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José Fucs

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Cinismo

A comunidade judaica e o “shalom” eleitoreiro de Lula

Com Lula, Brasil se afastou dos Estados Unidos. O custo desse movimento deve ser elevado.
Quais as chances de Lula conseguir iludir mais uma vez integrantes da comunidade judaica brasileira, obtendo seu apoio nas eleições em 2026? (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

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Nada como uma campanha eleitoral para produzir guinadas radicais nas narrativas e nas posições do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Bastaram as eleições de 2026 aparecerem no radar para Lula mostrar interesse em “reconstruir pontes” com a comunidade judaica do Brasil, abaladas desde os atentados terroristas cometidos pelo Hamas em 7 outubro de 2023 e a reação israelense que se seguiu na Faixa de Gaza.

De repente, depois de passar mais de dois anos hostilizando Israel e o sionismo, muitas vezes de forma indistinguível do antissemitismo da pior espécie, Lula escalou a ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, para levantar a bandeira branca. Como se nada tivesse acontecido nesse período, ele lhe deu a missão de visitar instituições da comunidade judaica em São Paulo, na  véspera do Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, celebrado em 27 de janeiro, para “quebrar o gelo” e buscar uma reaproximação que parecia improvável até pouco tempo atrás.

Pelo jeito, Lula aposta na memória curta de integrantes da comunidade e na afinidade ideológica existente entre seu governo, o PT e os judeus “progressistas” do país – a mesma turma que criou o grupo “Judeus pela Democracia” para apoiá-lo em 2022 – para tentar iludir os incautos e conquistar votos preciosos no pleito deste ano, que promete ser acirrado.

Embora a comunidade judaica seja relativamente pequena no Brasil, com cerca de 120 mil pessoas, sua influência no debate público e na formação de opinião, em especial junto à classe média de grandes centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro, é considerável, e acaba contribuindo para moldar a percepção da sociedade nos grandes temas nacionais, inclusive nas eleições.

Bastaram as eleições de 2026 aparecerem no radar para Lula mostrar interesse em “reconstruir pontes” com a comunidade judaica do Brasil, abaladas desde os atentados terroristas cometidos pelo Hamas em 7 outubro de 2023 e a reação israelense que se seguiu na Faixa de Gaza

Além disso, como mostram as pesquisas, a posição anti-Israel de Lula na guerra em Gaza foi um dos principais fatores da queda de sua popularidade junto aos evangélicos, que representam cerca de 30% da população e podem fazer a diferença no resultado das eleições. Como se sabe, tudo ou quase tudo que Lula faz é influenciado por seus marqueteiros e por seu interesse eleitoral – e hoje, no caso da comunidade judaica, não é diferente.

Desta vez, porém, diante de todas as demonstrações de hostilidade a Israel e aos judeus que ele deu, com o endosso entusiasmado de seu assessor especial Celso Amorim, do PT, de suas lideranças e de seus satélites, parece improvável que algum judeu no país, independentemente de seus pendores ideológicos, aceite seu “shalom” eleitoreiro e releve suas falas e suas ações para apoiá-lo nas urnas. Tirando meia dúzia de judeus não-judeus existentes por aí – que abraçam sem constrangimento as ideias mais odiosas contra Israel e o povo judeu – é difícil imaginar que isso possa acontecer no momento.

Bloco monolítico

É certo que a comunidade judaica está longe de ser um bloco monolítico – e isso não é um privilégio do Brasil. Na Polônia pré-guerra, que abrigava uma das maiores comunidades judaicas do mundo, e mesmo no Gueto de Varsóvia durante a ocupação nazista, por exemplo, havia dezenas de partidos e organizações políticas diferentes. E, recentemente, em Nova York, que reúne o maior número de judeus fora de Israel, muitos integrantes da comunidade surpreendentemente apoiaram o islamista Zohran Mamdani – cujas posições anti-Israel, antissionistas e antijudaicas não são segredo para ninguém – na eleição para prefeito da cidade.

Mesmo durante a guerra em Gaza, quando a demonstração de unidade do povo judeu contra a barbárie se mostrava mais necessária, ocorreram várias manifestações promovidas pela esquerda israelense contra o primeiro-ministro Benjamim Netanyahu. Apesar de embaladas pela bandeira nobre do resgate dos reféns mantidos pelo Hamas, elas enfraqueciam a posição de Israel na luta contra o grupo e seus aliados e patrocinadores, que aproveitavam esses momentos de questionamentos internos para ampliar os ataques a Israel, como eles mesmos afirmaram, segundo o noticiário.

É certo também que, institucionalmente, é bom que a comunidade judaica mantenha um canal aberto com o presidente da República, seja ele quem for e pense ele o que pensar sobre Israel e os judeus. Quando um líder político como Lula busca uma aproximação, ninguém vai se negar a ouvi-lo, ainda que ele tenha se mostrado como seu maior algoz até ontem ou anteontem.

