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Desde que o ex-presidente Jair Bolsonaro escolheu seu filho 01 para representá-lo nas eleições presidenciais, em dezembro do ano passado, muita gente boa por aí acreditou que a decisão de privilegiar um nome do clã havia selado por antecipação a derrota da direita no pleito.
Um sentimento de frustração e pessimismo tomou conta de boa parte da oposição ao presidente Lula, em especial da turma da “isentolândia”. Para ela, outras opções que estavam no radar, como o governador paulista, Tarcísio de Freitas, teriam melhores condições de obter apoio das forças de centro-direita, de centro e até de centro-esquerda e de superar o petista, que busca seu quarto mandato, na disputa.
Ao contrário do ex-governador de Minas Romeu Zema, candidato do Novo ao Planalto, que afirmou que votaria até “num copo” para defenestrar o PT, muitos integrantes do grupo preferem contribuir para reeleger Lula, ainda que indiretamente, votando em branco ou nulo e posando de “reserva moral” da nação, do que apoiar Bolsonaro ou um integrante da família nas eleições.
Mesmo entre aliados do ex-presidente, a escolha de Flávio pareceu representar, ao menos num primeiro momento, uma espécie de anticlímax, diante das perspectivas concretas que se apresentavam, de um candidato de direita ou de centro-direita vencer o pleito, em meio a tudo isso que está aí – o escândalo do Banco Master; as fraudes cometidas contra os aposentados do INSS; a escalada autoritária do STF (Supremo Tribunal Federal), em parceria nada discreta com o governo Lula; e os juros estratosféricos que jogam as pessoas e as empresas no vermelho, em decorrência da gastança sem lastro promovida pela atual gestão, entre tantos outros disparates.
Essa desconfiança inicial não se devia apenas ao fato de Flávio ser pouco conhecido no plano nacional e não ter o carisma do pai, cuja penetração popular é inegável, independentemente do que se pense sobre o ex-presidente, que está impedido de participar das eleições.
Como se sabe, Bolsonaro se tornou inelegível até 2030, por decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), sob a alegação de ter espalhado desinformação a respeito das urnas eletrônicas numa reunião com embaixadores em julho de 2022. Foi, ainda, condenado a 27 anos e três meses de prisão pelo STF (Supremo Tribunal Federal), sob a acusação de tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito, e cumpre sua pena no momento em confinamento domiciliar. Por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF, ele foi proibido temporariamente até de receber visitas, inclusive de familiares.
Esquema de “rachadinha”
Mesmo para bolsonaristas de carteirinha, a impressão inicial era de que o passivo de Flávio – que foi alvo de investigações por suposto envolvimento num esquema de “rachadinha” com funcionários de seu gabinete, quando era deputado estadual no Rio (2003-2019), além de ter sido acusado de comprar uma franquia da Kopenhagen para lavar o dinheiro – era alto demais para ele sobreviver à artilharia do lulopetismo.
Mas, a cerca de um mês e meio das eleições, com a campanha eleitoral ganhando tração, Flávio vem demonstrando uma surpreendente resiliência nas pesquisas registradas no TSE. Vários levantamentos o apontam como o candidato da oposição mais bem colocado na preferência dos eleitores no primeiro turno e em empate técnico com Lula no segundo turno.
De acordo com pesquisa Quaest divulgada na semana passada (registro TSE BR-06773/2026), Flávio aparece apenas três pontos abaixo de Lula no segundo turno, dentro da margem de erro do levantamento, com 40% das preferências dos entrevistados contra 43% do presidente. Já a pesquisa PoderData (registro TSE BR-06868/2026), igualmente apresentada na semana passada, mostrou Flávio ainda mais perto de Lula, com 45% das preferências contra 46% do petista.
Nem o vazamento de seu áudio com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro sobre o financiamento do filme “Dark Horse”, inspirado na trajetória de seu pai, nem a briga pública com a madrasta Michelle Bolsonaro foi suficiente para afetar de forma significativa sua posição nas sondagens e tirá-lo do páreo. Embora tenha perdido alguns pontos nos levantamentos logo depois dos dois episódios, ele já aparece no vácuo de Lula novamente nas pesquisas mais recentes.
A decisão de partidos do Centrão, como o Progressistas, o União Brasil, o Republicanos e o Podemos, de manter a neutralidade no pleito, tampouco o derrubou de forma consistente, ao menos até agora. Segundo o noticiário, a decisão teria ocorrido por interferência do próprio STF, que teria ameaçado os caciques dos partidos de dar andamento a processos que correm na Corte contra eles, por envolvimento no escândalo do Banco Master, caso dessem apoio formal à candidatura de Flávio.
Até quando ele recuou nas pesquisas, os demais candidatos da direita e da centro-direita – o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, do PSD, Renan Santos, do Missão, e Zema, do Novo – não conseguiram capitalizar seu tombo em seu favor. Apesar de o presidente do PSD, Gilberto Kassab, candidato a vice na chapa de Caiado, ter dito que a chance de Flávio se eleger “é zero”, isso traz bons presságios para seu desempenho nas urnas.
“Tariflávio”
Realmente, é impressionante que ele tenha se mantido como candidato competitivo nesta altura do campeonato, em meio a tantas adversidades e ao movimento do establishment para isolá-lo na corrida eleitoral. Como Fênix, a ave da mitologia grega que ressurge das cinzas, Flávio parece voltar revigorado a cada revés, para desalento de seus adversários, e chegou em condições efetivas de vencer a disputa, na largada oficial da campanha, iniciada neste domingo, dia 16.
Aparentemente, pelo que se pode deduzir das últimas pesquisas, nem o bordão “tariflávio”, propagado pelo PT e por sua tropa de choque nas redes sociais, em referência a uma suposta ação de Flávio e de seu irmão Eduardo em defesa do tarifaço imposto pelo governo Trump a importações de produtos brasileiros pelos Estados Unidos, afetou de forma relevante sua candidatura. As sanções impostas a autoridades brasileiras, por participarem de ações antidemocráticas e pela perseguição ao grupo político de Bolsonaro, também não tiveram grande impacto.
Ao contrário do que muitos analistas imaginavam, as bravatas “nacionalisteiras” de Lula contra os EUA por conta do tarifaço e das sanções, com o resgate do discurso embolorado em defesa da tal “soberania nacional”, que prosperava no país na época do “ianques go home”, nos anos 1950 e no início da década de 1960, parecem não ter surtido os efeitos desejados. No caso da classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos EUA, o impacto foi até desfavorável a Lula e seus aliados, que se opunham radicalmente à medida, apoiada por cerca de 60% da população, conforme as pesquisas.
Se, depois de tudo isso, propagado por aí com o apoio incondicional de boa parte da mídia tradicional, Flávio ainda conseguiu se manter na cola de Lula, parece improvável que agora, com a campanha entrando em sua fase decisiva, sua candidatura definhe. É certo que, no calor da disputa, não dá para descartar nenhum cenário. Mas, a julgar pela resiliência demonstrada por Flávio nas pesquisas, tudo indica que boa parte dos eleitores, inclusive aqueles que não morrem de amores por ele, votaria até “num copo”, como Zema, para apear Lula e o PT do Planalto.

É jornalista desde 1983. Foi repórter especial e colunista do Estadão, editor de Economia e repórter especial da revista Época, editor-chefe da revista Pequenas Empresas & Grandes Negócios e editor-executivo da revista Exame. Foi também repórter da Gazeta Mercantil e da Folha. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



