço que reside a força de seu trabalho.

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Caboco [e a bienal que carrega nas costas] não sabe ainda se deseja entrar para o “sistema” da arte. Confessa que se sente pouco à vontade para falar de produção contemporânea. “Nem sei se a entendo”, brinca. Estranha ser citado numa mesma conversa em que surgem nomes como Eliane Prolik, Francisco Faria ou Tony Camargo. Com perdão ao trocadilho, procura uma terceira via, pois se vê mais como um agregador de outros parentes – como chama os wapichana e outras etnias em geral –, reagindo a apagamento de indígenas e caboclos. O que faz em livros – numa linguagem gráfica que deixaria enlouquecido um de seus influenciadores, o escritor e cineasta Valêncio Xavier – lhe parece mais documentação do que obra de arte. A fronteira entre a estética visual e a escrita se rompe, com a mesma facilidade com que Caboco diz ter nascido no Paraná e em Roraima ao mesmo tempo.

Um dos exemplos de seu modus operandi é a pesquisa que fez, ao lado da prima Rosiane Cadete, em 2018, por ocasião dos 90 anos do lançamento de Macunaíma, de Mário de Andrade, livro que se tornou um clássico do modernismo brasileiro. Pois Macunaíma, o herói sem nenhum caráter, teria sido uma junção de vários mitos indígenas, expressos, em especial, na figura de Macunaimã (Makunáimî), um mito também wapichana, inspiração para 13 mil brasileiros que levam esse sobrenome. A seu ver, esse movimento é arte, claro, mas é sobretudo uma inserção por inúmeros espaços de conhecimento, como museus, universidades, centros de investigação nas mais diversas áreas.

Macunaimã é o álibi perfeito da primavera indígena. “É um deus, mas também um artista”, explica Caboco, sobre o ser que expande pelos mundos. Em coro com Aílton Krenak, Davi Kopinawa e Ângelo Kretan – para citar três pensadores – Caboco se vê como parte dos que propõe um lugar possível para todos, numa recusa ao que chamamos de processo civilizatório. Com seus parentes, sente o que chama de “urgência ecológica”. O termo é autoexplicativo. Nesse sentido, a bienal, que tanto projetou Gustavo Caboco, não é o ponto de chegada, mas um dos lugares possíveis entre Curitiba e Roraima.

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