
Ouça este conteúdo
Quais são os três maiores problemas do Brasil? Para mim, são a violência, a pobreza e o baixo nível educacional. Há outros problemas sérios, mas creio que os três maiores são esses que menciono, posto que eles estão no tronco do baixo padrão médio de vida e do atraso brasileiro.
De fato, esses três problemas são causas e são efeitos da realidade brasileira e de como o país foi construído ao longo de seus 526 anos desde o descobrimento. A maior lástima do atraso é que ele se realimenta e contamina todas as atividades.
Como exemplo, costumo citar o atraso do turismo brasileiro, que é um setor do qual se poderia obter investimentos, atividade produtiva, emprego, renda, impostos e, por consequência, elevação do bem-estar social.
O atraso do setor turístico pode ser revelado em informações como esta: a cidade de Nova York, sozinha, recebe 13 milhões de turistas estrangeiros por ano, enquanto o Brasil inteiro recebe em torno de 6,7 milhões, segundo dados de 2024.
A cidade de Nova York, sozinha, recebe anualmente o dobro do número de turistas estrangeiros que visitam o Brasil inteiro
A questão que intriga é o fato de uma única cidade de 8,5 milhões de habitantes receber anualmente mais que o dobro dos turistas estrangeiros que o Brasil recebe, mesmo sendo um território imenso, cheio de belezas naturais e com seus 213 milhões de habitantes.
A pequenez do turismo brasileiro, que poderia ser um setor gigante e dinâmico, começa com a ausência de turistas estrangeiros provocada pela violência e a péssima fama internacional do país como sendo um lugar perigoso e arriscado.
Esse problema vem de longe. Em 1966, o governo criou a Empresa Brasileira de Turismo (Embratur), como empresa estatal (depois transformada em autarquia; atualmente, é um instituto como serviço autônomo) para fomentar o turismo nacional. Mas os resultados são escassos.
A Embratur assumiu a responsabilidade pela política nacional de turismo com a tarefa principal de promover, no mercado internacional, o marketing e o apoio à comercialização dos destinos, serviços e produtos turísticos brasileiros. Mas isso pouco funcionou.
Lembro que certa vez a Embratur fez uma pesquisa na Europa para descobrir as razões de os turistas europeus virem tão pouco ao Brasil. O resultado foi uma lista de cinco motivos principais.
Primeiro, a falta de segurança pública. A fama de país violento e perigoso é antiga e perdura até hoje, funcionando como fator de afastamento do turista estrangeiro. Com a explosão da televisão a partir dos anos 1960, o que mais se divulga sobre o Brasil no exterior é a violência. Um exemplo é o caso do Rio de Janeiro, que é uma das cidades mais bonitas do mundo, mas cujo desempenho econômico no setor de turismo é medíocre. A causa maior é a péssima imagem internacional da cidade, essencialmente pelo elevado grau de violência.
Segundo, a precária infraestrutura de transporte. O turista é um tipo de consumidor que viaja prioritariamente de trem e de metrô. É impensável, por exemplo, estudantes turistas se deslocarem num país tão grande por avião.
Terceiro, sistema de sinalização e informação deficiente. Hoje, com a existência da telefonia celular e o GPS, tudo ficou mais fácil. Mas o Brasil sempre foi muito mal sinalizado. Ruas sem placas, sinalização escrita somente em português etc. Até os anos 2000, se um estrangeiro não falante do português fosse abandonado no centro de qualquer cidade grande brasileira, ele não saberia como se orientar. É recente a prática de colocar nomes e textos em placas e painéis na língua universal, o inglês.
O setor de turismo poderia ser muito maior, fonte de alto rendimento, gerador de receitas, empregos, impostos e fomento ao crescimento do país
Quarto, a sujeira nas cidades, praias e ambientes públicos e a proliferação da população miserável de rua. Atualmente, a norma nas capitais e mesmo nas demais cidades é um cenário de sujeira e sinais de coisa malcuidada.
Quinto, a fama de que o brasileiro é um povo cordial, mas pouco profissional. Certa vez, presenciei um turista alemão que, após ficar 40 minutos na fila do check-out num hotel em São Paulo, perdeu a paciência e fez um escândalo, dizendo que ia perder o avião de volta a seu país. Após se acalmar, ele disse a frase fatal: os brasileiros são simpáticos, educados e cooperativos, mas falham em eficiência. Esse fato isolado revela uma verdade lapidar: eficiência profissional é mais importante que apenas tratamento cordial. Cordialidade sem profissionalismo não funciona e não gera cliente satisfeito.
Dados publicados dão conta de que a cadeia econômica do setor de turismo chega a representar 8% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, que é um PIB pequeno. O setor de turismo poderia ser muito maior, fonte de alto rendimento, gerador de receitas, empregos, impostos e fomento ao crescimento do país.
As oportunidades estão aí; resta saber se iremos aproveitá-las e crescer ou seguir jogando-as fora pela janela da história.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








