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Quando o Brasil saiu do regime militar em 1985, com a eleição do primeiro presidente civil desde 1964, a globalização começava a se acentuar pela maior abertura comercial entre as nações, redução da legislação protecionista, aumento do investimento estrangeiro nos países capitalistas, liberalização do fluxo de capitais e maior intercâmbio tecnológico.
Após 20 anos do regime militar, foram realizadas eleições indiretas (votação pelo Colégio Eleitoral composto por membros do Congresso Nacional e delegados indicados pelas assembleias legislativas estaduais) e foi eleito Tancredo Neves, cujo programa prometia modernizar o Brasil e aderir às regras da globalização.
Tancredo Neves adoeceu no dia 14 de março de 1985, véspera da posse como Presidente da República, e veio a falecer 38 dias depois, em 21 de abril, o que levou seu vice, José Sarney, a assumir o cargo com a equipe que houvera sido montada por Tancredo.
Sarney declarou que seguiria o programa formulado por Tancredo, e os agentes econômicos passaram a trabalhar com a expectativa de que o Brasil iria trilhar o caminho da globalização, a par de enfrentar os problemas internos, entre eles a hiperinflação que começava a se agravar.
Sorman argumentava que o atraso não é fatalidade, mas resultado de políticas equivocadas inspiradas em teorias esquerdistas.
Foi naquele ano de 1985 que passou a circular no país, com relativo sucesso entre intelectuais e empresários, um livro intitulado O Estado Mínimo, de autoria do escritor francês Guy Sorman (1944-), que já vinha sendo debatido na França, país com expressivas correntes socialistas.
Em seu livro, Guy Sorman demonstrava indignação com os países que mesmo premiados por riqueza natural continuavam pobres e atrasados, o que era o caso do Brasil. Sorman argumentava que o atraso não é fatalidade, mas resultado de políticas equivocadas inspiradas em teorias esquerdistas.
Sorman denunciava o crescimento desmedido do Estado e suas máquinas burocráticas clientelistas, inchadas e caras, que somadas às empresas estatais ineficientes mais o baixo investimento social respondiam pela dificuldade dos países em crescer e melhorar a renda por habitante.
Quando veio ao Brasil para fazer palestras, Sorman declarou que nosso país padecia dos problemas que mantinham o país pobre e que o excesso de regulamentação e medidas intervencionistas eram responsáveis por inibir a criação de empresas e a geração de empregos.
Embora as ideias da globalização que avançava no mundo recebessem atenção nos debates nacionais, especialmente porque o Brasil precisava com urgência estimular as exportações e atrair tecnologias e investimentos estrangeiros, o governo Sarney avançava muito lentamente nas propostas modernizantes.
O governo Sarney era frágil por ele ter assumido em razão da morte de Tancredo na condição de ex-aliado do regime militar e pela hiperinflação, que crescia apesar de seu governo ter tentado combatê-la com o Plano Cruzado lançado em fevereiro de 1986. Esse plano fracassou sob suas medidas antiliberdade e congelamento de preços e salários.
Há um dado histórico interessante que dificultou a redução do tamanho do setor estatal e a ampliação das liberdades econômicas. Esse dado refere-se à aprovação da Constituição Federal em 1988, um ano antes da queda do muro de Berlim ocorrida em novembro de 1989, prenúncio do fim do império socialista soviético que viria a ocorrer em 1991.
Se a Constituição de 1988 tivesse sido votada após a derrocada dos regimes socialistas, talvez ela não seguisse a linha estatizante, favorável ao inchaço da máquina pública e não abertura da economia para o exterior e criação de facilidades para o aumento do tamanho do governo, como foi o caso do afrouxamento das regras para criação de municípios.
Em 1985, quando Sarney assumiu, o Brasil tinha 3.991 municípios. Logo após a liberalização dada pela Constituição de 1988, houve uma corrida para criação de municípios, cujo total chega hoje a 5.570 municípios com toda gama de gastos, ineficiência, corrupção e pesados impostos.
Em seu livro, Guy Sorman menciona também o mal que o governo impõe ao povo quando destrói a moeda nacional pela inflação e lembra que, como contribuintes, nós financiamos o Estado pagando tributos; como poupadores, o financiamos uma segunda vez pela inflação; e como trabalhadores, o financiamos uma terceira vez pelos pesados encargos trabalhistas.
Guy Sorman não é um anarquista que dispensa o Estado, que ele afirma ser necessário, desde que restrito a suas funções clássicas
A onda liberal dos anos 1980 nasceu do desequilíbrio entre os serviços prestados pelo governo e o alto custo imposto à sociedade para sustentar o Estado. Parte dos movimentos a favor da redução do tamanho do governo e ampliação da liberdade econômica foi causada pelo esgotamento da paciência com a intervenção exagerada do Estado.
A onda socialista estatizante teve grande projeção na França, terra do liberal Guy Sorman, país onde diante do desemprego e da pobreza os esquerdistas tentavam convencer a sociedade de que a solução estava em mais governo e mais impostos, propostas com as quais elegeram vários presidentes.
Guy Sorman não é um anarquista que dispensa o Estado, que ele afirma ser necessário, desde que restrito a suas funções clássicas, sem invadir áreas em que sua intromissão acaba empobrecendo a nação à medida que se torna politicamente opressor, economicamente ineficiente e eticamente corrupto. Essa é a base do revisionismo teórico proposto por Guy Sorman, absolutamente necessária ao Brasil.




