Mika MC, aos 15 anos
| Foto: Albari Rosa/Gazeta do Povo / Arte: Felipe Lima

A curitibana Miriã Carla Caetano Claudionor é o que se costumava chamar de “uma menina prodígio”. Uma discípula do Robin. Aos 8 anos, subia ao púlpito da igreja batista que sua família frequentava – em Araucária, na região metropolitana, ou em bairros da capital – e conduzia o canto, para êxtase da assembleia. Um potentado. Aos 11 anos, depois de presenciar um arranca-rabo familiar, trancou-se no quarto, chorou de dar dó e disse “não” ao que julgava errado. Foi quando escreveu seu primeiro poema. “Bati o pé no chão e entendi que não queria aceitar certas coisas. Minha cabeça tava uma bagunça. Sequei minha lágrima. Com todo aquele ódio dentro de mim, peguei o caderno e fui escrever”, relembra.

Ocorreu que também aos 11 descobriu o hip hop e fez dessa arte a sua voz. A cultura das ruas lhe chegou pelo irmão Paulo, conhecido como o MC e tatuador Cubano, sujeito gente boa que abriu as porteiras para a caçula da casa. A primeira composição da pequena se chamava Empoderamento em ação. Caiu no gosto. Ganhou um clipe e fez a alegria da criança que, mesmo nascida num lar evangélico, cresceu embalada pela banda Racionais MCs. “Acredito em Deus, mas não sei se existe céu e inferno. Sou bem desconstruída.”

Não demorou para que Miriã, ainda em tranças e chiquinhas, se tornasse habituée das batalhas – espetáculos públicos de improviso de versos – e observadora dos slams, nos quais está pronta para debutar com suas poesias. De lá para cá, só avançou. Soma cinco músicas editadas, duas disponíveis no Spotify e no YouTube. Aos 14, estrelou no Teatro Novelas Curitibanas a peça Poesia – a bala cravada na arte, em parceria com seu coletivo, a Trupe Periferia, sob direção do ator e ativista paranaense Kenni Rogers. Na montagem, cantou e tocou ao violão composições próprias – somando-se aos que abrem fogo contra o machismo e o preconceito. De quebra, descobriu que, além da música, havia o palco.

A menina precoce, que se debruça sobre temas espinhosos com o afinco de uma líder de campo de refugiados, também se dedica a planos que os mais radicais chamariam de capitalismo selvagem

Na plateia, a pergunta parada no ar: “Quem é essa guria?”

Hoje aos 15 anos, Miriã, ou M-Carla, como tentaram batizá-la, mal se lembra do nome de registro; nem do primeiro apelido na esfera rap. “Não me representavam”, resume. Aos poucos, foi se tornando a Mika MC, identidade que até seus pais – o eletricista Carlos e a cuidadora de idosos Lenir, a Morena – passaram a respeitar, sob risco de levarem um sabão.

Mika sabe o que quer – e como quer ser chamada. Pouco mais do que uma criança, ao vê-la falar e se apresentar já chegaram a questionar se tinha passado dos 25 anos, se estava perto dos 30. Ela ri da confusão como se ouvisse uma fofoca de colegiais no banheiro da escola. O superfaturamento da idade não se deve à aparência – sua meninice é, afinal, explícita –, mas à coragem com que se pronuncia. “Acho que vivi bastante até aqui. O bastante para entender que não sou a única na fila. Que tem muita gente na mesma situação. Quero falar por muitos”, avisa.

A maturidade tem um preço – “de boa”, como ela gosta de repetir. Mika precisa fazer manobras para se relacionar com os colegas de sala. Eles naturalmente lhe parecem recém-saídos do jardim de infância. A situação faz com que migre para o fundão, escondida debaixo da vasta cabeleira em caracóis e, agora, atrás de grossas lentes para amenizar a miopia. Nos muitos colégios em que estudou – “meu pessoal muda muito de endereço, sabe” – poucos professores perceberam seu potencial. Tampouco fez questão de mostrá-lo. As habilidades em comunicação e expressão guarda para as batalhas, nas quais nunca passa despercebida. Em classe, é a estudante boa em Matemática, sem nota vermelha, mas um animal quieto, dado a observar.

Seus segredos de MC vazaram uma única vez, quando uma professora de História, Dayane, entendeu que a Miriã da chamada tinha algo mais – ela era a Mika MC, como ficou sabendo depois. “Pus toda a minha vida num trabalho sobre os deuses do Egito Antigo. Ela percebeu o empenho e me procurou para conversar.” Deu liga. A mestra a incentivou a continuar, o que pretende fazer com o malabarismo de contradições que teve de enfrentar desde cedo.