Agora, mesmo levando isso em conta, se alguém da comunidade ainda sair por aí fazendo o L nas eleições, depois de tudo que Lula e seus aliados à esquerda fizeram, é coisa que nem psicólogo nem  psiquiatra será capaz de resolver. Talvez, nem o próprio Marquês de Sade conseguisse explicar.

A lista de barbaridades cometidas por Lula desde os atentados do Hamas contra Israel é longa e enumerá-las todas aqui iria além dos objetivos desta coluna. Mas, para que não pairem dúvidas para quem não acompanhou o caso de perto ou foi acometido de súbita amnésia, convém rememorar pelo menos algumas delas e o efeito perverso que tiveram ao turbinar as hostilidades com os judeus brasileiros.

Desde o princípio, Lula e sua tropa de choque se colocaram abertamente ao lado do Hamas e contra Israel. Enquanto condenavam de forma tímida as atrocidades cometidas pelo grupo ou passavam pano para elas, apressaram-se em classificar a reação israelense como “genocídio”. Banalizaram o uso do termo ao comparar a reação de Israel aos atentados do Hamas, como se os causadores de uma guerra tenham tido a prerrogativa de decidir sobre a reação de suas alvos em qualquer outro conflito armado da história.

Suas falas sobre o tema reproduziam sem contestação as narrativas do Hamas e os dados pouco confiáveis divulgados pelo Ministério da Saúde de Gaza (controlado pelo grupo) sobre o número de mortos no território. Ignoravam totalmente o uso de escolas e hospitais como refúgio pelos terroristas e de civis como escudos humanos.

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Em fevereiro de 2024, durante a cúpula da União Africana realizada na Etiópia, Lula superou seu próprio retrospecto, ao comparar o Holocausto – termo que designa o extermínio sistemático de 6 milhões de judeus pelos nazistas – às ações militares de Israel em Gaza. “O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu quando Hitler resolveu matar os judeus”, disse Lula, gerando repúdio imediato do governo israelense e de entidades judaicas ao redor do mundo, inclusive no Brasil.

A afirmação – considerada como “excessiva” ou “falsa” pela maioria dos brasileiros, de acordo com as pesquisas – acabou gerando uma crise diplomática que culminou com a classificação de Lula como persona non grata em Israel até que ele se retratasse – o que nunca ocorreu. Gerou também a uma reprimenda pública ao embaixador do Brasil, em encontro realizado no Museu do Holocausto, em Jerusalém.

O episódio, que o governo brasileiro considerou uma “humilhação”,  levou o país a retirar o diplomata do posto e a não receber as credenciais do novo embaixador israelense em Brasília. Com isso, Israel decidiu cancelar a indicação e anunciar que não enviará novo ocupante para o cargo, o que junto com a iniciativa do Brasil, acabou por rebaixar o nível das relações diplomáticas entre os dois países para o pior nível da história.

As falas de Lula provocaram também uma ruptura profunda com entidades de representação da comunidade judaica, como a Conib (Confederação Israelita do Brasil), que o acusou de alimentar o antissemitismo e estimular o ódio aos judeus do país, ao comparar a reação de Israel com o Holocausto. Após as declarações de Lula, conforme a Conib, houve um aumento exponencial de ataques, pichações e discursos de ódio contra judeus brasileiros, o que qualquer um que acompanhe as redes sociais, ainda que à distância, pode constatar a olho nu até hoje.

Diante das críticas da entidade às suas falas odiosas, Lula dobrou a aposta em seu discurso antijudaico e anti-Israel: “É preciso parar com esse vitimismo. O que está acontecendo na Faixa de Gaza é um genocídio. E agora vem dizer que isso é antissemitismo?”, disparou o presidente, de cara lavada.

Notas protocolares

Numa das maiores operações de repatriação promovidas pelo país, Lula foi recepcionar pessoalmente na Base Aérea de Brasília centenas de brasileiros que estavam em Gaza e foram trazidos de volta num avião da FAB (Força Aérea Brasileira), a maioria dos quais formada por palestino-brasileiros. Ao mesmo tempo, ele demorou meses para receber os familiares de judeus brasileiros sequestrados pelo Hamas.

Quando as mortes de três judeus brasileiros nos atentados foram confirmadas, o governo emitiu apenas uma nota lacônica, que sequer mencionava que eles tinham sido “assassinados” pelos grupo. E, quando o corpo do refém brasileiro Michel Nisenbaum foi recuperado tempos depois, a reação do governo voltou a ser tímida, cumprindo apenas uma formalidade.

