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Nenhum poeta é uma ilha
| Foto: Ilustração: Felipe Lima Mayerle

A psicanalista Betty Milan disse, certa vez, que os escritores sofrem de uma enfermidade peculiar: o autoexílio. A percepção de Milan não é ciência, é chão de fábrica. Ela sacou a sina dos “deslocados” ao entrevistar dezenas de homens e mulheres da literatura, em tudo que é canto.

Mesmo entre os que não mudaram de cidade ou de país, encontrou os que fizeram do próprio endereço um esconderijo – a exemplo de Marguerite Yourcenar, uma das sumidades que perfilou.

O jornalista, poeta, tradutor e romancista londrinense Rodrigo Garcia Lopes ilustra a tese de Milan: é um refugiado com enxoval completo. Há cinco anos, mora num daqueles recantos ripongas do sul de Florianópolis (SC). A “servidão”, como se diz por lá, parece à salvo da sanha imobiliária que varre a ilha. Ou assim acredita Lopes, que aplicou sua herança na compra de uma casa de madeira, com mato atrás e um platô modesto – de onde pode ver o mar.

“Vivo como um manezinho”, brinca, ao se referir aos vizinhos de delicioso sotaque ilhéu, mas também ao cobertor curto reservado a quem atua na área da cultura.

“Parou tudo”, resume, ao listar traduções adiadas e editais abortados. Um caos, exceto na poesia. Eis o ponto. Rodrigo acaba de lançar O enigma das ondas, livro com 91 poemas, publicado pela Iluminuras, editora que não visitava desde o festejado Solarium, de 1994. Por ironia, a obra consolidada em tempos de isolamento severo é seu trabalho com mais vasos comunicantes. Não é pouco, em se tratando de um dos marcos da geração 80, referência em Sylvia Plath e Laura Riding, tradutor de Marcial, Rimbaud e Whitman, músico, editor, autor do romance policial O trovador, prova cabal de que domina a carpintaria da ficção.

Fora isso? Ponha-se na conta seus três anos como professor visitante na Universidade da Carolina do Norte, nos EUA, e a dificuldade crônica em ser aprovado em concursos para magistério superior. Num deles, corram, deram-lhe bomba na prova de inglês – um pacto sinistro que deixaria Hitchcock enrubescido. Noutro, na qual foi admitido, o ciúme acadêmico lhe consumiu os nervos. Quando completou 365 dias de tortura, pediu exoneração e bateu o pó das chinelas. Voltou para a servidão catarina, na solidão e anonimato que a cidade parece reservar, sem remorso, para a pá de gente talentosa que se autoexilou naquelas divisas.

“Floripa abriga uma Flip inteira, só com quem está aqui”, observa Lopes, em alusão à Festa Literária de Paraty. Mas esqueçam por ora. Importa saber que O enigma das ondas é filho admirável de uma Idade de Trevas. Os versos foram escritos no período que vai do impeachment da Dilma até a ducha fria do Corona. Que ninguém espere poesia dentro da bolha. Tudo o que acontece hoje diz respeito ao poeta – a chata da pandemia, as fake news, as “paixões tristes” que movem os alucinados, tal e qual a expressão de François Dubet. Um poema se chama “Delação Premiada” – humor fino. Há faíscas em direção à “poesia gourmet”. Tem participação especial de Freddy Krueger, Chucky e A Coisa no ácido poema “Selvageria”.

Aos 55 anos não denunciados, o polifônico Rodrigo Garcia Lopes viveu o bastante para saber que versos “sobre-o-que-está-aí” corriam o risco de não sobreviver a 2020. Teve de pegar no pesado. Uma de suas táticas foi recorrer a expressões latinas – lingua, pandemonium, loci, mentis – mágicas perfeitas para invocar a seiva dos fatos. Outra artimanha: praticou algumas difícílimas sestinas, composições que exigem do poeta unha roídas e cabelos arrancados.

Por fim, projetou no futuro episódios acorrentados ao agora, para testar se aguentavam o tranco. Deu certo. O resultado é que a pandemia vai passar, mas O enigma das ondas será sempre conjugado no presente. O poeta exilado – a salvo do sanatório – manda refrescos para a gente.

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