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José Pio Martins

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Tragédias evitáveis

Um jogo de futebol, 328 mortos e duas questões

tragédia estádio nacional de lima
Mais de 300 pessoas morreram durante uma invasão ao gramado do Estádio Nacional de Lima, em 1964. (Foto: Imagem criada utilizando Flow/Gazeta do Povo)

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Se há algo inerente às profundezas da mente humana e que está entranhado em todos nós é nossa limitação na habilidade de antever e de prever. Esses dois verbos têm certa semelhança, no sentido de ver antes, mas a rigor dá para estabelecer uma sutil distinção de significado.

A arte de prever pode ser entendida como a capacidade de ver situações no futuro a partir de informações e análise baseada em fatos presentes e passados, enquanto antever é um verbo mais ligado à capacidade de ver agora algum evento futuro com base em pressentimento, intuição ou sexto sentido.

Em realidade, nossa capacidade preditiva em geral é bastante limitada. Acreditar nessa limitação e saber como melhorar a capacidade de fazer previsões sobre atos e fatos que, se ocorrerem, se revelem decisivos ao curso da vida é um elemento de sucesso... ou de fracasso.

Um profissional é tão mais valoroso e propenso ao sucesso se ele for humilde o suficiente para estudar o maior número possível de casos a fim de aprender com os erros e acertos de casos similares. Aliás, a capacidade de aprender com os resultados dos outros é um elemento essencial do sucesso.

Estudar com atenção os casos de fracasso e suas causas é fundamental para o alcance da excelência

Há um provérbio que diz: os inteligentes aprendem com os erros dos outros, os normais aprendem com os próprios erros, e os estúpidos não aprendem nunca. Estudar com atenção os casos de fracasso e suas causas é fundamental para o alcance da excelência. Vou me referir a dois casos.

O primeiro deveria ser estudado por todo engenheiro e empresário de obra feita para abrigar muitas pessoas simultaneamente, como cinemas, teatros, estádios de futebol e casas de shows. Falo da tragédia no Estádio Nacional de Lima, no Peru, em 24 de maio de 1964.

Naquele fatídico dia, 45 mil torcedores lotavam as arquibancadas para ver o jogo entre Peru e Argentina, pelo torneio pré-olímpico. Faltavam dois minutos para o término do jogo e a Argentina vencia por 1 a 0. De repente, o grande artilheiro do Peru, Lobatón, marca um gol.

A torcida vai à loucura. Com a partida empatada, a multidão vibrava com a prorrogação necessária. Mas o árbitro, o uruguaio Angel Pazos, anula o gol alegando alguma irregularidade. A multidão explode em raiva, Pazos decide encerrar o jogo e a maioria dos torcedores começa a sair.

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Mas um torcedor, Matias Rojas, invade o gramado e ataca o juiz. Apenas 40 policiais faziam a segurança do evento, mas eles conseguiram imobilizar o torcedor e começaram a arrastá-lo para fora do campo.

Foi nesse momento que milhares de torcedores enfurecidos e descontrolados derrubaram o alambrado e se lançaram sobre o gramado. E então começou a tragédia de pessoas sendo pisoteadas; outros milhares correram rumo às portas de aço de saída, mas elas ainda não estavam abertas.

No tumulto, uma garotinha de 1 ano e meio perdeu-se de seu pai e morreu esmagada pela multidão. Uma turba de torcedores furiosos seguiu até a residência do presidente do Peru, Fernando Belaunde, exigindo que o jogo fosse declarado empatado.

Naquele momento, 328 torcedores já estavam mortos e outros mais de 500 estavam feridos, muitos em estado grave. Esse episódio triste e lamentável deixou várias lições. Mas o quanto aprendemos com elas?

Todo engenheiro e empresário de obra destinada a abrigar muitas pessoas simultaneamente precisa estudar tragédias ocorridas em locais similares

O segundo caso é o da Boate Kiss. Esse caso revela que os engenheiros e os proprietários da boate não aprenderam com a tragédia do Estádio Nacional de Lima. Se tivessem aprendido com o caso peruano e levado a sério o perigo que ronda multidões espremidas em um local, a tragédia poderia ter sido evitada.

Localizada em Santa Maria (RS), a Boate Kiss foi palco de uma tragédia que matou 242 pessoas e feriu 636 outras, na madrugada de 27 de janeiro de 2013. Foi uma das mais dramáticas tragédias evitáveis, se certos cuidados tivessem sido tomados na questão da segurança do local.

Se tivessem estudado e pesquisado, os responsáveis pelos erros que causaram a tragédia na Boate Kiss teriam aprendido com o incêndio no clube noturno Cocoanut Grove, na cidade de Boston (EUA).

O Cocoanut Grove tomava uma quadra inteira no centro de Boston, tinha capacidade para quase 500 pessoas, mas na noite de 28 de novembro de 1942 quase mil pessoas lotavam a casa, bebendo, comendo e vendo o espetáculo, e ninguém parecia querer ir embora.

Se tivessem estudado e pesquisado, os responsáveis pelos erros que causaram a tragédia na Boate Kiss teriam aprendido com o incêndio no Cocoanut Grove, em 1942

Um curto-circuito em uma lâmpada lançou uma faísca sobre uma cortina, que se incendiou e rapidamente o fogo se espalhou pelo teto e pela decoração. Em cinco minutos, todo o local estava em chamas.

As portas de saída abriam para dentro, e algumas estavam trancadas ou escondidas pela decoração. Na entrada principal, havia uma porta giratória, que seria a única salvação. A multidão aterrorizada avançou sobre essa porta e a empurrava em ambas as direções. A porta ficou totalmente bloqueada; quando os bombeiros chegaram, havia mais de 200 corpos carbonizados atrás da porta giratória. Ao fim de tudo, 492 mortos foram o resultado daquela tragédia que abalou Boston e todo o país.

Há muitos outros casos, mas essas duas tragédias se tornaram casos obrigatórios em cursos feitos por engenheiros, arquitetos, especialistas em segurança de locais onde se concentram multidões e, principalmente, pelas autoridades que fazem as regras regulatórias de construção e prevenção. Essa é a primeira questão.

A segunda questão é uma pergunta obrigatória: o que o Brasil, as autoridades, os construtores, os empresários e os especialistas em segurança aprenderam com o caso da Boate Kiss e quais mudanças ocorreram após a tragédia? Fica aí a pergunta.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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