A propósito, não se apressem em rotulá-la. Mika MC, 15 anos, não é para amadores.

***

“Minha mãe é a cara do Brasil”, resume a adolescente, ao falar de Lenir/Morena, a quem recorre para explicar o que é e para onde vai. Sua reviravolta começa com essa mulher, que cumpriu um roteiro à risca. Casou-se cedo, teve filhos quando podia estar pulando amarelinhas, passou a vida fazendo contas na ponta do lápis, calculando quando faltava para o fim do mês. Pulou fogueiras. Para soprar as feridas, soltava a voz nas toadas sertanejas. Foi olhando para Lenir, a dona Morena – a quem descreve como a figura mais linda que conhece –, que entendeu que muita mulher sofre pra caramba, e que “não” queria esse filme para si mesma. Planejou a liberdade para a mãe – para si e para todas as demais.

Mika é o resumo de um outro país, uma outra juventude, produto de um tempo em que as contradições dançam coladinho

Um dos seus versos resume o que lhe corre nas veias: “pressa por um mundo com mais empatia, que amanhã eu não tenha que chorar por mais uma irmã morta na estatística. Justiça, será que existe? Desiste! Ninguém faz por você, resiste! Que tudo isso vai valer; e o que era tão puro vai correr, inesperado, deixe ir”.

O momento do estalo se deu quando escreveu a primeira poesia, uma espécie de manifesto libertário e feminista parido antes mesmo de lhe apontarem os seios. Esses e outros libelos são praticados sempre à mão, num caderno que guarda feito um diário. “Perdi um deles”, admite, cenho franzido. Calcula ter entre 20 e 40 letras de música prontas, fora os poemas, que nascem de chofre, da euforia ou da melancolia. É perfeccionista. Descarta o que não está bom. Quer aprender e sua escola são os manos e minas que encontra nas andanças hip hop. Mika gosta de bater ponto nas batalhas da Praça dos Menonitas, no Boqueirão, o “Menon”, como chamam, mas circula pelos eventos do Jardim Esmeralda, no Xaxim; Cachoeira, na divisa com Almirante Tamandaré; Tatuquara, Rua XV de São José dos Pinhais e no Conjunto Parigot de Souza, no Sítio Cercado.

“Perdi as contas das batalhas das quais participei. Ganhei umas 20. É da hora. A gente aprende um com o outro. A poesia abre mentes. Quando alguém fala bosta na batalha, a galera não vota a favor, não aplaude...”

O português de Mika é lustroso: não tolera bosta, expressão usada para quem tropeça no machismo que ainda ronda o rap. No mais, garante, é do partido do diálogo. Pode somar o gogó numa vaia, mas prefere a prosa. E estende essa regra às demais áreas da vida. A menina precoce, que se debruça sobre temas espinhosos com o afinco de uma líder de campo de refugiados, também se dedica a planos que os mais radicais chamariam de capitalismo selvagem.

Quer cursar Artes Cênicas e ser atriz. Aprender mais teclado, violão e bateria – instrumentos pelos quais transita. Planeja ser dona de seu próprio nariz. E logo. Aos 18 anos, avisa, terá um carro e uma casa para chamar de sua – e dará alforria aos pais. “Eu consigo”. Prova? Trabalhou fora – aos 12 anos – como vendedora de pôsteres na Rodoferroviária. Era uma daquelas promotoras que dizem “posso falar com você um pouquinho?”, quando a gente passa cheio de malas, em busca de um banheiro ou da saída. “Modéstia à parte, eu era boa no serviço.”

De mudança recente para São José dos Pinhais – onde costumava participar das famosas batalhas de versos da Rua XV –, ainda procura escola para estudar em 2020. Na sequência, vai se alistar no programa Adolescente Aprendiz. Namora fazer um curso de Gestão Empresarial – “quero expandir; quero empreender, quero ser empresária. O que eu puder fazer, vou fazer.”

“Escrevi mais uma folha, vi cair mais uma lágrima. Páginas rasgadas, faladas apenas no espelho (...). Não seremos o que disserem, tamo em período de evolução e revolução. São tempos obscuros, isso é claro. (...) Não terá mão estendida se não estender a sua. Puras palavras, dura realidade de que a sinceridade aqui não dura...”

Se dona Morena, a mãe, é a síntese de um certo Brasil, Mika é o resumo de um outro país, uma outra juventude, produto de um tempo em que as contradições dançam coladinho. Mika MC vem de um Brasil diferente – o Brasil que faz rimas em praça pública e que, aos 15, sabe onde quer estar, no país que deseja. Subestimar meninas mulheres como ela equivale a perder a batalha. Anotem aí.

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