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Leonardo Coutinho

Leonardo Coutinho

Brasil, América Latina, mundo (não necessariamente nesta ordem)

A prisão petista

A esquerda brasileira e seu labirinto

Após décadas, Lula continua no centro da esquerda. A dependência do petismo revela o fracasso de um partido incapaz de formar uma liderança além de seu fundador. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

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Em 1982, Lula era o candidato novo diante de Franco Montoro e Jânio Quadros. Os dois haviam começado na política nos anos 1940. Jânio já tinha sido presidente da República e renunciado ao cargo. O sindicalista enfrentava políticos com mais de três décadas de estrada. Diante disso, Lula tinha em seu favor o argumento da novidade. Passaram-se 44 anos. Lula continua candidato e o discurso continua o mesmo.

A esquerda teve tempo de chegar ao poder, perdê-lo e recuperá-lo. Ainda não encontrou tempo para descobrir o que fazer sem Lula

No domingo, 25 de outubro, um Lula prestes a completar 81 anos disputará seu quarto mandato presidencial. Sua carreira nas urnas já é quase uma década mais longa que a dos veteranos que enfrentou naquela primeira eleição paulista de 1982. A promessa de renovação daquela época virou a garantia de que tudo pode continuar como está, desde que Lula continue no jogo e dando as cartas na esquerda. Ainda que vença a eleição, revertendo o duro prognóstico de derrota, o PT e a esquerda sairão derrotados. A lulodependência é o atestado do fracasso não só dos políticos profissionais, que viveram sob a sombra do líder, mas também dos eleitores petistas que foram se conformando em ser reféns de um elo perdido que os conecta com um mundo que não existe mais.

Quando Lula iniciou aquela campanha, Leonid Brejnev ainda comandava a União Soviética. Ronald Reagan estava no primeiro mandato. Margaret Thatcher completava três anos no governo britânico. O Muro de Berlim estava de pé, e a internet ainda não fazia parte da vida das pessoas. O mundo em que Lula estreou nas urnas acabou. A esquerda brasileira continua procurando o futuro no cartaz daquela eleição na qual o PT dizia: “Trabalhador vota em trabalhador”.

Dilma Rousseff ganhou duas eleições, como poste do Lula. Fernando Haddad chegou ao segundo turno em 2018. Mas o modo de apresentá-los ajuda a entender o problema. Haddad foi vendido ao eleitor com a frase “Haddad é Lula”. A propaganda era tão explícita que tornava desnecessário discutir a sucessão. O novo candidato precisava convencer o público de que era o antigo.

É claro que Lula tem votos. Seria absurdo pedir a um partido que abrisse mão do seu candidato mais competitivo. Mas o argumento, repetido por décadas, virou uma licença para nunca preparar outro. A cada eleição, a urgência de vencer autoriza o adiamento. Quatro anos depois, a mesma urgência encontra o mesmo candidato. E o adiamento passa por estratégia.

A devoção ganhou ferramentas novas. O deputado federal mineiro André Janones organiza um “Exército do Lula” nas redes. O nome descreve bem a tarefa: mobilizar em torno de uma pessoa. Janones se transformou em missionário da desinformação, que já confessou por mais de uma vez usar as fake news como estratégia de terror eleitoral. Estratégia fanática que já lhe rendeu o apelido de Jim Janones, em referência ao líder religioso que em 1978 levou 918 pessoas, incluindo a ele próprio, a se matar em uma cerimônia de suicídio coletivo. É aí que o sectarismo petista se revela em seu esplendor.

Quem nasceu no ano em que Lula estreou nas urnas já passou dos 40. Teve tempo de estudar, trabalhar e criar filhos enquanto o petismo continuava organizando a política em torno do mesmo nome e promessas. O partido mudou de tamanho, fez alianças que antes condenava e aprendeu a governar com antigos adversários. Foi bastante flexível em quase tudo. Na escolha do líder, entretanto, não foi capaz de mudar.

Em 1982, Lula era o nome de quem tentava entrar. Em 2026, tornou-se um lugar de onde a esquerda não consegue sair

No domingo, os brasileiros decidirão quem governará o país. O resultado poderá dar a Lula mais quatro anos de poder ou obrigar o PT a encarar a vida sem Lula. Nenhuma das duas hipóteses elimina a pergunta que a esquerda adiou durante décadas. Uma vitória poderá escondê-la de novo. Uma derrota fará com que seja impossível continuar fingindo que ela não existe. Em 1982, Lula era o nome de quem tentava entrar. Em 2026, tornou-se um lugar de onde a esquerda não consegue sair.

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