Nos fóruns internacionais, Lula colocou a diplomacia brasileira para atuar a serviço de sua visão ideológica contra Israel e pró-Hamas. A iniciativa mais emblemática foi o apoio formal do Brasil à denúncia apresentada pela África do Sul contra Israel na Corte Internacional de Justiça, em Haia. O objetivo da iniciativa foi o de classificar as ações israelenses em Gaza como um “genocídio”, em contraposição à definição adotada pela Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês), que era reconhecida pelo Brasil até julho de 2025, quando o país anunciou de forma repentina seu desligamento da organização.

O Brasil de Lula ainda criticou duramente a ONU por sua “impotência’ para resolver o conflito em Gaza e sugeriu que o Conselho de Segurança da instituição “não tem autoridade moral”, por não ter aprovado medidas contra a ofensiva israelense no território. O Brasil também atuou ativamente na ONU em defesa de um “cessar-fogo incondicional” da parte de Israel, que representaria uma garantia de sobrevivência do Hamas, e pelo reconhecimento dos diretos de a Palestina receber o tratamento de Estado-membro no órgão, apesar de a medida depender de aprovação do Conselho de Segurança para ser efetivada.

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Enquanto países desenvolvidos suspenderam suas doações à Agência da ONU para os Refugiados Palestinos (UNRWA, na sigla em inglês), que comprovadamente teve suas instalações usadas pelo Hamas e vários de seus integrantes envolvidos nos atentados a Israel, o Brasil não só manteve o seu apoio à entidade como ampliou seus aportes.

Lula ainda tentou levar o G-20 (grupo que reúne as 19 maiores economias mundiais mais a União Europeia e a União Africana) e o Brics (bloco orginalmente formado por Brasil, Rússia, Índia e China e hoje com 11 membros plenos) a aprovar condenações severas a Israel, mas não conseguiu a unanimidade necessária para incluir a questão nos comunicados conjuntos. Além da Índia, dois países árabes islâmicos que são membros do Brics, a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, atuaram para torpedear as intenções de Lula.

“Dupla lealdade”

Como se isso tudo não bastasse, a deputada e então presidente do PT, Gleisi Hoffmann, hoje ministra-chefe da Secretaria de Relações Institucionais do governo Lula, ainda saiu em defesa do jornalista Breno Altman, condenado num processo criminal movido pelo Ministério Público, a partir de uma representação feita pela Conib, por ter chamado os judeus de “ratos” e “porcos” – termos usados pela propaganda nazista encabeçada por Joseph Goebbels para se referir aos integrantes da comunidade judaica.

Na época, Gleisi chegou a acusar a Conib, principal instituição de representação dos judeus no país, de “agir como braço político do governo de extrema direita de Israel”. Disse também que a entidade “não representa a comunidade judaica brasileira, mas o governo de Israel”. Em resposta à afirmação de Gleisi, a Conib declarou que ela recorreu ao expediente antissemita clássico da “dupla lealdade”, segundo o qual os judeus não seriam leais aos países em que nasceram ou vivem, mas sim a uma agenda judaica global ou ao Estado de Israel.

De quebra, a primeira-dama, Janja da Silva, ainda exerceu uma militância simbólica em defesa dos palestinos e do Hamas que selou a imagem anti-Israel e antijudaica do governo Lula, ao usar um casaco com o tradicional bordado palestino tatreez na Assembleia-Geral da ONU, em setembro de 2025, e o keffiyeh em eventos do PT, sem jamais emitir uma única palavra em solidariedade às mulheres israelenses sequestradas pelo Hamas, que foram vítimas de estupros e mutilações cometidos por terroristas do grupo.

Nada, porém, é mais simbólico do apoio dado pelo governo Lula ao Eixo do Mal, do qual o Hamas é um representante ativo, do que a foto do vice-presidente Geraldo Alckmin, enviado especial à posse do novo presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, em julho de 2024, ao lado dos líderes terroristas do grupo e do Hezbollah. Ismail Haniyeh, inclusive, chefe do escritório político do Hamas, foi eliminado por Israel horas depois, numa explosão na casa em que estava hospedado, em Teerã.

Estas são apenas algumas das evidências da postura anti-Israel e antijudaica adotada por Lula, por Janja, pelo PT e por e seus aliados desde os atentados terroristas do Hamas e o início da guerra em Gaza. Há mais, muito mais, mas isso é o suficiente para mostrar que as chances de Lula conseguir iludir mais uma vez integrantes da comunidade judaica brasileira, obtendo seu apoio nas eleições em 2026, são quase nulas no momento. Só mesmo um sujeito oportunista e dissimulado como Lula pode imaginar que seja possível deixar tudo isso para trás nas urnas. Pior do que isso só mesmo um judeu brasileiro fazendo o L de novo.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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