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Os liberais seguem acreditando que o problema da organização econômica do mundo continua sendo a dicotomia entre a economia capitalista livre e a economia estatal controlada pelo partido único vigente nas ditaduras comunistas.
Não é mais assim. Atualmente, a oposição entre socialismo e capitalismo tem outra forma e outros meios. Hoje, a proposta do socialismo (ou comunismo) não é mais transformar as unidades produtivas em empresas estatais geridas pelo governo.
No início, o socialismo proposto por Karl Marx era entendido como a estatização de todos os meios de produção, como instrumento para concentrar o poder econômico nas mãos do Estado, o que ajudaria também no aumento do poder político do governo e seus tripulantes.
A concepção marxista inicial começou a se esvair de maneira profunda após o fim da Segunda Guerra Mundial, e a concentração do poder nas mãos do Estado comandado pelo partido único passou a se estruturar por outros meios.
Cada megacapitalista é um revolucionário usando meios de ação que não são políticos
Ao estudar o estágio da civilização mundial, além dos assuntos públicos ligados aos interesses coletivos da população, surge um problema fundamental: a nova redistribuição do poder entre o Estado e a sociedade.
O Estado é um território, um povo e um governo. Mas o Estado não tem seu próprio dinheiro nem seu próprio poder. O dinheiro que o Estado tem é o que ele retira da população pela tributação, e o poder que detém é aquele que a sociedade lhe concede.
Nas ditaduras e regimes totalitários, o dinheiro e o poder que o Estado tem são viabilizados pela força derivada do aparato militar, como ocorreu nas ditaduras russa e soviética, cubana, alemã oriental, e tantas outras.
Modernamente, o conceito de revolução tem como eixo principal a reestruturação total da sociedade para gerar a concentração do poder. Mas essa proposta não é exclusiva dos comunistas. Existe um forte elemento dela dentro do próprio capitalismo.
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Por exemplo, as megaempresas de informática e inteligência artificial estão criando robôs mais capazes e mais fortes fisicamente do que os seres humanos, surgindo daí a mitologia de que os robôs dominarão e controlarão os seres humanos.
Porém, quem vai dominar os seres humanos não são os robôs; são as empresas que os produzem, ou seja, são outros seres humanos, que usarão os robôs para controlar a sociedade.
Assim, cada megacapitalista é um revolucionário usando meios de ação que não são políticos. A esse respeito, o professor Olavo de Carvalho dizia que nem Stálin teve a ideia de controlar a sociedade por meio de robôs e da tecnologia. Agora sabemos que uma empresa capitalista pode concentrar um poder maior do que o socialismo jamais imaginou.
Quanto ao comunismo, alguém poderia questionar como se pode dizer que ele existe se o governo não é dono de todas as empresas. Para isso, basta ver como funciona o comunismo chinês, onde as megaempresas privadas nacionais ou estrangeiras operam normalmente.
Poder nada mais é do que a capacidade de se fazer obedecer. As empresas privadas na China têm liberdade, desde que obedeçam ao governo
Ocorre que o comunismo deixou de ser um sistema de estatização de todos os meios de produção, pela simples razão de que, para controlar a sociedade o Estado, o governo não precisa ser dono das empresas, bastando deter em suas mãos o poder político e o poder militar.
A China é uma ditadura de partido único sustentada por um gigantesco aparato militar e o poder político de se fazer obedecer – poder nada mais é do que a capacidade de se fazer obedecer. As empresas privadas na China têm liberdade, desde que obedeçam ao governo.
Vale lembrar o caso de Jack Ma, o megaempresário fundador da empresa chinesa Alibaba, que ficou desaparecido por alguns meses em 2020, e depois voltou mansinho, contendo sua rebeldia. Ou ele obedecia ou enfrentava o pelotão de fuzilamento.
Naquela época, a revista Forbes disse que, nos últimos anos, pelo menos seis grandes empresários bilionários ficaram fora de cena por certo período, após terem quebrado regras do Partido Comunista Chinês.
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De fato, o Estado não precisa se dar ao trabalho árduo e complexo de ser dono das empresas para produzir tudo o que o país necessita. Basta que o aparato estatal controle os empresários e os trabalhadores e tenha a capacidade de se fazer obedecer.
Por aí, consegue-se entender por que Lula e Gilmar Mendes declararam que são admiradores do regime chinês. Alguém tem dúvida de que é por causa do poder do Partido Comunista Chinês de submeter um país de 1,4 bilhão de habitantes a sua tutela, controle e punição?
No Brasil, a maioria dos políticos não tem a menor ideia do que é a realidade profunda da ciência política mundial e das forças que comandam e dominam a sociedade e o curso da história.
A maior parte dos políticos que se elegem para um cargo em Brasília acaba virando despachante atrás de emendas e verbas públicas para obras em seus municípios, pois essa é a régua com a qual são avaliados e é a forma de continuarem sendo reeleitos.
Debaixo de nossos olhos é construída uma gigantesca rede de leis, instituições e entes estatais que, passo a passo, vão dominando cada vez mais nossos negócios, nossa renda e nossas vidas
Pensando bem, os políticos não estão errados, pois a regra do jogo é essa. Enquanto isso, debaixo de nossos olhos é construída uma gigantesca rede de leis, instituições e entes estatais que, passo a passo, vão dominando cada vez mais nossos negócios, nossa renda e nossas vidas.
Não só os comunistas adoram a concentração de poder em suas mãos. Salvo raras exceções, os democratas, quando no poder, também buscam aumentar seu poder e o domínio sobre a sociedade, estreitando assim cada vez mais a liberdade das pessoas e empresas.
Ressalve-se que os capitalistas e os cidadãos não são anjos; logo, não se trata de propor a liberdade incondicional, mas sim a liberdade sob a lei como uma norma geral de conduta justa, aplicável a um número desconhecido de casos futuros e igual para todos.
Esse tipo de assunto assusta e causa algum medo, porém é importante entender o que está em jogo e é essencial para a construção de nosso futuro.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

José Pio Martins é economista. Atuou como Secretário do Planejamento de Londrina, Diretor Geral da Secretaria da Fazenda do Paraná, Vice-Presidente do Banco do Estado do Paraná, Presidente da Banestado Crédito Imobiliário e outros, professor de Macroeconomia, Microeconomia, Finanças Empresariais e Filosofia. É autor dos livros “Educação Financeira ao Alcance de Todos” e “Seu Futuro”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



