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“A soberba precede a queda”, diz o versículo bíblico de Provérbios (16,18). Portanto, o alerta é antigo. Soberba é marca de pessoa vaidosa, que se julga superior e, por isso, se torna arrogante a ponto de achar que sabe tudo e não precisa ouvir a opinião de ninguém.
Em larga medida, soberba e arrogância são sinônimos e ambas derivam de ego inflado comum em pessoas que se julgam infalíveis e ignoram seus limites. Claro que podemos ter consciência de nossas qualidades e nossos conhecimentos. O problema está em crer que sempre estamos certos e somos infalíveis.
No livro Como as gigantes caem, Jim Collins fala de seus estudos sobre empresas de sucesso, aparentemente sólidas, que acabam se tornando fracas, definhando ou mesmo desaparecendo, sob o ar de surpresa de muitos.
Certo dia, li uma observação que me marcou: a ruína iminente se insinua em silêncio; quando você está por cima, é a nação mais poderosa, a empresa de maior sucesso, o melhor jogador de seu jogo, seu poder e sucesso podem ocultar o fato de que você está no caminho do declínio.
Enquanto se está ganhando, há sempre o perigo de as pessoas e as empresas de sucesso ultrapassarem a linha divisória entre autoconfiança e arrogância
Mas como é possível saber? Em seu livro, Jim Collins apresenta um resumo do que ele chamou “os cinco estágios do declínio”, cujo conteúdo pode ser aplicado a nós em nossa vida pessoal ou profissional, e ocorre o tempo todo no mundo da política e dos negócios.
Estágio 1: O excesso de confiança proveniente do sucesso. Muitas vezes, o sucesso é mau conselheiro. Enquanto se está ganhando, há sempre o perigo de as pessoas e as empresas de sucesso ultrapassarem a linha divisória entre autoconfiança e arrogância. É quando, crendo-se infalível, erros começam a ser cometidos.
Estágio 2: A busca indisciplinada por mais. Junto da arrogância vem a busca por mais (mais crescimento, mais poder, mais aplausos), que ocorre de forma não planejada e indisciplinada. É quando a arrogância faz as pessoas perderem a capacidade de ouvir, vítimas da crença “eu sou um sucesso; logo, posso tudo”.
Estágio 3: A negação dos riscos e dos perigos. Pessoas arrogantes geralmente não percebem os sinais de que algo está errado e, quando o desvio acomete toda a organização, elas começam a negar os problemas, os riscos e os perigos. Um longo histórico de sucesso cria as condições favoráveis a deixar mais próximo o dia em que serão cometidos erros que, por não serem vistos e negados, produzem pessoas e empresas falidas e desprezadas pela sociedade e pelos bajuladores de antes.
Estágio 4: A luta desesperada pela salvação. Quando uma pessoa ou empresa passa pelos estágios anteriores, vem o estágio 4, geralmente marcado pela luta desesperada e desorganizada para salvar a carreira ou o negócio. É quando as pessoas já não fazem as coisas certas e tentam saídas ridículas e impróprias. Vilfredo Pareto, economista do século 19, dizia que “é inútil confiar a quem destruiu uma máquina a tarefa de reconstruí-la”. Quando são inteligentes e competentes, os arrogantes até arriscam algum lance de sensatez, mas em geral o fazem tarde demais ante o fracasso iminente.
Estágio 5: A entrega à irrelevância ou à morte. Há casos de empresas que passam por esses estágios e até sobrevivem, mas sem o brilho anterior. Outras se tornam irrelevantes e agonizam por um tempo até o dia em que chega o fim total.
Pessoas arrogantes geralmente não percebem os sinais de que algo está errado
A lógica da arrogância e do fracasso aparece para nós o tempo todo na forma de falências empresariais, artistas e atletas que ficaram bilionários e perderam tudo, poderosos que se inebriaram com o poder e terminaram pobres e esquecidos e outros tantos exemplos.
Mas essa realidade não se aplica somente a empresas e pessoas públicas e famosas. Acontece o tempo todo nas famílias, nas empresas e na vida profissional de milhões de pessoas anônimas. Portanto, o problema é maior e mais sério do que apenas os casos que saem na mídia.
O livro Como as gigantes caem, de Jim Collins, foi lançado em 2009, mas saiu no Brasil somente em 2018 e me parece que não fez muito sucesso de vendas. Porém, seu conteúdo é valioso e muito útil, especialmente neste Brasil em que o ambiente profissional e empresarial é hostil e perigoso. É uma leitura que vale a pena.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

José Pio Martins é economista. Atuou como Secretário do Planejamento de Londrina, Diretor Geral da Secretaria da Fazenda do Paraná, Vice-Presidente do Banco do Estado do Paraná, Presidente da Banestado Crédito Imobiliário e outros, professor de Macroeconomia, Microeconomia, Finanças Empresariais e Filosofia. É autor dos livros “Educação Financeira ao Alcance de Todos” e “Seu Futuro”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



