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Em palestra feita em 2012 – 14 anos atrás, portanto –, o economista e escritor Eduardo Gianetti afirmou que o Brasil teve duas chances após a Segunda Guerra Mundial para se tornar um país rico... e desperdiçou as duas. Gianetti acrescentou que, naquele momento, o Brasil estava diante da terceira grande chance, mas correndo o risco de desperdiçar essa nova oportunidade de enriquecer por acreditar que o bom crescimento econômico de anos anteriores dava garantia de sucesso futuro.
Quanto às chances perdidas, a primeira foi no governo Juscelino Kubitschek (1956-1961), quando o plano de crescer “50 anos em 5” trouxe a indústria automobilística, a construção de Brasília, a ampliação da malha rodoviária e outras obras. Nos governos seguintes, de Jânio Quadros e João Goulart, os efeitos do governo Juscelino apareceram em forma de inflação, em parte causada pela emissão de moeda para financiar a construção de Brasília. Em 1964, a inflação foi de 92% e, naquele momento, morria o sonho de um Brasil grande.
A inflação foi controlada no governo Castello Branco, e na sequência vieram dois Planos Nacionais de Desenvolvimento: o PND I, de 1972-1974, e o PND II, de 1975-1979. Esses planos prometiam levar o Brasil ao crescimento, mas vieram duas pesadas crises do petróleo, uma em 1973 e outra em 1979; a inflação ressurgiu em 1979 e durou 15 anos, atrapalhando o sonho de crescimento robusto. Morreu ali a segunda chance.
Quando Gianetti fez seu alerta, em 2012, a terceira chance de o Brasil vencer o atraso e a pobreza tinha como ponto forte o bônus demográfico, caracterizado pelo fato de que o total de crianças e idosos era pequeno em relação ao número de pessoas em idade de trabalhar.
O Brasil tinha a chance de enriquecer antes de envelhecer, mas o projeto de país desenvolvido está cada vez mais longe
Atualmente, 14 anos já se passaram desde a advertência do professor Gianetti, uma pandemia se atravessou em nosso caminho, a população está envelhecendo e o país segue pobre. E agora, o sonho de um Brasil desenvolvido parece cada vez mais distante.
A população brasileira saltou de 52 milhões em 1950 para 161,5 milhões em 1995, em função da alta taxa de fecundidade, que chegou à média de cinco filhos por mulher. Com isso, a população se multiplicou por três em apenas 45 anos, criando uma grande geração em idade de trabalhar. Com o total de crianças e idosos sendo pequeno em relação ao número de pessoas em idade de trabalhar, o país estava em boa condição para poupar e investir a fim de criar uma infraestrutura e um estoque de capital produtivo capaz de enriquecer a nação.
Assim, o país chegou a 2012 diante do desafio de usar esse bônus demográfico e enriquecer nas duas décadas seguintes, ou perder a última chance. Não conseguindo aproveitar a oportunidade, as pessoas entre 15 e 64 anos envelhecem e devem ser sustentadas por uma população bem menor.
O Brasil tinha a chance de enriquecer antes de envelhecer. Mas o tempo passou, estamos na segunda metade da terceira década do século 21 e o projeto de país desenvolvido está cada vez mais longe. Uma das razões é nosso atraso na corrida tecnológica.
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Conquanto tenha se desenvolvido em certas áreas em termos tecnológicos, o Brasil é importador de tecnologia, especialmente nas áreas de tecnologia de ponta. Uma das consequências dessa realidade é a baixa produtividade da indústria de transformação.
O caso da indústria brasileira envolve duas questões problemáticas: o crescimento do parque industrial em geral e a estagnação da produtividade desde os anos 1980. Quando essa situação é comparada aos feitos da atual quarta revolução tecnológica, o desempenho brasileiro é baixo.
Vale mencionar um aspecto importante: sempre que o Brasil é analisado em termos da construção das bases para o desenvolvimento, vem logo à mente o sucesso do agronegócio nos últimos 60 anos, com seu desempenho espetacular. Em 1970, o país produziu 32 milhões de toneladas de grãos, e a população era de 94 milhões (340 quilos per capita). Em 2025, foram colhidas 340 milhões de toneladas para uma população de 213,4 milhões (1.593 quilos per capita).
Um dos gargalos da economia brasileira é que ao bom desempenho do agronegócio não se seguiu uma revolução na infraestrutura física nem na produtividade industrial. Eis aí dois grandes desafios. Será que os políticos que dirigem a nação estão pensando nisso?
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








